A selvagem vida como ela é!

O Kruger National Park é considerado um dos principais refúgios de vida silvestre do planeta. Localiza-se ao Nordeste da África do Sul, fazendo divisas com Moçambique, Zimbábue e Botsuana. Com 19.700 km2 é maior que muitas cidades, estados e países. O Kruger é dividido em 21 “ecozonas”, que englobam desde áreas alagáveis, matas arbustivas até florestas e savanas.

Acredito que a maior parte dos nomes destas fitofisionomias nem tem tradução para o português. De qualquer forma, tenho de admitir o lugar-comum: parece muito com o cerrado sensu strictu, cerradão ou até com os “campos rupestres”. Não é ofensa, nem erro grave, chamar estas formações brasileiras de Brazilian savanna. Acreditem: é uma grande honra para o cerrado.

Leões

Elefante

 

O Kruger tem nove portões. As pessoas que te atendem na entrada (R$ 35,00) são bem treinadas e você precisa assinar um documento assumindo seus riscos: se o bicho te pega, ou estraga teu carro, problema unicamente seu. É raro acontecer, mas por vias das dúvidas, permaneça no carro. Ficar no automóvel ainda é mais importante quando uma família de seis leões come o almoço: uma zebra, mal passada, que pode não dar pra todo mundo (sei que não está uma maravilha, mas veja as fotos). Foi bacana ver o almoço deles, além de bater aquela vontade de deduzir o modelo de presa-predador de Lotka-Volterra…). A história que se conta por aqui é que uma vez um grupo de japoneses entusiasmados, desceu do carro para fotografar os leões. Três viraram lanches. Não sei se é totalmente verdade, mas imagino que em 109 anos de existência muitas mortes fatais já aconteceram no Kruger (pesquisei, porém não encontrei esta informação).

De qualquer forma, acaba de ser lançada a obra “Kruger National Park: a History” de Salomon Joubert (três volumes), ainda não encontrei nas livrarias, mas fica de informação para quem se interessar. Na verdade, adorei mesmo a leitura do Kruger Park Times (mensal, R$2,00, formato tablóide, colorido num bom papel). Vamos às manchetes e respectivas notícias.

Filhote de Rino resgatado de situação embaraçosa”. Pesquisadores e assistentes tiraram um filhote de rinoceronte branco (na verdade ele é cinza) que tinha se enroscado num monte de arbustos e não conseguia sair. Por isto, segundo observações, fora abandonado pela mãe. O rino, batizado de Tom, passa bem no Centro de Reabilitação de Moholoholo (que rolo de nome).

Frio causa morte em “tiger fish” no Rio Crocodilo”. Indivíduos da espécie de peixe Hydrocynus vittatus, foram vistos mortos boiando num dos rios que banha o Kruger. A provável causa mortis foi o frio intenso num trecho das águas do rio, que vão bem, obrigado. O problema é que esta espécie não agüenta temperaturas abaixo a 15oC (fazia um frio enorme entre as 18:00h e 09:00 da manhã). Alguns indivíduos foram vistos sendo comidos por pássaros e crocodilos. Na natureza tudo se aproveita.

“Estimando a biomassa herbácea dentro do Kruger usando imagem de satélite”. Pesquisadores estão correlacionando dados de biomassa/cobertura de vegetação, coletados no campo, com variações de cor de imagens de satélite. Isto permitirá a confecção de melhores e mais atualizados mapas para planejar o controle do fogo. (Nós mesmos vimos no Parque áreas queimadas e duas estavam cercadas para a realização de experimentos de herbivoria. Uma delas estava totalmente isolada de qualquer tipo de animal (menos pássaros, claro). A outra está isolada só pra elefantes e girafas, então a cerca começa a aproximadamente 1,80m do solo. Todas são eletrificadas).

Encontradas mais duas carcaças de candidatos a reis do pedaço”. Os restos mortais dos elefantes machos Mashaghadzi e Massunguine foram encontrados mês passado. Ambos morreram em disputas com outros machos. Eles eram canhotos (o marfim esquerdo menor denuncia isto) e suas presas, apesar de enormes eram voltadas pra dentro, no caso de Massunguine e pra baixo em Mashaghadzi. Isto traz desvantagem em relação a outros não tão grandes, mas com presas voltadas pra fora. A vida é cruel. Num dos nossos quatro dias de visita, fomos encarados por um destes machos solitários no cio (identifica-se pelo suor no rosto). Ele veio de frente na direção do carro (veja foto no post abaixo), balançando as orelhas. Eu tive que dar ré por uns 250 metros. Outros carros fizeram o mesmo. Ainda consternado e agitando a cabeça, ele saiu pra um dos acostamentos da pista. Eu o driblei, passando pelo outro lado, mas ele ainda nos encarou. Contei o comportamento do elefante no laboratório da UCT e um sul-africano comentou: “Típico”.

Por fim a reportagem de capa: “Canibalismo de leão inspira temor e reverência”. Segue, então, a selvagem vida como ela é. A família de “Seu Leão” vivia grande e feliz. Com duas fêmeas, dois filhotes e quatro adolescentes quase prontos pra partir do território, o velho “rei da casa” só queria sombra, água e carne frescas. Mas aí, uma nômade solitária foi se achegando pro seu lado. As duas “chefas”, sabendo da raridade no mundo atual de bons machos, partiram pra dentadas, tapas e puxões de cabelo. “Joana de Tal” morreu. Teve sua dor nas páginas do jornal.

Uma história como tantas outras na vida leonina. Porém, a finada foi, em parte, devorada pelos filhotes. Quando a perícia chegou para levar uma amostra de sangue do corpo (um procedimento comum no parque) os leões, com o macho à frente, mostraram uma incomum e grande agressividade contra o carro. Aparentemente queriam esconder a própria atrocidade e salvar a “honra da família”. “Seu Leão” não lamenta. Afinal, as crianças estavam famintas e ele certamente não iria suportar mais uma “chefa”. Está novamente tentando dormir o sono dos justos, mas anda ressabiado com as crianças….

Eu lhe recomendaria Shakespeare, ao menos pra consolo. Ele não faz idéia de como uma espécie bípede, pode ser bem mais cruel que a dele. O rei morreu? Salve o rei!

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Uma Resposta

  1. “Battle at Kruger” « Bafana Ciência Says:

    [...] at Kruger” Aproveitando o post do Ronaldo sobre o Kruger National Park, eis um emocionante vídeo amador chamado “Battle at Kruger”, que atualmente é um dos [...]

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