A ciência: Deus ou o Diabo?

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Quem acompanha este blog já sabe que não sou aquele crítico sempre preocupado com os últimos lançamentos das editoras. Agora, por exemplo, acabei de ler A ciência: Deus ou Diabo? (Editora Unesp, 2001), uma série de entrevistas com cientistas (franceses e americanos) feita por Guitta Pessis-Pasternak, uma jornalista que também já escreveu outras obras do mesmo gênero como Do caos à inteligência artificial.

Guitta é exemplar. Por incrível que pareça ela lê, ou pelo menos passa a impressão de ter lido, os artigos e livros dos seus entrevistados, gente como Feyerabend (historiador da ciência), J.P. Changeux (neurobiologista), Ilya Prigogine (químico, estudioso do tempo), dentre outros de primeiro time.

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Ao entrevistar o médico Jacques Ruffié e depois de discutir sobre sexualidade, a fragilidade das “raças puras” (evolutivamente mais vulneráveis que as miscigenadas)  e o fato inconteste que faz centenas de milhares ou mesmo milhões de anos que não há variação significativa na espécie humana, pergunta-lhe: “Para o senhor, a sexualidade é o motor fundamental de toda socialização, ainda que já tenha sido dito que ‘Marx explica a sociedade pelo ventre e Freud pelo baixo-ventre’?” A resposta é, digamos, científica: “Tanto um como outro escreveram em uma época em que se conhecia mal a genética humana… não existe sociedades em grupos assexuados, pois ela [a sexualidade] obriga ao encontro…”.

Ainda sobre assunto correlato, ao entrevistar Étienne-Émile Baulieu (especialista em hormônios) o leva a explicar aos leitores que as colaborações imprescindíveis do cientista Gregory Pincus para a invenção da pílula contraceptiva vieram de uma demanda feminista: “Não é espantoso que Pincus tenha trabalhado no aperfeiçoamento dessa milagrosa molécula por solicitação de uma célebre feminista americana?” e Baulieu torna-se didático: “Isto deveria fazer sonhar aqueles que desejam que as necessidades sociais guiem as pesquisas (…) mas é uma exceção. (…) Pincus fez avançar sua pesquisa graças a Margareth Sanger, fundadora do planejamento familiar americano, e à Sra. Catherine McCormick, que ofereceu apoio financeiro (…) e praticamente exigiram a aplicação de seus conhecimentos na condição feminina”.

O livro tem pontos fracos, principalmente em três ou quatro entrevistas, que só têm uma pergunta cada e o entrevistado praticamente escreve um artigo sobre o assunto.

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Mas isto é o de menos quando nos deparamos com a entrevista do neurofisiologista Berthoz. A primeira pergunta é perfeita: “Quais mecanismos biológicos foram otimizados no curso da evolução a fim de que o cérebro pudesse, graças à sua memória, predizer o futuro, antecipar as conseqüências da ação?” E ele: “Fausto diz, ‘No início era o verbo’, depois se corrige, ‘No início era ação’. Atribuímos demasiado valor a linguagem em detrimento da ação, do corpo sensível (…) as espécies que venceram a prova da seleção natural souberam ganhar alguns milésimos de segundo para capturar uma presa, ou escapar de um predador (…)”.

E ela continua: “A percepção [do cérebro] seria relativa a uma ação direcionada a um objetivo?” com Berthoz sendo claro: “(…) A percepção do sapo é uma decisão adaptada a um objetivo: comer e não ser comido! Enfim, a própria percepção é a simulação da ação, dizia Janet: ‘Perceber uma poltrona é imaginar os movimentos que seriam necessários para que se nela possa sentar’ e Poincaré: ‘Localizar um ponto no espaço é imaginar o movimento que seria necessário para atingi-lo’ (…)”.

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Sobre o título, ela deve ter apreciado a entrevista-artigo de Luc Ferry (filósofo), dá só uma olhadinha:  “(…) duas atitudes contraditórias dividem o monopólio do discurso midiático sobre a ciência: uma consiste em diabolizá-la e outra em divinizá-la (…) na última o cientista seria um gênio cheio de aptidões, mas aptidão não é garantia de sabedoria (…)”.

A epígrafe é ótima para jornalistas e cientistas: “Qual é a tua busca? Perceber a mão de Deus. Qual é o teu medo? Acariciar a cauda do Diabo.” (Hubert Curien).

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