A relação entre arte e ciência, assunto cada vez mais explorado e debatido é certamente mais antiga do que vôos recentes de cientistas pelo mundo da arte. Richard Feynman, por exemplo, finalizou sua carreira de pintor já na primeira exposição, pois teve medo que seus quadros só tivessem valor por terem sido pintados por um Nobel da Física. Mas também o que ele queria? Que o levassem a sério como artista?
No início deste ano estive na Royal Society de Londres (como turista, claro…) e na sala onde a seleção natural de Darwin & Wallace foi defendida (foto abaixo), havia uma exposição de quadros de fellows famosos. Obras de John “Mente Brilhante” Nash e Winston Churchill estavam expostas lá. Não precisa ser um grande entendido para se felicitar com o fato que ambos brindaram a humanidade com outros serviços, que não a pintura. Muito tempo atrás na Alemanha, aconteceu o contrário. Wolfgang von Goethe, autor de Fausto, escreveu um tratado de classificação taxonômica e foi profundamente ignorado. Afinal, quem ia ligar pra um trabalho de ciência daquele que já era considerado o maior poeta alemão de todos os tempos? Já não bastava ser gênio na arte maior, a poesia?
Muita gente considera arte, certas expressões que vão desde as pinturas rupestres de nossos ancestrais até o rap atual que incita violência (ok, a comparação não é boa. Coitado do povo das cavernas, tão mais evoluídos que os rappers…). Mas, particularmente, não aceito este conceito elástico. Assim, vamos nos restringir ao nosso mundo ocidental e civilizado e comentar dois livros que avaliam a ciência subjacente de seus maiores artistas, Leonardo da Vinci e Michelangelo.
Comecemos com o maravilhoso, sensacional e emocionante A arte secreta de Michelangelo: uma lição de anatomia na Capela Sistina (Editora ARX) do médico Gilson Barreto e do professor de Química da UNICAMP Marcelo Ganzarolli. Simplesmente estes dois “detetives” descobriram o “código secreto” de Michelangelo em suas pinturas no teto da Capela Sistina, que é o ponto alto dos museus do Vaticano (pra quem não conhece as pinturas procure no Google). Para cada uma das 32 cenas pintadas, há uma parte anatômica humana subjacente, incluindo querubins, escravos e “ignudis” que, ao redor, de algumas destas cenas, dão dicas do que elas representam.
Assim, a mais famosa delas, a do dedo de Deus que cria o homem, nada mais é que a representação do cérebro humano (e Deus na verdade estaria dando aos homens o dom do intelecto). O manto de Deus, na pintura da criação de Eva, forma um pulmão perfeito. Para a representação do sacrifício que Noé oferece a Deus, em agradecimento a salvação do dilúvio, há o segredo dos feixes de tendões dos nossos punhos. E assim, o livro vai dissecando cada pintura, e mostrando as pistas deixadas por Michelangelo. Há ainda valiosas informações sobre os estudos que ele fez em anatomia e também sobre as esculturas de Moisés (que está na Igreja de São Pedro das Correntes em Roma) e da Pietá (na Basílica de São Pedro no Vaticano). Exemplos de perfeição que só um gênio da ciência e da arte poderia ter feito.
Fosse o Brasil um país intelectualmente honesto, Barreto & Ganzarolli estariam ainda recebendo todos os louros de uma grande descoberta artística e científica. E mais, tivessem eles escrito o livro em inglês, certamente já estariam ricos. Mostrei para alguns amigos aqui na África do Sul e os queixos foram caindo um a um….. Pois, então quando me deparei com Math and the Mona Lisa – The Art and Science of Leonardo da Vinci de Bülent Atalay (Smithsonian Books, 2006), na “Exclusive Books” imaginei que este professor de Física da Universidade de Mary em Washington, seguiria a mesma linha dos brasileiros e trataria da ciência nas obras de Da Vinci.
Mas, seu livro é uma amostra inequívoca que ele é um amador (bem informado, às vezes bem humorado) nesta, digamos, arte. Das 300 páginas do livro, ele deve usar apenas umas 100 para tratar especificamente das pinturas e da arte-ciência de Da Vinci (o livro ainda é carente das figuras de Leonardo). O resto é pra mostrar pro leitor como ele (Atalay) é letrado, explicando, por exemplo, a série de Fibonacci, as pirâmides do Egito (há uma foto dele na frente de uma delas, quando criança) a divina proporção, as espirais logarítmicas, e no final praticamente toda a história da Física (e o pobre Leonardo esquecido…).
Enfim, como “raspas e restos me interessam”, no final foi bom ver, por exemplo, uma foto, da Conferência Solvay de Física (1927), contendo 29 pessoas, que receberam no total 20 prêmios Nobel. Aliás, a única mulher da foto, Madame Curie, recebeu dois (um de Física e outro de Química).
Tem também uma piada excelente pra quem é do ramo: entre cientistas, há o mote, publique ou pereça (publish or perish), ou seja, se o pesquisador não publicar ele não é ninguém e “morre”. E o Prof. Atalay nos brinda dizendo que Giordano Bruno, contemporâneo de Galileu, por dizer que a Terra era apenas um planeta e igualar o recém criado Protestantismo com o Catolicismo, foi queimado pela inquisição e é um exemplo típico do “publique E pereça” (publish AND perish). Pobre Prof. Atalay! Ele não leu A Arte Secreta de Michelangelo (afinal, quem é que lê em português?) e perdeu uma oportunidade única de aprender a ensinar a arte com ciência. Ou seria a ciência com arte?
Mais algumas comparações:












dezembro 10th, 2006 at 1:07
Caro Ronaldo, permita-me um comentário. Eu gosto da temática arte e ciência, mas vou me concentrar na arte. Percebo que vc é apreciador das artes clássicas, o que é um sinal de sensibilidade e gosto apurado. Mas a arte clássica, renascimento por exemplo, teve o seu momento que já passou. Não vamos esperar que ela aconteça de novo, nem criticar os artistas contemporâneos porque eles não possuem a elegância e a leveza dos seus companheiros do passado. Os valores do que é arte hoje são completamente diferentes do que eram antes, e empregar a ótica classica simplemente não faz sentido quando se avalia a arte moderna. A técnica também evoluiu, e o que se pode fazer de novidade com ela deve ser explorado. Como a computação gráfica e a computação musical, que podem ser usadas para ampliar a capacidade de expressão do artista e expandir a sua criatividade. Portanto, a inovação é boa. Picasso não pintava com tinta óleo porque a tinta óleo é classica e elegante, mas porque era o melhor que tinha na época.
Segundo os valores de hoje, o rap é uma expressão artística legítima, e muita gente aprecia e entende a linguagem. Lógico que vamos encontrar todo tipo de rap por aí, mas não podemos negar que essa é a expressão artística contemporânea, e que tem muito mais valor hoje do que qualquer arte clássica, porque faz parte do nosso mundo, traduz o nosso mundo, enquanto a arte do passado, que serve de influência marcante hoje, representa um mundo que não existe mais. Seu poder de transformação saturou.
Abraços.
dezembro 11th, 2006 at 8:24
Caro George,
agradeço imensamente seu educadíssimo comentário.
Porém discordo completamente dele. Dizer, por exemplo, que uma “expressão artística contemporânea, que tem muito mais valor hoje do que qualquer arte clássica, porque faz parte do nosso mundo,…enquanto a arte do passado,… representa um mundo que não existe mais” não me parece correto. Primeiro porque a arte clássica também faz parte do mundo atual e segundo, pra mim ela representa um mundo que ainda existe: O mundo em que há o certo e o errado, o feio e o bonito, o eterno e o passageiro.
Eu não acho, aliás muito pelo contrário, que Machado de Assis tenha menos valor que Paulo Coelho, pois este contemporâneo e Machado é antigo…(a bem da verdade prefiro Dostoiévski, que é mais velho ainda). Também considero Mozart, superior a João Gilberto, que é melhor que Chico Buarque, e assim por diante…
Entrando na ciência, Darwin é melhor que Robert MacArthur que é superior a Nicholas Gotelli, que é melhor que Alexandre F Diniz-Filho (UFG) que, por sua vez, está anos-luz a frente da pesquisa praticada por R. Angelini. Relatividade pra mim, só no campo da Física.
Um brinde, então, a democracia das idéias opostas!!
Cordiais abraços, Ronaldo
dezembro 13th, 2006 at 19:46
Caro Ronaldo: vi e li o livro A Arte secreta de Michelangelo. Algumas coisas muito, muito pertinazes. Mas, no afã de encontrar um “situs anatomicus” em toda parte achos que nossos amigos andaram vendo nuvens em movimento (aquela brincadeirinha de deitar no chão e ver as nuvens passar: cavalinho, coelho, etc.) Aliás, quando bem acompanhado, um belo programa.
Quanto ao comentário do George,será que entendi? O rap tem mais valor nos dias de hoje que uma sonata de Bach? Só posso estar ficando doido.
Abração.
dezembro 14th, 2006 at 3:40
Caros, é um prazer discutir com voces. De fato, não podemos comparar Dostoiévski com Paulo Coelho, nem muito menos com Platão. A questão é que Dostoiévski, Platão, Schopenhauer, Nietzsche todos eles escreveram sobre o seu tempo, e são universais porque conseguiram capturar em suas obras a essência da realidade corrente. Mas se ficarmos olhando apenas para o passado, o nosso tempo vai passar e não vamos deixar nada para as gerações futuras. Se usarmos como referência o padrão adotado no passado e ignorarmos o contexto que acontece hoje, nunca vamos produzir uma obra eterna como a de nossos antepassados. A fonte para a originalidade está justamente no contexto contemporâneo, que é sempre novo, inusitado. Você, como artista, não vai conseguir passar uma mensagem para o mundo se utilizar a linguagem do passado, porque sua audiência já está morta. (A não ser que vc queria ser um artista para uma minúscula audiência erudita, o que não causa impacto apreciativo na realidade, e, portanto, será ignorado no futuro.)
Pense agora no impacto do rap como linguagem e no impacto da música clássica atualmente. Analise a capacidade de transformação que cada uma dessas linguagens tem hoje e veja qual delas será a nossa herança para o futuro. Se o padrão para o que é bom e ruim é o que é selecionado pelo tempo, eu diria que a música clássica feita no século 21 vai ser esquecida muito rapidamente.
Como comentário adicional, o bom, o justo, o verdadeiro e o belo não são valores universais. Eles variam de acordo com o a época e a necessiade. Pense no que era justo na época de Sócrates e o que era justo na idade média, ou hoje. Para um americano é justo e bom invadir o iraque, eles realmente acreditam nisso por aqui. Mas pergunte a um mulçumano o que ele acha… Já que falamos em Dostoiévski, um dos meus favoritos, o livro O Idiota é inteiro sobre este assunto.
Ronaldo, muito obrigado pela oportunidade e pelo espaço para esta discussão. Como disse antes, a temática me agrada muito.
Abraços,
George.
dezembro 17th, 2006 at 9:56
Roberson, é de se considerar que em algumas telas (na minha opinião 5) os autores da “A arte secreta” tenham se excedido. Mesmo assim, na minha opinião, a descoberta é sensacional e foi, como toda boa idéia no Brasil, ignoradíssima(apesar de algumas resenhas aqui e ali).
George eu discordo de você em gênero, número, grau e, inclusive, na questão iraquiana.
outubro 22nd, 2007 at 15:21
[...] Bafana Ciência Blog de Divulgação Científica com ênfase em Ecologia. « Arte e ciência. Ciência e arte. [...]
dezembro 19th, 2009 at 14:17
Sabe-se onde posso baixar esse livro?