Calor? Tente o gás sulfuroso…

As mais respeitáveis revistas científicas do mundo (Nature e Science) não têm mais dúvida da importância do Homem, através da queima de combustíveis fósseis, para o atual quadro de mudanças climáticas globais. Nas palavras da Nature de abril de 2007: “The debate is over” ou “O debate acabou”. O aquecimento é pra valer e a discussão, à partir de agora, é sobre quais serão as políticas públicas a serem adotadas para minimizar os efeitos catastróficos de tais mudanças.

O último relatório do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas Globais) tratou exclusivamente da “Captura e Estoque de Carbono”, isto é, de soluções para o despejo do dióxido de carbono (CO2), já que na atmosfera ele causa o aquecimento. Desta forma, os outros candidatos a reservatórios são: o oceano e certas formações geológicas, como minas abandonadas ou salinas. É só injetar o CO2 nelas.

Para os oceanos o relatório diz que o CO2, por ser mais denso que a água, formaria “um lago” (as aspas são do relatório) no fundo do mar, que retardaria a dissolução de carbono no ambiente circundante. O impacto disto está em “fase de pesquisa”, ou seja, não foi analisado em escala industrial e a gigantesca bolha de CO2, muito provavelmente, não explodirá.

Para transportar o CO2 até estes reservatórios, é bom saber que gasodutos saem mais barato que navios e, em pequena escala, caminhões podem ser usados. Outra forma de estocar carbono é a fixação industrial em carbonatos inorgânicos (dá pra fazer tijolos, estradas), mas não colaboraria tanto com as reduções das emissões por que o processo não é tão simples e as pesquisas estão no início.

A estimativa é que estes novos sistemas de despejo encareceriam a produção de energia em 1 a 3 centavos de dólar por kilowat por hora, mas para instalá-los a indústria precisaria de 10 a 40% a mais de energia. Mesmo assim compensa: a redução das emissões seriam em torno de 85%, lembrando que o setor elétrico é responsável por 78 % das atuais emissões.

Agora os magnânimos cientistas, sempre preocupados com o bem da humanidade (claro, claro…) descobriram uma nova forma de retardar o aquecimento global: trata-se de despejar dióxido sulfuroso (SO2) na atmosfera. É isto mesmo que você ouviu: para combater o calor provocado pelo CO2, pode-se atacar de SO2. Uma espécie de “poluição boa”.

Esta especulação já existia, mas em 1991 foi comprovada com a erupção do vulcão Pinatubo nas Filipinas, que ao lançar uma grande nuvem de partículas de SO2, à 20 km acima da superfície da Terra, tornou a luz do sol mais difusa, e o clima local um pouco mais frio. Resumindo: o CO2 não deixa que o calor saia, já o SO2 não deixe que ele entre.

A idéia então permaneceu na geladeira até ano passado quando Paul Crutzen, o Nobel que descobriu o buraco da camada de ozônio, passou a defendê-la e estimou ser necessário despejar o equivalente à cinco Pinatubos por ano no planeta para evitar o aquecimento. Já há até alguns esquemas que prevêem a produção barata de SO2 numa indústria. O gás seria lançado à 20 km de altura, e ficaríamos, então, um pouco mais confortáveis.

Obviamente, os cientistas são unânimes em dizer que ainda é urgente a diminuição das emissões de CO2, mas alguns deles estão entusiasmados com o fato que o SO2 age muito rápido como um “sunblock” para a nosso planetinha. Apesar destes resultados favoráveis, a maioria dos climatólogos acha prematura esta manipulação artificial do clima, que tem até nome, Geo-engenharia.

É claro que o controle artificial do clima ainda não está completo, mas imagine que num futuro próximo, os enamorados poderão pedir “uma chuva para dois, por favor,” e sair pela rua, escutando nos ipods aquela antiga canção do cigarro Continental (preferência nacional): “lá fora está chovendo/ mas assim mesmo eu vou correndo/ só pra ver o meu amor…../a girar / que maravilha/….”. Ando com a impressão que o mundo era mais romântico no tempo do Wilson Simonal.

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