No final do mês passado foi publicada uma pesquisa, coordenada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e encomendada pelo Ministério da Justiça, sobre violência e juventude.
Com ampla cobertura jornalística, principalmente pelas conclusões, o ministro da Justiça afirmou: “A pesquisa derruba determinados mitos, como, por exemplo, o de que a situação mais vulnerável é a do Rio de Janeiro.”As dez capitais com maiores índices de vulnerabilidade juvenil à violência são pela ordem: Recife, Belém, Macapá, Teresina, Manaus, Rio de Janeiro, Cuiabá, São Luis, Fortaleza e Salvador.
Instigado por um artigo crítico de José Maria e Silva sobre esta pesquisa (clique aqui), peguei o relatório em pdf (clique aqui para ver e, se quiser baixar o pdf “zipado”) e fui fazer uns cálculos..
O universo amostral foi de 266 municípios com mais de 100 mil habitantes. Os pesquisadores calcularam o Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência (IVJ-V), que varia de zero (menor vulnerabilidade) a um. O IVJ-V é uma média ponderada de outros cinco índices, que também variam de zero a um:
HOMI: indicador de homicídios entre jovens e adolescentes;
ACID: indicador de mortalidade de acidentes de trânsito entre jovens e adolescentes;
ESCEMP: Percentual de jovens/adolescentes sem escola ou trabalho;
POBR: percentual de pessoas no município cuja renda familiar é menor que ½ salário mínimo per capita e pessoas com mais de 25 anos e com menos de 8 anos de escolaridade;
DESI: percentual de pessoas com mais de 25 anos e com mais de 11 anos de escolaridade e percentual de domicílios em locais precários.
IVJ-V = 0,225* HOMI + 0,225*ACID + 0,175*ESCEMP + 0,175*POBR + 0,200*DESI
Perceba que homicídio e acidente perfazem 45% do índice. Os outros 55% ficam por conta de desemprego, pobreza e desigualdade, pois os pesquisadores consideram que estes fatores deixam o jovem vulnerável.
O que parece razoável é no mínimo estranho, pois o IVJ-V engloba a conseqüência da vulnerabilidade (número de vítimas por homicídio e acidentes), com as possíveis causas da vulnerabilidade (problemas de falta de escola, emprego e desigualdade). Mas continuemos.
Peguei a lista dos municípios e seus cinco índices (calculados independentemente), que resultam no IVJ-V e calculei o coeficiente de correlação linear de Pearson (e probabilidade associada) entre eles. Esse coeficiente varia entre -1 e +1. Assim, a correlação é negativa quando uma variável aumenta e a outra diminui, mas será positiva quando ambas aumentarem ou diminuírem juntas (positivamente correlacionadas). Próximo à zero, o coeficiente mostra que não há correlação (tempos atrás falei de Pearson aqui). Deixo claro que a medida de Pearson quantifica a intensidade da relação, porém se há causa e efeito entre elas, é dedução do pesquisador.
Meus cálculos foram para 58 municípios escolhidos aleatóriamente, pois tive que entrar com os dados na planilha, já que o pdf não permitia um “cópia-e-cola” direto.
Os únicos coeficientes de correlação significativos são: HOMI e ESCEMP (0.57); HOMI e POBR (0.438) e ESCEMP e POBR (0.826).
Desta forma, a desigualdade (DESI) não se relaciona com outra variável e por isto não deve influenciar os indicadores de homicídio ou de acidente de trânsito. Digno de nota também é que a variável ligada ao número de acidentes (ACID) não tem correlação com nenhuma outra, isto é, acidentes acontecem independente das causas aqui testadas, por isto são acidentes, certo?
A correlação entre homicídio (HOMI) e o percentual de jovens sem escola, emprego, ou com emprego precário (ESCEMP) é positiva, significativa, porém não muito alta (0,57);
O mesmo pode-se dizer entre homicídio e famílias com baixa renda e escolaridade. Há correlação estatisticamente significativa, mas de valor baixo (0.44)
A correlação entre ESCEMP e POBR é alta e, eu diria até, auto-evidente, pois uma leva à outra, já que medidas no mesmo universo amostral.
Mas calculei também as correlações entre os índices das 14 cidades com maiores IVJ-V e, surpresa (!), as correlações significativas que envolvem HOMI foram negativas com POBR (-0,57) e com DESI (-0,82). Assim, para as cidades consideradas as que mais deixam os jovens vulneráveis, maiores índices de pobreza e de desigualdade significam menos homicídios! E novamente acidentes não têm relação nenhuma com as outras variáveis.
Enquanto isto, para as 14 cidades com menores valores de IVJ-V, o resultado é que não há correlação significativa entre as variáveis.
A conclusão deste blog é: a) a mistura num mesmo índice, de conseqüências (acidentes e homicídios) com possíveis causas (pobreza, falta de emprego, desigualdade) é um erro grosseiro; b) acidentes são mortes violentas, mas de natureza muito diferentes de homicídios; c) nem sempre mais escolaridade e empregos e menos desigualdade resultam em menos homicídios (a correlação é baixa); d) este índice mais atrapalha que ajuda e por isto, a medida mais sensata de vulnerabilidade parece ainda ser a do número de homicídios por cada 100 mil habitantes (ou 100 mil jovens).
Recomendo fortemente a leitura do já citado artigo de José Maria e Silva, ele levanta outros tantos problemas da pesquisa (por exemplo que jovens variam entre 12 e 29 anos!!).

