A Guerra do Mundos

O NUPELIA e as Piranhas

A introdução de espécies exóticas é considerada, depois da redução da área dos habitats, uma das grandes causas da extinção de espécies. Fique claro que na maior parte das vezes esta extinção é apenas local, isto é, a espécie continua a existir em outras áreas, mas não naquela em que passa a competir ou ser predada pela exótica.

Um bom exemplo brasileiro é o caso da espécie de piranha Serrasalmus spilopleura que vivia tranqüila acima da Cachoeira de Sete Quedas, até que em 1982, as comportas do reservatório de Itaipu foram fechadas e tudo foi inundado. Como resultado as distintas faunas de peixe (abaixo e acima da cachoeira) se misturaram.

Aproximadamente 6 a 8 anos depois, S. spilopleura praticamente desapareceu das pescarias experimentais do pessoal do NUPELIA (Núcleo de Pesquisas em Ecologia, Limnologia, Ictiologia e Aqüicultura da UEM – Universidade Estadual de Maringá) prevalecendo em seu lugar a invasora Serrasalmus marginatus, que aparentemente é mais agressiva ao tomar conta da prole (O trabalho é do Agostinho da UFT e do Horácio de Maringá, referência abaixo).  

Values of the Index of the Reproductive Activity of females of Serrasalmus spilopleura and S. marginatus by environment.

Te contei não? As piranhas colocam os ovos numa cavidade rasa no fundo do corpo d’água e ficam nadando ao seu redor protegendo-os de pequenos peixes predadores que são atraídos pelo cheiro de “proteína pura”. Normalmente estes ninhos de piranha são feitos nas margens, em águas rasas, por isto se você for andar por ali ela morde seu pé. É o chamado instinto materno (só as mães são felizes). Depois quando as larvas nascem elas nadam até as raízes e estruturas das macrófitas aquáticas mais próximas para evitar os predadores. Daí pra frente é cada um por si. Então por ser mais feroz ao tomar conta dos filhotes, S. marginatus, este nome é difícil de esquecer, acabou prevalecendo.

Mundo afora os exemplos são muitos: o esquilo cinza (exótico) expulsando o esquilo vermelho na Inglaterra e o número de espécies de formigas despencando pela metade nos EUA em áreas invadidas pela formiga-fogo (Solenopsis invicta; nome bom para uma “vencedora”). Há ainda o caso clássico da perca do Nilo em lagos africanos, mas isto fica pra outra hora.

Ursus americanus (preocupadus)Em 2005 uma nova história foi descrita (veja abaixo citação completa). O urso-negro (Ursus americanus) está quase extinto, numa ilha coberta de floresta boreal no Canadá, devido à introdução do veado-de-cauda-branca (Odocoileus virginianus). Um veado inofensivo expulsando uma espécie feroz? Como pode?

Cenário típico do seriado “Daniel Boone” (os mais novos que me perdoem), a ilha Anticosti, era o paraíso dos caçadores do urso-negro. Uma vez, no início do século XIX, “53 animais foram abatidos em apenas 6 semanas”. Nesta época os ursos viviam em aparente equilíbrio com apenas mais uma espécie de mamífero, o rato (Peromyscus maniculatus) com a qual competia por pequenas frutas, como cerejas, que crescem em arbustos no local.

Esta espécie de urso também se alimenta de alguns pequenos animais, mas as frutas são fundamentais para permitir a digestão dos 35% de seu próprio peso em alimento que ele ingere todos os dias, antes de finalmente hibernar.

Então em 1896, não se sabe bem o porquê, foram introduzidos 220 veados-de-cauda-branca em Anticosti. Trinta e cinco anos depois eram mais de 50 mil tornando-se um ótimo exemplo pra explicar o crescimento exponencial malthusiano. Entre 1960 e 2000 a população, estimada em sobrevôos, variou entre 60 e 120 mil! Será que Boddaert, descritor da espécie em 1784, era irônico e por isto batizou o veado-de-cauda-branca de O. virginianus? Lembrem-me de tentar descobrir isto depois.

Odocoileus virginianus Pois é, esta população enorme se alimenta de tudo, incluindo as cerejinhas dos adoráveis ursos. O professor Steeve D. Côté da Universidade de Quebec e seus alunos verificaram recentemente em Anticosti, que estas plantas encontram-se numa densidade, 235 vezes menor do que a mínima necessária pra manter os ursos. Por isto eles são raros por lá hoje, mesmo que, por vezes eles se alimentem dos abundantes filhotes de veados-de-cauda-branca. Afinal, de que adianta comer um cervo no desjejum sem aquele sonrisal de cereja pra aliviar a digestão!? É provável que esta seja a primeira vez que um grande mamífero carnívoro (na verdade onívoro) seja eliminado por um herbívoro.

Há outros exemplos em que os veados afetam teias tróficas inteiras, chamadas recentemente de “bio-estruturas” (referência abaixo) e formam a base e a manutenção dos ecossistemas. Algumas destas super-populações atacam pastagens, transmitem doenças ou provocam acidentes de carro. É o conflito entre o homem e a vida selvagem, onde se perde a paciência e se pergunta como detê-los.

Desculpe a crueza, mas há duas formas: matando ou esterilizando. Remoção nem pensar, pois ninguém vai querer os bichinhos. Caçar sai mais barato, algo entre 90 e 290 dólares por bicho, já os métodos contraceptivos para as fêmeas estão entre 800 e 1100 dólares para cada uma. Mas caçar é complicado por que os grupos de defesa de animais estão sempre vigilantes, by o ex-ministro do trabalho, “bicho também é gente”.

Um trabalho de economia ecológica de 2003, conduzido num resort nos EUA (Ilha Hilton Head) que tem alta densidade de veados (50/km2), mostrou que a população não está disposta a pagar pela alternativa não-letal e 44% deseja que a população de veados seja reduzida drasticamente (em outro trabalho no Connecticut este percentual chega a 75%). Os moradores deste lugar estão tão fulos com os bichos (defecam, estragam o jardim, amassam carros, etc..) que eles pagariam mais pra matar do que pra manter o bicho vivo esterilizado. Estes americanos são bravos mesmos!!

TucunaréAlgumas vezes as exóticas são muito bem vindas. O que seria da pesca nos açudes dos Nordeste se não fossem as tilápias (África/Ásia), o tucunaré e a corvina (ambos da Amazônia)? A fauna de peixes do Nordeste parece que era variada quando ele foi mar lá nos idos do Paleozóico… Estes peixes exóticos, a despeito de terem tomado o lugar de espécies nativas, colaboram com alimento rico para as populações no meio do polígono da seca. A gente, como ambientalista e cientista, fica meio assim, assim… mas sabemos que são bem vindos.

Agora, com as mudanças climáticas as espécies invasoras podem chegar pra valer, especialmente algumas plantas que são uma praga. No nosso cerrado da UEG temos que agüentar a gramínea Brachiara spp. que cresce rápido e solapa as nativas. Depois é combustível farto para o fogo. Acho que vou me americanizar nesta questão e dar um jeito nesta praga. Procura-se alguém pra limpar um terreno. É grande e tem que ser com cuidado, pra não ferir as pobrezinhas das nativas. Elas precisam da gente.

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Referências

Agostinho, C. S.; Julio Jr., H. F. 2002. Observation of an invasion of the piranha Serrasalmus marginatus Valenciennes, 1847 (Osteichthyes, Serrasalmidae) into the Upper Paraná river, Brazil. Acta Scientiarum, Maringá. PR, v. 24, n. 2, p. 391-395, 2002.

Agostinho, C. S. Reproductive aspects of piranhas Serrasalmus spilopleura and Serrasalmus marginatus into the Upper Paraná River, Brazil. Braz. J. Biol., Feb 2003, vol.63, no.1, p.1-6. ISSN 1519-6984 (Download aqui)

Bowker, J.M.; Newman, D.H.; Warren, R.J.; Henderson, D.W. 2003. Estimating the economic value of lethal versus nonlethal deer control in suburban communities. Society and Natural Resources, 16: 143-158. (Downlad aqui)

Côté, S.D. 2005. Extirpation of a large black bear population by introduced white-tailed deer. Conservation Biology, 19, 5, 1668-1671. (Downlad aqui)

Maccan, K. 2007. Protecting biostructure. Nature, vol. 446, p.29. (Downlad aqui)

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2 Respostas

  1. erica Says:

    ameiiiiii!!!!

  2. Igor Pivomar Says:

    Valeu Érica. Obrigado e volte sempre.

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