Muito bem, você entrou numa universidade pública. Está entre aqueles cerca de
Ainda é muitíssimo provável que a universidade pública em que tenhas entrado seja menos pior que suas vizinhas que cobram mensalidades (filantrópicas, privadas, etc…). Esta diferença se dá por vários motivos. O primeiro, mas não principal, é o fato de que pelo menos 40% dos professores das universidades públicas têm se esforçado pra realizar, dentro dos limites financeiros e intelectuais de cada um, pesquisas científicas em suas áreas de concentração. Esta atividade faz com que o professor estude, leia, reflita um pouco mais (sei que isto era pra ser feito sem a pesquisa, mas não é o que ocorre) e até conte com sua ajuda na pesquisa como orientado. Por isto, é muito provável que as aulas dele sejam mais informativas, ou que ele se encontre mais preparado para responder suas perguntas.
Mas a razão fundamental pela qual a universidade pública é, repito e enfatizo: em geral, menos pior que a paga é a qualidade do aluno. É, estou falando de você mesmo. Com as honrosas exceções de sempre, as universidades públicas têm maiores relações candidatos/vaga nos vestibulares, logo, seus alunos passaram por uma seleção maior e, então na média, eles estão mais preparados para terem aulas de cálculo, química orgânica, citologia, genética de populações, estatística e congêneres. E aí, o professor pode ser um pouco mais exigente, pois ele não precisa ficar ensinando conta de percentagem, as leis de Mendel, ou ainda que exceção se escreve com ç e não com ss. Pode parecer bobagem, mas faz uma diferença e tanto para o professor e consequentemente para o nível da disciplina.
É eu sei. Há professores nas universidades (públicas e particulares) que também não sabem escrever… (depois eu conto esta história com mais calma). Pois é, mas aqui vamos falar entre a gente que é minimamente sensato pra usar um corretor de texto, ok?
Caro aluno, ressalto que não estou a dizer que se você passou num curso com baixa relação candidato / vaga, é porque sua qualidade é baixa. É apenas um fato: a média das notas dos vestibulares mais concorridos é maior que as dos menos, mas, como diria o Roberto Campos, só os medíocres calculam a média. O que quero dizer é: se seu curso não foi lá muito procurado é por que, na média, há fortes indícios de sua turma estar menos preparada para algumas disciplinas, o que aumenta a sua responsabilidade de estudar com dedicação, pois inevitavelmente o professor abaixará o nível. Mas se você passou num vestibular disputado, e está se achando, como se dizia no meu tempo, o bonitão da bala-chita, pode pôr suas barbas de molho, pois sua obrigação de estudar só aumenta na mesma proporção que o professor deve puxar o nível do curso.
Estudar. Estudar. Estudar. Há dois argumentos igualmente importantes que tornam seu estudo um compromisso. O primeiro é diretamente de seu interesse. Só pra dar dois exemplos que conheço: por ano no Brasil formam-se 10 mil biólogos e 50 mil bacharéis em direito (que após o exame da OAB tornam-se advogados). Como o país não cresce (ou cresce pouco), onde esta gente toda vai arrumar emprego? Então, é preciso se preparar bem para o próximo vestibular que é o do mercado de trabalho, e o do Brasil, o “país do futuro”. Pra isto há vários caminhos, mas de longe, o mais correto e eu diria até, o mais divertido, é o do estudo concentrado e, de preferência, individual. Cuidado com este negócio de estudar em grupo, isto só deve ser feito depois do individual e mesmo assim em véspera de prova, pra tirar dúvidas e dirimir aflições.
Isto não quer dizer que você vai virar um mesquinho de nariz empinado que não conversa com seus colegas e de vez em quando não lhes tira as dúvidas (aliás, ensinar aos colegas, é uma ótima maneira de testar os próprios conhecimentos). Mas você tem que se ajudar primeiro pra depois ajudar os outros. Eu sei que é difícil saber até que ponto se está sendo egoísta ou não, mas isto faz parte do amadurecimento de nosso caráter. Pratique o seu. Medite sobre ele.
O segundo argumento pelo qual você tem que estudar mais para ter o conhecimento do que simplesmente tirar “cinco-bola” pra passar na disciplina, é o moral. Você e sua família não pagam diretamente pela universidade. Mas ela não é gratuita, sabia? Os impostos de todos os contribuintes custeiam seu curso, incluindo, claro, os impostos que você, seus pais e parentes pagam, mas principalmente os impostos pagos pelas muitas pessoas que não freqüentam a universidade. Compreendes que até a faxineira das salas de aula paga imposto, e que muitos de seus colegas, ainda têm a falta de educação de jogar papel no chão? Não pense que seu curso seja mais barato que o das particulares que apontei no 1º parágrafo. Ele não é.
Como se isso não bastasse, professores, alunos estudiosos, e principalmente os coordenadores de curso, têm que ficar agüentando alguns alunos irresponsáveis que vivem apoquentando todo mundo com mudanças de horários pra que eles possam se formar. Imagine o prejuízo que estes caras não dão pro Estado e consequentemente pro povo. E depois alguns deles reclamam da vida, do “sistema” e dos políticos corruptos. É eu sei. O mesmo pode ser dito para muitos professores, mas a conversa agora é com você.
Por falar nisto, a gente reclama muito dos políticos corruptos. Mas (é quase inacreditável dizer ist
o em público) há muito aluno que pensa que é esperto porque cola na universidade. E me diga: qual a diferença entre um político que recebe favores por debaixo de pano e um aluno que recebe ou carrega “favores” por debaixo da prova? Eu respondo. A diferença está no cargo. Um é aluno, o outro é político. Entendeu? Por isto, se você quer falar mal dos políticos, olhe pro próprio umbigo, principalmente antes das provas e viva o seu pequeno dilema shakespereano: “Ser ou não ser: eis a questão”.
Você pode me perguntar se o professor não tem a obrigação de fiscalizar a prova. Ele tem. Mas a obrigação principal do professor é ensinar e a sua é aprender. Além disso, você já está com mais de 18 anos, não dá pra ter um pouco de bom senso (aquilo que vocês alunos chamam de “semancol” ou vergonha na cara)? Se as leis no Brasil fossem mais duras, acredito até que seria possível processar o aluno que cola por “falsidade ideológica”. Mas já viram, né? Provavelmente o advogado do aluno também usaria a velha desculpa do “caixa 2 que todo mundo faz….” Tá vendo? Para melhorar o Brasil, é preciso melhorar a si próprio primeiro. Comece estudando pra valer.
Você deve estar se perguntando: “Mas professor, em geral, nossas bibliotecas estão em frangalhos, a maior parte dos professores não oferecem estágios por que não têm condições de laboratório e a gente tem que trabalhar, etc… Como estudar nestas condições?”
Novamente. Não há desculpas pra não estudar. Pra quem trabalha, compreendo que a vida não é fácil. Mas ela continuará dura depois da universidade se você só passar por ela e não adquirir conhecimento através do estudo. De uma vez por todas: diploma não faz mais diferença nenhuma para quem tem carne, miolo e ossos. É claro, faz diferença pras estatísticas do governo, da universidade, etc…
Também tenho notado uma coisa relativamente comum em quem trabalha e estuda. No local de trabalho ele reclama que tem que estudar e por isto as pessoas têm que ter paciência com seu desempenho aquém do esperado. Na universidade ele, por trabalhar, não tem tempo de estudar. Então, se você trabalha e se não podes deixá-lo apenas pra estudar, o que seria o ideal, há de esforçar mais ainda. Eu e outros professores aplaudimos seu esforço, compreendemos a sua batalha, oferecemos nossa ajuda que é o nosso conhecimento (e obrigação), mas não podemos ter pena de você, nem favorecê-lo. Não é nada pessoal, é apenas profissional.
Para você que tem a tranqüilidade de não precisar trabalhar, mas ainda sim vive na corda-bamba, eu gostaria de te dar algumas dicas de “estudo-trabalho”. Comprar livros seria o ideal, mas ainda mais fundamental é ter computador e internet rápida em casa. (Não é muito barato, mas se você compara com a mensalidade da universidade que você não paga…). Com a internet voc
ê pode acessar periódicos científicos em sites como (www.scielo.org), ver o currículo daquele seu professor papudo pra saber o que ele anda publicando, pois em muitos casos, mestrado e doutorado querem dizer pouca coisa (www.lattes.cnpq.br), baixar teses que acabaram de ser defendidas (www.capes.gov.br), ler blogs de divulgação científica (www.cienciaemdia.uol.blog) e se comunicar com as pessoas. Preciso lembrar que computador é ferramenta de trabalho e não de diversão ou fofoca? Então, tá bom.
Outra coisa é aprender inglês. Pense bem: você teve inglês quatro anos no ensino Fundamental e três no Médio. Deu pra aprender o verbo to be, ok? Então agora é hora de ler em inglês. É imprescindível instruir-se nisto antes de sair da universidade e isto não se faz de uma hora pra outra. Comece já. Digo isto com a maior experiência, pois sofri muito para ler em inglês e depois no meu pós-doutorado tive que contar com a tolerância dos sul-africanos com meu inglês fraquiiiiinho. Não me venha com aquela bobagem de língua do “império dominador”, etc… Aprender outra língua é uma sensação muito gratificante. Além do que na internet há livros e mais livros das mais diversas ciências, e países, em inglês. É só baixar, pegar o dicionário, ler, anotar e estudar.
Tem mais algumas dicas. Não perca tempo com movimentos estudantis. Existe muita coisa errada nas universidades. Porém lembre-se, que elas não serão arrumadas em 4 anos e quando você se formar, seu futuro empregador não vai querer saber se você participou do Centro Acadêmico. Ele só quer que você tenha as habilidades que ele exige, e então, conhecimento é fundamental. É! Perdi meu tempo com estas bobagens estudantis, por isto meu inglês hoje não é tão bom e deixei leituras fundamentais que depois tive que correr atrás. Sei que a experiência é lanterna na popa, ou seja, “só ilumina as águas passadas pelo barco de cada um”, mas fica o meu conselho: entre uma reunião do CA pra organizar um movimento pra pedir Restaurante Universitário e uma leitura de Dostoievski ou de um Stephen Jay Gould, prefira os livros. Não vale deixar o CA de lado pra vadiar e nem desprezar quem está no CA. Democracia é assim mesmo, tá bem?
Fico feliz que você tenha chego ao final deste meu longo texto. Não! Não sou o Morpheus. Eu não tenho as pílulas azul e vermelha pra te oferecer, mas tomei a liberdade de falar a sua verdade, a partir de agora. Você não paga pelo estudo, por isto tem que mostrar à que veio. Diploma não é adorno de parede e mesmo que fosse poderia ser roubado. Conhecimento adquirido nunca. Parabéns mais uma vez e boa sorte.
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fevereiro 26th, 2007 at 20:33
Certo Ronaldo, permita-me comentar, concordo com quase tudo do que diz ou de quase tudo que entendi. Parece que temos uma boa receita de como formarmos em uma profissão ou em um estilo de vida. As dicas são boas e tenho consciência de que, como seu aluno, segui e ainda sigo a maioria delas (ou tento seguir).
A problemática é que passar ou viver 4-5 anos em uma universidade quase nunca é tão prevísivel e sistemático, e tenho certeza que sabes bem disso, e se fosse, não teria a menor graça. O pouco que discordo posso dizer: um curso hoje de giz e lousa pode sair bem mais barato do que R$ 350 mensais, até mesmo cursos que necessitam melhor infraestrura, como biologia, sai por bem menos do que R$ 600, mas ambos sabemos que não há como comparar sua qualidade, é ridículo; outra coisa é o fato do seu aluno “receita de bolo” ter que estar sempre a ler e estudar, ler e estudar. Eu pensaria duas vezes antes de me decidir entre uma boa leitura e uma boa conversa com os amigos no horário de uma aula chata. Sou convicto de que a chave para ser um bom profissional e, sobretudo, uma boa pessoa, não está só nos livros.
Por fim, no meu humilde comentário não espero te convencer. Durante minha graduação fiz muitas coisas contrárias ao que você diz na carta. Colei em prova sim e chinguei político safado, participei de centro acadêmico e movimento estudantil (que, convenhamos, foram ridicularizados) e não aprendi nada de inglês. Erros estes que se fosse hoje pensaria duas vezes antes de cometê-los, mas já é passado e está implicito nas minhas características profissionais, e consequentemente, pessoais, e, embora eu reclame, não me envergonho disso. Bom profissional ou não, de sucesso ou não, não seria melhor de outra maneira, mas vamos esperar até que eu caia no mercado de trabalho.
No aguardo de mais textos e mais sucesso na África.
março 3rd, 2007 at 14:31
Pela ordem:
1- Livros (para os acadêmicos).
2- Periódicos científicos (para os acadêmicos que desejarem estar ‘up to date’)
3- Ler. Tudo: jornal, revista, blogs, literatura (sempre).
4- Estudar: sempre entendi que estudar é diferente de ler. Hoje vejo que muitos fazem/pensam diferente. Continuo achando que eu estou mais certo.
5- Jogar bola, sexo casual e tomar uma cerva gelada que ninguém é de ferro.
PS.: Só para provocar: quem se graduou em escolas públicas deve ter algum compromisso com a sua escola de origem depois de graduado? Ou ainda devolver à sociedade que pagou seus estudos algum “benefício” ??
Grande abraço.
março 3rd, 2007 at 15:34
Oi Roberson. Esta história de compromisso com a escola pública é muito bonita, mas deve ser voluntária. Também há outros modos de “pagar” a escola pública. Por exemplo, tive um bom orientador, me esforcei e o meu trabalho de monografia, virou 3 trabalhos científicos (numa revista brasileira, não muito top, mas virou). Acho que andamos tão mal das pernas que ser um aluno aplicado já está de bom tamanho, ou seja, é um bom pagamento.
Quanto a cerveja e a conversa com os “bons companheiros”, citada pelo Orsi, concordo plenamente. mas é bom lembrar: tempo passa rápido. abr
março 5th, 2007 at 12:22
Equeci de reforçar uma coisa:
INGLÊS! obrigatório.
março 25th, 2007 at 17:24
Primeiramente,
Meus parabéns pelo seu blog, que mistura curiosidades com artigos científicos e conselhos para os calouros (não entrar em CAs).
E uma coisa é verdade: sem o inglês, qualquer pessoa está muda, surda e cega para o mercado. Uma pena que em 8 anos de inglês (5 do Ensino Fundamental e 3 do Ensino Médio), não se capacita o aluno brasileiro como “fluente” em inglês.
Então, Prof. Ronaldo.
Tenho saudades das suas aulas
Alles van die beste, Ronaldo opvoeder.
Groete
fevereiro 19th, 2008 at 16:57
Ronaldo e Igor, o Atila me mandou um meme e estou repassando para vcs.
http://brontossauros.blogspot.com/2008/02/memes-cientficos.html
fevereiro 25th, 2008 at 12:06
Caros Ronaldo e Igor. Estou fazendo uma pesquisa sobre blogs cientificos e ficaria agradecida se vocês pudessem fornecer três informações sobre seu blog: principais areas da ciencia e/ou tecnologia envolvidas, data de nascimento (primeiro post) do blog) e se o mesmo têm o carater de blog pessoal.
Obrigada pela atenção. Angélica Mandrá angelicamandra@gmail.com
março 28th, 2008 at 19:04
Boa noite Angelica!
Entrem para mais informacoes acerca das pesquisas sobre blogs, alem de conhecer o Laboratorio de Divulgacao Cientifica!
[]`s!
março 28th, 2008 at 19:05
Errata: http://dfm.ffclrp.usp.br/ldc
julho 18th, 2009 at 9:36
Concordo com a essência de seu comentário, que é lúcido, coerente e real. Acrescentaria: aproveite bem a oportunidade de cursar uma universidade pública.
Faço Pedagogia na UFU.
setembro 11th, 2010 at 17:47
Meus parabéns pelo blog e esse excelente post.
Entrei agora há pouco (ainda me sinto calourão) na universidade, com meus quarenta anos (cabelos grisalhão), e, estou achando o quanto perdi por não fazê-la antes (por motivos pessoais).
Vou compartilhar esse seu post com a minha turma da faculdade de Biblioteconomia.
O saber transmitido nas linhas escritas são por demais verdades, que muita gente não gosta de ouvir e outras não tem a honradez de falar.
Mais uma vez parabéns.