et al. é a abreviação da expressão latina et alicui que significa “e colaboradores”. Explico: na maioria das revistas científicas a citação de um trabalho com mais de dois autores é feita usando-se o sobrenome do primeiro autor acompanhado de et al. (por exemplo, Silva et al. 2007, só pra escrever um dos sobrenomes mais populares do Brasil).
Uma vez ouvi não sei onde a expressão “et eu”. Morri de rir. É usada pejorativamente contra o manjado tipo de professor-pesquisador que não cansa de dizer “Eu isso, Eu aquilo, Eu aquele outro, Eu, Eu, Eu….”. Também é usado para cientistas que só enxergam o próprio umbigo na hora de escrever: você lê o paper e o cara se cita toda hora. Bem, nem sempre é tão pecado assim. Pode ser que ele seja um dos poucos a tratar daquele assunto usando uma abordagem recente ou diferente. (Hum….).
Certa vez li em uma revista científica famosa um trabalho de 30 páginas de um pesquisador estrangeiro que admiro. Havia 15 citações e 14 se referiam a trabalhos do próprio autor (desculpe, seria grosseiro dizer o nome). Do que já li por aí, é o campeão do “et eu”. Neste espaço vou me dar o direito de auto-citação. Divulgarei aqui algumas publicações de minha própria lavra.
Está inaugurada a seção “et eu”.
O trabalho de que vou falar hoje foi construído junto com o Urbano Lopes da Silva-Jr (WWF do Acre) e a Nídia Noemi Fabrè (Universidade Federal do Amazonas) e foi publicado pelo periódico African Journal of Agriculture Research em seu número 1, volume 5, de dezembro último. Quem quiser uma cópia (*.pdf) do original pode pegar de graça clicando aqui ou no nosso HD Virtual.
Fizemos um modelo matemático “Ecopath com Ecosim” dos peixes do Rio Amazonas. Pra ser bem didático: um modelo matemático é uma simplificação quantitativa de um processo e serve para prever impactos impossíveis de serem realizados na prática. “Ecopath com Ecosim” é um programa de computador que permite a construção de modelos de ecossistemas aquáticos onde as diferentes espécies (ou grupos de) relacionam-se mutuamente, com o consumo de um predador gerando a mortalidade por predação de suas presas. A pesca também pode ser incorporada ao modelo, bem como outros impactos (por exemplo, aumento de produção primária por descarga de nutrientes, etc…).
Estima-se que 300 ecossistemas aquáticos do mundo já foram analisados com o Ecopath e muitos outros serão, devido principalmente à mudança de paradigma na avaliação de estoques pesqueiros, que passou da análise solitária da espécie-alvo nas décadas de 70-80 para o “Manejo de Pesca Baseado no Ecossistema” na década de 90. Este último analisa todas as principais espécies, em especial os predadores e presas das espécies-alvo da pesca, observando o quanto cada uma delas influencia na dinâmica das populações e altera a quantidade capturada pelos pescadores.
Mas voltemos a Amazônia. O modelo que fizemos avalia o ecossistema da e da dourada e foi construído como parte do projeto “Bases para o manejo da pesca dos Grandes Bagres Migradores” [Download aqui] administrado pelo Pró-Várzea/Ibama. A Profa. Nídia e o Prof. Ronaldo Barthem do Museu Paraense Emílio-Goeldi coordenaram os estudos. Mais detalhes podem ser lidos no artigo “Da foz do Amazonas aos Andes” na Ciência Hoje de dezembro na seção Primeira Linha, autoria da Profa. Adriana R. Carvalho, “et esposa….”.) ou no livro “O manejo da pesca dos grandes bagres migradores: piramutaba e dourada no eixo Solimões-Amazonas” (Editado pelo Pró-Várzea-Ibama).
No modelo Bagres, como o batizamos, entram, além da piramutaba e dourada, outros bagres como os pintados e a piraíba. No total são 26 grupos biológicos incluindo fitoplâncton, zooplâncton, insetos e a várzea amazônica. Com dados de captura do ano 2001, fizemos a projeção do que aconteceria se aumentássemos a pesca dos bagres nos próximos 5 anos, ou seja, até 2006: concluímos que a dourada seria a mais prejudicada, mas piraíba e piramutaba, num menor alcance, também seriam afetadas. Ao mesmo tempo, é provável que a captura das outras espécies aumentasse já que os principais predadores seriam reduzidos.
Mas a conclusão que merece destaque é que simulamos a devastação da várzea amazônica. O resultado é desastroso para os peixes, incluindo os bagres que, pelo menos até onde sabemos, nem são encontrados na área da floresta inundada (outro nome da várzea). Raciocine: se tiramos a várzea, acabam-se os frutos, as sementes e os insetos com prejuízos para as espécies que se alimentam destes itens e para as espécies que se alimentam destas espécies. Ainda e mais importante, a Floresta Inundada colabora com detritos que depois são consumidos por muitas presas consumidas por grandes predadores. O jaraqui, presa importante, é um exemplo de detritívoro que se beneficia deste aporte de restos da floresta, além de representar quase 70% do desembarque da pesca de Manaus.
Então, concluindo, o impacto da pesca sobre os peixes é menor do que o da devastação da floresta de várzea. Isto corrobora o que pesquisadores como Miguel Petrere Jr. e Ângelo Antonio Agostinho vêm dizendo: nos ecossistemas de água doce, não é o pescador que acaba com os peixes, mas sim os impactos causados a estes ambientes (construção de reservatórios, retirada da mata ciliar, etc…). Ainda assim, muitos Estados ainda querem impedir os pescadores de trabalharem, pois eles “destroem a natureza”. Em Goiás, a pesca é completamente proibida há anos, mas mesmo assim os peixes não são abundantes no Araguaia. Por quê? Basta ver suas margens e nascentes degradadas.
Sim, o modelo Bagres tem limitações. Uma delas, é que não prevê a regeneração da floresta (que sabemos ser demorada, em especial para voltar a possuir árvores que produzam frutos). A outra é que não foi calibrado com dados de captura pesqueira de um período maior que 15 anos (o ideal para um modelo Ecopath e que só me dei conta agora, convivendo com os pesquisadores da África do Sul). Um fato que eu achava grave é que o modelo serve para a calha toda do Amazonas, algo em torno de 60 mil km2 e aparentemente muito grande. Mas agora, aprendendo sobre ambientes marinhos, descobri que nestes, as áreas abordadas com sucesso pelo Ecopath, são muitas vezes até maiores que a usada por nós na Amazônia.
Alguns pesquisadores, principalmente no Brasil, ainda olham de soslaio o Ecopath. Acham-no demasiado “geral”. Porém, o mundo hoje o reconhece como a melhor ferramenta disponível pra avaliar as pescarias do ponto de vista ecossistêmico. Precisa ser melhorado, é claro. Mas isto só ocorrerá se for usado o suficiente para ser criticado e aperfeiçoado. Além disso, antes um modelo do que nenhum.
Só pra terminar: o manejo da pesca marinha da África do Sul e da Namíbia (importantes pescarias no mundo) é feito, em grande parte, abalizado por modelos Ecopath. É esperado que Angola, parceira dos dois países neste assunto, também use o modelo Ecopath a partir deste ano para avaliar suas pescarias. Isto é, se eu e outros pesquisadores colocarmos o modelo pra funcionar (xiiiiii, olha eu aí de novo! Eu, Eu, Eu…..).





janeiro 5th, 2007 at 13:18
Muito bom, Ronaldo.
Abraço.
janeiro 8th, 2007 at 1:59
lindo lindo o seu blog amei!!parabéns
janeiro 15th, 2007 at 18:46
Vai com fé.
Adorei o telefonema (ih! ficou meio gay, mas deixa pra lá). Manda um beijão pra Adriana.
fevereiro 6th, 2007 at 6:52
Grande Ronaldinho, está de parabéns pelo blog. Adorei o trabalho sobre o bagre. E viva o et eu! Bjs para a Adriana e sucesso para vcs!
janeiro 30th, 2008 at 19:35
Caro Ronaldo
Saudações Amazonicas!!
Gostei do texto e inclusive estou trabalhando na area no Projeto Polos de Pescado, precisando aplicar um desses novamente so que escala menor nas pricinpais comunidades pesqueiras do Alto Solimoes. entre contato
Leocy Cutrim
Msc. Eng de Pesca
SEPA/SEPROR
da
julho 21st, 2009 at 20:43
Gente conheci esse peixe piramutaba ontem ( frito ) nossa como e saborosso!!!!! gostaria de saber mais sobre esse peixe um forte abraço a todos desse blog e muita paz!!!
novembro 22nd, 2009 at 16:48
Olá, muito interessante seu trabalho!
Gostaria de saber se há algum trabalho de pesquisa sobre os bagres da amazônia em relação à sua atividade migratória e sua relação com a pesca tanto artesanal quanto a pesca industrial?
Graduanda em Eng. de pesca pela Universidade Federal do Pará.
setembro 13th, 2010 at 18:39
Não sabia da existência desse blog, Ronaldo! Muito feliz por tê-lo encontrado (por acaso) na rede. Abraços