Artista original: espécie rara

Qualquer espécie de ser vivo, pode ser definida como um conjunto de animais que ao se reproduzirem deixam descendentes férteis. Uma maneira mais divertida e não de todo errada é dizer que “uma espécie é aquilo que um taxonomista competente diz que é”. Há ainda a espécie compreendida como um exemplar platônico (“ideal”) num vidro de laboratório ou numa exsicata no herbário. Todos os que forem iguais a este único indivíduo são da mesma espécie dele. Aquilo que não é tão igual é do mesmo gênero e assim por diante. Mexeu? Ou é bicho ou foi o vento.

Boas fotos e desenhos detalhados, além de uma “chave de identificação” com descrições de partes, e raspas e restos que interessam, auxiliam o taxonomista principiante a chegar em nível de espécie. Este modo de organização, que devemos à Linnaeus, é frequentemente repetido por escritores que também identificam textos ou parágrafos, como autênticos “Camões”, “Fernando Pessoa” ou “Cervantes”, espécimes raros, que deixaram mais saudosos admiradores do que descendentes férteis. No máximo, alguns filhos bastardos, que, como híbridos, não se reproduzem, ou de tão estéreis se reproduzem assexuadamente como escrevinhadores do rei de plantão nesta mundão de meu Deus…

Mas, como diria o colunista sem assunto, “não é isto que eu queria falar…”. Também não vou fazer como aquele personagem rodrigueano que se realmente pudesse falar o que pensava, durante o discurso na cova aberta do falecido, dissertaria antes sobre os enlevos da recém órfã…. Ainda hei de enquadrar estas páginas do “Almirante Nelson” e colocar na parede do meu escritório. De preferência, ao lado do “Passarinho” que Gerda Brentani pintou em 1970 (era disto que eu queria falar).

Gerda - Pequeno Bestiário Brasileiro 1969 Gerda - Pequeno Bestiário Brasileiro 1969 2

Foto de Gerda BrentaniGerda nasceu em Triestre na Itália há 101 anos. Estudou os clássicos em alemão na biblioteca do avô, além de aulas de balé e música em escolas conservadoras. Apesar disto, sempre se mostrou espevitada. A primeira foto, com 4 anos, só aceitou tirar depois de se livrar dos pinduricalhos com os quais mamãe e titia lhe cobriram. Ficou moleca de ombros descobertos e medalhinha de santa abaixo do pescoço.

Em 1939, já com marido e um casal de filhos se estabelece em São Paulo. As histórias e desenhos que fazia para os filhos são então descobertos, por um amigo que os leva para Ernesto Fiori, outro italiano artista que passa a dar a ela, aulas de desenho.

Gerda começa a expor em 1945 e em 1950 publica suas primeiras histórias infantis (com desenhos) no Suplemento Feminino do O Estado de São Paulo (até que o “Estadão Reaça” era bem moderninho pros anos 50, não?). Esta obra foi publicada com o nome de “Psiuu…” pela Editora Giroflé em 1963. Tenho a de 1998 da Editora Ática (5 estórias de fadas, bruxas gordas, peixes-rei, etc..).

Vai um trecho:

Ouvida a boa notícia [do nascimento do príncipe], o Rei proclamou três dias de festas e mandou disparar nove tiros e meio de canhão. Para esse fim, teve de chamar um especialista do Alasca, pois era ele o único homem no mundo capaz de dar meio tiro de canhão.

Esta ironia graciosa também é o ponto alto de seus desenhos, que como disse o professor e compositor Paulo Vanzolini, ainda têm linha limpa. E pensar que o quadro mais caro do mundo é aquela coisa horrorosa e suja do Jackson Pollock.

Gerda Brentani Em Desenhos de Gerda Brentani – Mil e uma Histórias (Editora da Pinacoteca do Estado de São Paulo, 75p.) publicado por ocasião da exposição ocorrida no final de 2005 que tive a sorte visitar, há 45 desenhos desta artista de mão leve e pequenas cores. Você se lembra dos robôs do filme-desenho da Pixar? Eles têm o traço dos robôs da Gerda, que nasceram no final da década de 60.

O livro ainda traz com sua cronologia várias fotos desta mulher-poema que morreu em 1999 e depoimentos de amigos, entre eles Vanzolini, que lhe emprestou 24 exemplares de invertebrados do Museu de Zoologia da USP para que ela desenhasse.

Os desenhos dos insetos são ótimos e ajudam a identificar, na verdade, um tipo ideal da espécie humana, uma artista original que declarava que “quando se diz panis et circenses – pão e circo – eu sou dos circenses. E não os subestimem”.

Algumas obras de Gerda Brentani:

Dom Quixote

Microscópio

A Procissão

Gerda Brentani

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Uma Resposta

  1. Jayme Portugal Says:

    Gerda Brentani é uma artista que infelizmente ficou esquecida no Brasil. Seu trabalho é fascinante. É possível outras reproduções?

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