Adaptação

Para os cientistas do IPCC (Painel Inter-Governamental de Mudanças Climáticas) os países tropicais sofrerão mais com o aquecimento global do que os temperados, porque estão localizados nas latitudes com maior probabilidade de serem atingidas pelas piores previsões, isto é, por temperaturas mais altas e pela diminuição da disponibilidade de chuva.

É claro que a base destas simulações é, para dizer o mínimo, curiosa. Antes que você pense que sou mais um dos malucos jogando pedra no IPCC, veja esta: foram observadas variações significativas em 28.671 sistemas biológicos usados no relatório do IPCC para subsidiar os modelos que prevêem o futuro quente do mundo. Quase todos 28.115 (98%) são na Europa e apenas dois (isto mesmo, eu disse dois) na África. Mas para os cientistas, “não há dúvidas”, que são os países africanos que mais padecerão com as mudanças climáticas (Hum…..) ou como quer a maioria das manchetes: “Países pobres sofrerão mais com aquecimento global”.

Tem mais, o clima da África é pobremente entendido pelo simples fato que não há dados confiáveis no continente, mas os resultados do modelo mostram que até o deserto do Saara ficará 0,2º C mais quente! (Hum….). Além disso, a previsibilidade nas regiões de clima de monções (em parte África Central) é historicamente ruim, já que este ambiente é por si só, imprevisível. Pode parecer um contra-senso, mas a falta de informação neste caso é um alívio, pois a certeza (ou alta probabilidade) tão propalada nos modelos não tem confirmação com o mundo observado, ou, ao menos, com o mundo africano (climatológico) atual e real. Claro há os dados de satélites, mas ainda insuficientes.

De qualquer modo, as primeiras previsões entrarão em teste já em 2020. As simulações mostram que, daqui a 13 anos, de 75 a 220 milhões de pessoas sofrerão com a diminuição da quantidade/qualidade de água no continente que é berço da humanidade.

Apesar de tudo, há uma boa notícia para a África e desta ninguém tem dúvida: a capacidade de adaptação dos povos africanos é muito grande e vem sendo adquirida, à duras penas é verdade, a milhares de anos. Assim, o continente já sofreu com grandes períodos de estiagem, como por exemplo, na primeira década do século XIX, que é conhecida entre os Zulus como “o tempo que fomos obrigados a comer capim”, já que a seca durou dez anos e atingiu indistintamente aos povos.

Outro exemplo mais recente são as comunidades rurais de El Fasher (centro do conflito de Darfur) no Sudão. Há 40 anos atrás devido à uma estiagem avassaladora, essas comunidades conseguiram adequar reservatórios para armazenar água e irrigar as lavouras. Além disso, diversificaram as plantações e foram capazes de encontrar solos mais férteis cavando através das camadas de areia.

O que isto mostra? Que o africano tem alta capacidade de se ajustar e resistir, é antes de tudo, inclusive do sertanejo, um forte e essencialmente adaptável. Neste sentido, a manchete “Países pobres sofrerão mais com o aquecimento global” poderia ser trocada por “Países pobres devem se adaptar mais rápido às mudanças globais”. Que isto obviamente não sirva como desculpa para não se fazer nada, mas ao menos, é mais otimista e, eu diria, realista.

Afinal, foi por causa da mudança climática no Mioceno que nossos ancestrais africanos usaram e ousaram de sua capacidade de se ajustar, propiciando o surgimento da espécie humana que hoje apenas sofre com mais uma alteração. Não é a primeira. E, muito provavelmente, não será a última.

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