África: um continente acorrentado por ele mesmo

É um chavão, mas vá lá: normalmente quando se fala em África a maioria das pessoas vai logo pensando em hordas famélicas num ambiente árido e sem esperança. E então elas se perguntam se não têm culpa neste sofrimento, pois afinal, além da escravização de boa parte da sua força de trabalho, o ocidente colonizou seus países explorando suas veias abertas, para enriquecimento das nações além mar. Mas será que foi, ou continua, desta forma?

Robert Guest, editor de assuntos africanos para a The Economist em seu livro The Shackled Continent – Africa’s past, present and future (Ed. Macmilian, 280p., 2003, 11 libras e ainda não traduzido para o português, mas que poderia ter como título: “O Continente Acorrentado – O passado, presente e futuro da África”), tenta reverter a pergunta do porquê a África é tão pobre, para: por que a África é tão improdutiva? Por que mesmo representando aproximadamente 10% da população mundial este continente contribui com apenas 2% para o comércio mundial? Robert Guest morou em alguns países africanos durante três anos, e em 2004, após a publicação deste livro, ganhou o prêmio Bastiat de Jornalismo. Não sei se o prêmio é importante. Talvez seja. Mas o livro com certeza é.

Os mais velhos devem lembrar quando o Paulo Francis insistia na frase “saudades da senzala”, para se referir as nações ou pessoas que culpavam os outros pelos seus próprios infortúnios (em seu livro O Brasil no Mundo isto é bem explicado). E claro, ele queria atacar os esquerdistas brasileiros com a incansável ladainha contra os americanos… Êta vida besta, que passava pelas janelas e muitas carolinas não viram (aliás nem o criador deste verso famoso, não quer ver…). Robert Guest, sem o charme do brasileiro mais “novaiorquino”, caminha na mesma linha. E já de cara lembra que a escravidão e o colonialismo são sempre apontados como os principais culpados pelo atual estado da África. Sim, a escravidão foi horrível.

Mas que tal saber que antes dos europeus chegarem a este continente, de 30 a 60% dos africanos já eram escravos, deles próprios, ou seja, de outras tribos? Além disto, outros escravos eram trazidos da Indonésia e do Sri Lanka. Acostumados com a importação, não foi difícil começar a exportar para o Ocidente. Certamente que um erro não justifica o outro. Mas Guest, com um conhecimento bom de história lembra a Coréia, que anexada ao Japão em 1910 e submetida a um regime autoritário que tentou acabar com sua cultura, foi libertada pelos EUA (com ajuda daquelas bombas, lembram-se?) e deu a volta por cima. Claro, refiro-me a Coréia, onde se pode reclamar do governo, montar uma fábrica, e tomar chicabon sem pedir permissão. A comunista, coitada, está muito ocupada em desafiar, quem mesmo? Os EUA… ó vida ó azar…

Na bagagem de Guest há encontros estressantes com gangues de adolescentes armados e bêbados na Costa do Marfim, caronas em caminhões nas péssimas estradas de Camarões repletas de policiais ávidos por mínimos defeitos pra recolher um dinheiro (que horrível deve ser morar num país assim) e a quase luta corporal para evitar o serviço insistentemente oferecido por prostitutas na Nigéria. E qual a causa da improdutividade africana? Comecemos com o vampiro estatal, que fazia com que, por exemplo, uma linha telefônica no Zimbábue em 1993 demorasse 10 anos pra ser instalada. Robert Mugabe, o eterno presidente do Zimbábue chegou até a congelar preços (que coisa absurda), a recusar os investimentos estrangeiros e a imprimir mais dinheiro pra pagar as contas exorbitantes do governo. Como as coisas estavam indo de mal a pior, Mugabe resolveu apoiar, ainda que não explicitamente, invasões de terra, de preferência, aquelas que expulsavam fazendeiros brancos. Pois é, não deve ser muito seguro, morar num país onde o líder máximo flerta com grupos ilegais de invasores…

As más línguas dizem que uma vez, ele vestiu até o boné com o símbolo deste grupo! Outra tragédia administrativa é Angola. O país é o nono em exportações petrolíferas no mundo, mas sua população está entre as mais pobres e sofridas com guerras e lutas internas pelo poder, e mesmo depois do cessar-fogo e apesar de sinais de ressurreição da sociedade, a corrupção exala pelos poros do governo, que responde sempre criando uma comissão para averiguar as denúncias. É claro, que nunca dá em nada. Deve ser desanimador viver num país que isto acontece.

Ainda há o problema da economia informal: apenas um em cada dez trabalhadores é registrado e paga imposto. A mesma proporção para as propriedades, ou seja, apenas um décimo dos imóveis tem escritura. Isto é acentuado em países como o Malawi (ao norte de Moçambique) onde as leis são confusas, incongruentes e o Judiciário é o primeiro a dizer-se contra as simplificações das leis. Que segurança pode haver para quem vive num país assim?

Um outro problema sempre apontado como agravante da situação africana é o das disputas tribais. O caso mais conhecido e talvez mais trágico é o de Ruanda, entre os tutsis e os hutus. Estes últimos foram conclamados em 1994, a atacarem os primeiros e com a distribuição de mais de 500 mil machadinhas, em apenas 6 semanas, mataram 800 mil tutsis. É claro que o problema não é só de etnia. Jared Diamond, em seu Colapso explica que todos os ingredientes para o estopim em 1994, já estavam prontos: densidade populacional altíssima (293 indivíduos por km2), métodos agrícolas tradicionais e inadequados, falta de controle populacional, desmatamentos que acarretaram grandes erosões, assoreamento de rios, e a mudança local de clima com chuvas cada vez mais irregulares.

Mas o mais importante é o fato de haverem líderes inescrupulosos que transformam aquela eterna animosidade entre os povos, em ódio, terror e genocídio. E não adianta dizer que “Ah, aqueles povos na África, ainda estão na idade da pedra”, pois afinal o que fez Hitler há apenas 65 anos atrás, no “centro” do mundo lindo, branco e dito, civilizado? Na Nigéria, a disputa entre os 250 grupos étnicos é mais amena e diz respeito a dinheiro e cargos públicos (pelo menos não sai sangue). Lá é comum o povo achar que o desvio de dinheiro público é normal desde que beneficie todos os companheiros, ops, os membros da comunidade. Deve ser desalentador morar num país onde a corrupção é vista como algo natural e até benéfico em alguns casos.

Sim, há exemplos bons na África, Botsuana, por exemplo, tem uma economia que cresce muito rápido e líderes verdadeiramente humildes que fizeram o básico: privatizaram algumas companhias, criaram leis simples e claras de comércio e não gastam mais do que arrecadam com impostos. E eu ainda teria o que falar da África do Sul, mas vai ficar para uma próxima vez.

Só gostaria de completar, ecoando Robert Guest, que na África, os países que estão em piores situações são os que têm muitas leis, líderes e grupos que se auto-proclamam salvadores dos pobres insistindo no discurso da “justiça social”, muitas estatais (que fomentam a corrupção) e pouca liberdade, para criticar e fazer negócios. Ainda bem, que eu e você leitor, não moramos num país atrasado assim. Não é mesmo?

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8 Respostas

  1. Roberson Says:

    Receita neoliberal para o continente africano. Talvez funcione. Mas indo ao que interessa – hehe -: já tomou algum bom vinho sul africano ?

  2. pedro henrique Says:

    muito legalo que vcs faem ajuda muito nos alunos!!!!!!!!!!

  3. emilli Says:

    esse texto nao tirou todas as minhas duvidas por isso eu acho que esse texto nao deveria ser publicado na internete e em nehu lugar p/ qualquer pessoa for la p/ ver ou p/ tirar alguma duvida me descupe eu ser ao rigida ou muito seria mas e o meu jeito eu nao gosto de mintir em uma coisa que e melhor falar a verdade…mil[1.000] perdoes e mil [1.000] descupas!!!

  4. emilli Says:

    seus encopetentes

  5. emilli Says:

    seus emcopetentes eu nunca disse isso!!!

  6. Domingos Abraao Says:

    p ja n estou santifeito com o q acabei de ler por isso dem respostas claras!!!!

  7. Sebastião Luis Miguel Says:

    A união é a melhor forma de superar o sofrimento Comum. E a África não tem essa união, Se Haver União de paises para paises o acorrentamento não terá fimmmmmmmmmmm.

  8. Domingos Soares Says:

    Nós os africanos temos consciencia destes problemas que nos assola.
    Mas não esqueçam que a Europa tem uma grande divida para com este continente por causa
    -A partilha de Africa
    -O tráfico de escravos
    - Alguns países a fumentarem o terrorismo em Africa
    POR FAVOR AJUDEM-NOS…….

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