O jovem Matu’a, de ascendência nobre, bateu mais forte com seu machado de pedra e viu, aliviado, a queda da palmeira que faltava para montar o “trenó”. Logo em seguida, se deu conta da realidade e suspirou cansado do futuro recente: restava ainda rolar o moai para cima do trenó e arrastá-lo (sem rodas) para perto da praia a 10 km de distância. O mesmo moai que séculos depois se descobriria pesar 75 toneladas e que o leitor certamente ouviu falar e conhece a história, ao menos em parte.
Apesar dos pesares, Matu’a sabia da necessidade imperiosa da obra, pois, do contrário, o trabalho de seus súditos de entalhar o moai e o pukao (uma espácie de ‘chápeu’ colocado nos Moais) estaria perdido. Além disso, pelo menos 500 habitantes do clã que herdaria ali estavam para auxiliar no transporte e era preciso, mais do que nunca, dar exemplo de trabalho e determinação, já que alguns deles não andavam tão satisfeitos com a vida e ameaçavam o poder dos chefes.
Com este novo moai, Matu’a sonhava em reverenciar mais dignamente seus ancestrais e, então, a comida voltaria farta, através da pesca de peixes e golfinhos, da coleta de ovos das 31 espécies de aves, da caça aos ratos da ilha, do plantio da cana-de-açúcar, da amora, de bananas, ou ainda do inhame que era cultivado entre pedras cuidadosamente colocadas para aumentar a umidade do solo, protegê-lo contra a erosão, e reduzir a oscilação de temperatura muito alta naquele tiquinho de terra do planeta, apesar de que, para Matu’a, aquele era “todo” o mundo. Mas, estranhamente, Matu’a já sentia o que depois outro povo viria a chamar de “mal-estar da civilização” ou, no popular, “não vai dar certo”.
Trinta crepúsculos após a derrubada daquela palmeira, o moai já estava sobre uma rampa ligeiramente inclinada junto à plataforma de pedra chamada ahu. Os súditos então o puxaram com as cordas feitas de cascas fibrosas de árvores até sua base estar sobre o ahu e a partir daí era “fácil”: erguiam a peça, alguns centímetros, usando toras como alavancas, punham pedras sob ela apoiando-a na nova posição e repetiam a rotina até atingir a posição vertical (de costas para o mar) com especial atenção ao final para o moai não cair pra frente. Ah, sim. Ia me esquecendo, o pukao (ornamento da cabeça) era erguido junto.
Contemplando a obra quase acabada, enquanto seus súditos ainda retiravam as últimas pedras da rampa provisória, Matu’a teve mais fé na benevolência dos antepassados. Agora, seu clã tinha o maior e melhor moai, talvez o mais belo de todos da ilha (em torno de 900), já que as estátuas mais recentes tinham um entalhamento mais sofisticado que as primeiras de 800 anos atrás.
Embriagado do próprio orgulho, Matu’a regozijou-se com seu poderio, afinal era parente dos deuses e agora já orava e discursava prometendo paz e posteridade. Parecia realmente que tudo “ia dar certo”: além do moral dos súditos em alta, seu poder perante os outros 11 clãs tinha finalmente chegado ao ápice, garantindo-lhe regalias na troca de alimentos, de favores e de outros recursos que seu território não possuía, incluindo a pedra para entalhe dos moais. Sim, pois outros deveriam ser feitos.
Revolta Popular
Mas os deuses da natureza, que os habitantes daquele mundo (vasto mundo) não adoravam, sempre foram impiedosos na aplicação da simplista lei que rege os elementos de um ambiente de pequeno porte: para toda ação há uma reação igual, ou maior, no sentido contrário.
Assim, a pequena Ilha de Páscoa (170 km²), isolada nos confins do Oceano Pacífico, passou a sentir os efeitos do desmatamento: a ausência das aves, seus ninhos e ovos, a carência de sementes e frutos comestíveis, a erosão pelo constante vento e pela escassa e irregular chuva, a falta de locais úmidos e sombreados para algumas plantações que no princípio eram cultivadas entre as palmeiras. Soma-se a isto o fato que os roedores, acidentalmente introduzidos pelos primeiros nativos (que chegaram a ilha em 900 d.C.), roíam parte das sementes impedindo-as de germinar.
Os habitantes então ficaram sem ter lenha para cremar os corpos, sem troncos para as canoas (e consequentemente para pescar o golfinho, principal alimento durante anos), e sem madeira para confeccionar cordas e erguer os moais. As áreas agrícolas se esgotaram e então, sessenta anos depois do grande moai ser erguido, Matu’a presenciou uma “revolta popular” com os ilhéus derrubando os moais e expulsando os chefes de suas casas perto do litoral (os poderosos de lá também moravam de frente pro mar).
Foi demais pro velho Matu’a, que sem teto e com medo de virar refeição (os primeiros rumores de canibalismo tinham chegado aos seus ouvidos), embarcou numa velha canoa, sem condições de navegação (todas estavam assim), para bem longe dos seus, e com os olhos embotados de cimento e lágrima, esperando enfim entender o descaso dos ancestrais, ele navegou como se realmente fosse um príncipe. E flutuou na água como se fosse sábado. E tropeçou na onda como se ouvisse música. Agonizou no meio do passeio náufrago. Morreu na contramão atrapalhando o sono de povos no futuro.
Aproximadamente sete décadas depois, em 1722, um holandês originalíssimo batizava a ilha com o nome de Páscoa (imagine, leitor-guru, em que dia ele a descobriu….) e, se assustou com o povo miserável, raquítico e canibal, ou melhor, necrófago, pois não matava pra comer, mas também não desperdiçava um cadáver. Ainda indagou de onde viriam, aquelas fabulosas estátuas, que similarmente também ocorriam em outras ilhas da Polinésia, mas eram ali bem maiores e numerosas. Como um povo fraco daquele colocou-as em pé? Não é a toa que os moais ainda povoam as mentes dos ufólogos… Erich von Däniken, aquele de Eram os Deuses Astronautas? (Melhoramentos, 190 páginas, 27,50 reais) que o diga…. [Continua!]




maio 3rd, 2008 at 0:21
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