Discuti na semana passada que “Os Demônios” de Dostoiévski, escrito em 1870, foi profético ao tratar do caráter (ou falta de) de revolucionários e niilistas. Daí o nome do livro que nas primeiras versões no idioma de Camões foi traduzido como “Os possessos”. Esta diferença é explicada pelo tradutor da Editora 34, Paulo Bezerra: “o título original é que significa demônios (biês no singular), bem diferente de odierjímie (possessos)”.
Aqui uma pausa. Quando escrevo Dostoievski (sem acento agudo) o processador de texto do Word nada assinala, mas se uso o acento Dostoiévski, como nos livros da Editora 34, ele é sublinhado como palavra errada. Daí o acento no meu texto.
Enfim, nesta mesma edição (2005, 697 p.), Paulo Bezerra faz uma resenha. Como não poderia deixar de ser, começa contando o caso Nietcháiev que motivou Dostoiévski a escrever um livro inovador, pois coloca na trama uma personagem menor que narra à posteriori, ou mesmo em simultaneidade, os acontecimentos, o que “leva o leitor a sentir a proximidade da história narrada e envolver-se com ela”. Joseph Frank afirma que Dostoiévski já havia usado este expediente na novela “O Sonho do Tio” (prometo ler qualquer dia pra lhe confirmar, prezado leitor).
E então, Bezerra fala do Dostoiévski que profetizou os horrores do totalitarismo e do terrorismo. Nas palavras dele, o livro é: “O primeiro romance da história sobre o terrorismo (…) uma antecipação em miniatura dos horrores que se registrariam nos séculos XX e XXI (…) Stálin, Hitler, a Revolução Cultural chinesa, Pol Pot, o terrorismo das ditaduras latino-americanas contra seus povos, o terrorismo de Estado com seus “assassinatos seletivos” contra o povo palestino e a resposta também terrorista desse povo, o terrorismo tecnológico de Bush contra o povo iraquiano, etc., são elos de uma única cadeia de tragédias que Dostoiévski antecipou com sua percepção genial das tendências da história (…).”.
Perceberam? Para Bezerra, os terroristas palestinos apenas existem em resposta ao terrorismo de Estado judaico. É como se estes demônios palestinos, estivessem apenas se defendendo, ao convencer jovens à se tornarem homens-bomba e matarem, além de si mesmos, pessoas inocentes.
Tem mais, para Bezerra é o presidente americano Bush que faz terrorismo contra o povo iraquiano! Mas afinal, meu caro leitor, o ditador Saddam fazia o quê contra os seus ou outros países e povos? E hoje, quando carros explodem em Bagdá, são os americanos que os enchem de bombas?
Sinceramente não li em “Os Demônios” nada sobre “terrorismo de Estado”. Claro que Dostoiévski estava ciente de que se tomassem o poder, os biêsi não deixariam por menos e continuariam executando os desafetos com julgamentos sumários. Fidel Castro fez isto poucos anos atrás, com aqueles que seqüestraram a lancha. Pois é pessoal, mas o Sr. Bezerra não menciona o ditador que ajudou na “canonização esquerdista” de Guevara e agora só veste Adidas. O barbudo nem deve se lembrar de quantos ele mandou pra prisão ou para covas rasas. Acho que é difícil um cara como Paulo Bezerra, tradutor de inúmeras obras russas, ter cometido um lapso de memória e esquecido de falar sobre Fidel, mesmo tendo citado duas vezes G. Bush.
Para o Sr. Bezerra só me resta lembrá-lo, partindo de sua própria tradução, as palavras do demônio principal de Dostoiévski, Piotr Stiepánovich: “(…) Os nossos não são apenas aqueles que degolam e ateiam fogo (…) Gente assim só atrapalha (…) o professor de colégio que ri com as crianças do Deus delas e do berço delas, já é dos nossos (…). O promotor que treme no tribunal por não ser suficientemente liberal é dos nossos. Os administradores, os escritores, oh, os nossos são muitos, um horror, e eles mesmos não sabem disso!”.
Veja também:
Preparando-se para Os Demônios
Publicado originalmente na Revista Bula


