“Amanhã estaremos todos mortos” e “Não existe almoço grátis”

Cartoon aquecimento Global

As frases acima já foram consideradas lemas dos economistas. A primeira refere-se ao fato que o desenvolvimento teria que acontecer a todo custo não importando se seria ou não sustentável a longo prazo, pois de qualquer forma não estaremos vivos para ver.

Já “Não existe almoço grátis” é bem mais famosa, significando que, tudo aquilo que você pode pensar que é de graça, na verdade não é. Só pra ficar no assunto deste post: usou petróleo e carvão? A conta do gás carbônico liberado chegou. Não é baixa.

Na semana que foi lançado o relatório do IPCC, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas as manchetes dos jornais, em geral, foram similares à da Folha Online: “Aquecimento fará milhões de famintos e sem água neste século, diz estudo”. Exagerada? Quem viu meu post anterior sabe que simpatizo com os sensacionalistas. Mas claro, a Folha não é nada disto. Há quem diga que é formadora do cidadão consciente!

Cartoon Aquecimento 2 A “reportagem bomba” era apenas uma tradução da agência de notícias Reuters, dizendo basicamente que o relatório aponta que em 2080 a fome matará entre 150 e 550 milhões de pessoas no mundo. Hum….. Li o resumo do relatório e não vi este valor (pode ser visto aqui). Intrigado, procurei no relatório completo (443 páginas) que ainda não li todo, mas garanto: não há nenhuma estimativa de quantas pessoas morrerão em 2080 ou em qualquer outra data. O relatório trata de gás carbônico. É só, e não é pouco. (Marcelo Leite da mesma Folha fez posts precisos sobre o texto).

Sim, o relatório ainda teve desdobramentos e foi concluído em abril e a Reuters talvez tenha conseguido um furo. Então vamos pensar em 2080. Mantendo-se a taxa de crescimento atual, o mundo terá 11 bilhões de pessoas, e segundo a Reuters de 1,3% a 5% morrerão de fome. Hoje o mundo tem 6,5 bilhões e a fome mata 0,2% (10,4 milhões de pessoas. Por favor, lembre-se que estas estimativas são aproximadas…). Assim, haverá um aumento representativo na fome daqui a 74 anos.

 

Pra olhar pro futuro, é necessário entender o passado e seus desdobramentos. Em 1932 (74 anos atrás) o mundo encarava a Grande Depressão (desemprego, quebra da bolsa em 1933). Quem já viu as imagens das ruas dos EUA daquela época constata: não havia um único americano gordo. Fome ou ameaça de inanição eram a regra e não a exceção na hoje obesa nação.

Gde DepressãoNa Europa, afora talvez o então “excêntrico” Churchill, quem poderia imaginar que Hitler faria a segunda guerra mundial? Faltavam ainda 10 anos. Será que é demais lembrar que entre os argumentos nazistas pra guerra, estava a respeitada e reconhecida ciência, a eugenia, que dizia que a mistura de “raças” acabaria com a espécie humana (é eu sei, esta hipótese é do Crichton, pois que seja). Até Bertrand Russel flertou com ela. Não vou discutir a isenção da ciência, mas definitivamente o uso que se faz dela não é isento.

Depois da guerra veio o desenvolvimento, a Guerra Fria, a ameaça nuclear, a revolução verde, os agrotóxicos, o melhoramento genético, etc…. E então, a população humana melhorou em termos de saúde, educação e de calorias consumidas. Nunca me perguntei se a quantidade de comida é responsável pela melhoria da saúde e educação. Na verdade elas são co-variáveis (variam juntas) e não se tem bem certeza quem determina quem. Todas elas influenciam grandemente à expectativa de vida que aumentou substancialmente no mundo todo, incluindo lugares que nunca desenvolveram, por exemplo, um remédio. Quem esperava isto a 74 anos atrás? Vivemos mais hoje. Melhor variável pra mostrar nosso progresso não existe.

Infelizmente para chegar até aqui, muita lenha e óleo teve que ser queimado. E agora, é “muito provável” (como diz o relatório) que o gás carbônico esteja cobrando o almoço, pois ele não vai embora com o vento, ficando lá em cima pra esquentar nossas cabeças.

katrina-08-28-2005            Recentemente, em editorial no periódico, Global Environmental Change, Steve Ryner (editor, v.16: 4-6, 2006) depois de lembrar que na Rio-92 (há 14 anos apenas) o clima não merecia destaque, perdendo de longe para a questão da biodiversidade, avisa para um fenômeno recente e corriqueiro: usar maus argumentos para boas causas, e cita o caso do Furacão Katrina, frequentemente cotado como exemplo dos problemas advindos do aquecimento global.

Nas palavras dele: a relação entre furacões e emissões de CO2, não é nítida; qualquer mudança, mesmo as mais profundas no atual comportamento dos furacões, será pequena em relação à variabilidade já observada. Tem mais: uma série de estudos mostra que os custos dos prejuízos causados pelos furacões, não é por causa da força da tempestade, “mas muito mais importante, por causa do aumento de construção de infra-estrutura em áreas costeiras e de planícies de inundação, que destroem a capacidade-suporte (buffer) do terreno natural”.

Assim, não é o aquecimento global, que provocou a chuva forte, que inundou sua casa e que te deu prejuízo. É o aquecimento global, que tem alta probabilidade de provocar a chuva forte, que inundará sua casa, se ela estiver construída num local inadequado e se o ambiente em torno dela não tiver nenhuma capacidade de minimizar o impacto. Ele conclui: “reduzir as emissões de CO2 terá menos impacto sobre os custos dos prejuízos das tempestades que mudar uma infra-estrutura básica ao longo do litoral e das planícies de inundação”. Agora, se o Rio de Janeiro vai virar Veneza ou se as marginais do Tietê vão se afogar permanentemente ninguém tem certeza, mas pra falar a bem da verdade, sai mais barato tirar todo mundo de lá (das conclusões que analisei na literatura especializada esta é que me deixou mais atordoado).

Aquec. GreenpeaceSó pra completar. Meses atrás o Greenpeace fez um vídeo com moradores do Rio Grande do Sul e climatologistas falando sobre o Catarina e o aquecimento global (veja o vídeo no post acima). Apesar do vídeo mostrar que o Brasil contribui com mudanças mundiais, ele tem um naco de sentimento de vítima: a culpa principal é dos países ricos. Pois bem, mas na última vez que estive no Rio Grande do Sul, não vi praticamente uma árvore em pé (nem nas matas galerias, que são áreas de preservação permanente e tal). Também sabemos que o Pampa Gaúcho é o ecossistema brasileiro mais perto da extinção. Ou seja, adeus pra tal da capacidade buffer.

Culpar os outros pelas próprias mazelas. Já vimos isto, quando discutíamos as “veias abertas da América Latina”. Só pode reclamar globalmente quem faz a sua parte localmente. E tem que ser já, pois amanhã estaremos todos mortos e pior, o almoço ainda não estará pago.

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