Comportamento: Gênios e criminosos

Pesquisa mostra que o desejo de competividade explica as relações entre

cientistas geniais e criminosos cruéis


No meu artigo anterior, publicado na edição de 1o de março do Jornal Opção, falei sobre a vida de Carl F. Gauss (1777-1855) que, entre outros feitos, com 31 anos de idade, descreveu a “curva normal”, abrindo o caminho para o surgimento da moderna estatística. Hoje, os devaneios teóricos que Gauss desenvolveu em sua torre de marfim têm muitas aplicações, uma das quais passo a relatar.

Recentemente no prestigiado Journal of Research in Personality, o pesquisador Satoshi Kanazawa, da Universidade de Canterbury da Nova Zelândia, publicou o artigo “Por que a produtividade decai com a idade: a conexão crime-gênio” (Download aqui).

Estudando a biografia de 280 cientistas, o autor mostra (veja a figura), que o ápice de produções relevantes de um cientista acontece quando ele tem, em média, 35 anos. Note, o leitor, como esta distribuição tem aproximadamente uma distribuição normal (com leve desvio na cauda direita). Assim, 280 bons cientistas escolhidos ao acaso (traduzindo para o jargão estatístico: um grande número de observações aleatórias independentes) tiveram seus ápices de carreira acadêmica, distribuídos normalmente em torno de uma média de 35 anos (ou ao redor da classe modal que compreendeu os cientistas de 30-34 anos).

Assim, por apresentarem esta distribuição, é possível afirmar que 65 por cento dos cientistas fizeram suas principais contribuições com 35 anos, e 80 por cento o terá feito até 40 anos.

O que isso realmente significa? Que a produtividade científica é maior para homens (98 por cento dos cientistas do levantamento) com idade de até 40 anos. Mas por que uma atividade como a ciência, que parece exigir experiência e maturidade, seria desenvolvida melhor por digamos, homens pouco maduros?

Kanazawa cita outros casos nos quais foram relatadas iguais tendências para os compositores de jazz, pintores e escritores, isto é, a produtividade dos “gênios” nestas áreas, decai com a idade (a média varia de 35 a 45 anos). Mas o mais interessante é que a relação por ele denominada idade-gênio segue o mesmíssimo padrão da relação idade-crime, uma curva bem difundida entre os criminologistas que mostra que o comportamento criminoso aumenta com a adolescência atingindo o pico no início da fase adulta, declinando “normalmente” depois.

Os criminologistas acreditam que os crimes são conseqüências da competição de homens jovens (na pós-puberdade e, portanto aptos à reprodução) pelo acesso aos recursos reprodutivos femininos. Como em homens adultos os custos de competição são incrementados, há um rápido declínio em seu comportamento criminoso (o esforço reprodutivo deve ser ajustado para o cuidado com a prole).

Antes que algum jovem use o artigo de Kanazawa (e esta minha tradução sintética) como um pretexto para atividades ilícitas, é importante saber que os mecanismos que evoluíram psicologicamente operam atrasados em relação ao pensamento consciente. Isto é, apesar de agir de forma criminosa, o indivíduo não sabe o porquê e, portanto, não percebe as causas fundamentais de seu comportamento; conscientemente ele não persegue sucesso reprodutivo quando se engaja no crime. Suas preferências e desejo pelo ilícito servem como causas de seu comportamento.

Todos os mecanismos psicológicos que evoluíram no ambiente ancestral humano dão origem a comportamentos freqüentemente ineficientes no presente ambiente (um cidadão comum tem mais sucesso reprodutivo que um criminoso, além disso, a polícia e a Justiça não existiam no ambiente onde os mecanismos evoluíram). As normas contra violência emergiram em resposta aos mecanismos psicológicos do homem que os compelem a comportar-se anti-socialmente.

O que Kanazawa encontrou é que a similaridade entre as curvas gênio-idade e crime-idade mostra que ambas são causadas pelo mesmo mecanismo psicológico: “Ambos, crimes e genialidade, são expressões de desejo competitivo de jovens, cuja função última no ambiente ancestral teria sido o aumento do sucesso reprodutivo”.

Assim, a produtividade científica (ou artística) seria a soma de gênio (talento) e esforço (competitividade). Mas o gênio, ao contrário da vontade competitiva, não diminui com a idade. Orson Welles tinha 26 anos quando escreveu, produziu, dirigiu e estrelou Cidadão Kane, e, ao final de sua vida, ele certamente ainda tinha o talento que o permitiu montar o maior filme de todos os tempos. Mas as flutuações em esforço no curso de sua trajetória foram bastante reduzidas (nós não temos o “Cidadão Kane II”).

Enquanto isso, o crime é o produto da competitividade do homem quando ele não tem genialidade (e por isso acontecia em nosso ambiente ancestral, ao contrário das ciências e artes). Isto está de acordo com o fato já comprovado pelos pesquisadores deste ramo da ciência, que os criminosos são, em média, menos inteligentes que os não criminosos.

Em nossa sociedade atual, o homem, se possuir talento, pode expressar sua competitividade nas arenas científica e artística (ou em outras lícitas, é claro). Isto é confirmado pelo fato, que o pico da curva idade-gênio é mais tardio em relação ao da curva idade-crime, pois produtividade em ciências e artes, diferente do crime, requer respostas evolucionárias a novos estímulos e situações e estas respostas neste novo ambiente estariam, então, mais atrasadas.

Uma última e importante conclusão de Kanazawa — que concede e reforça a explicação para a semelhança entre as relações de idade-crime e idade-gênio — é que o casamento também atua como redutor das atividades de um criminoso e de um cientista.

Até o momento os criminologistas achavam que um bom casamento funcionava como um “contrato social”, incompatível com uma vida de crimes, além do fato de que mulher e filhos na mesma casa são eficientes controladores dos atos do homem, etc… Por isso, haveria uma tendência da diminuição de homens casados em atividades violentas.

Mas como explicar o mesmo fato entre os cientistas, já que, muito pelo contrário, a ciência não é uma atividade ilícita? Parece que um simples mecanismo psicológico está atuando na base, pois alguns estudos mostram que os níveis de testosterona de homens casados (e pais recentes) são a metade que o de homens não-casados (incluindo ex-casados, pois o divórcio aumenta o nível de testosterona). Este hormônio é o que predispõe o homem a ser mais competitivo, mas depois do casamento e de filhos, o homem “desliga” este mecanismo.

A vida de Évariste Galois (1811-1832) ilustra bem o argumento de Kanazawa. Galois foi desafiado a um duelo pelo marido traído. Assim na noite que antecedia ao embate, entre lamentos e juras de amor eterno à esposa do rival, ele teceu suas brilhantes idéias matemáticas numa carta. O mesmo mecanismo psicológico compeliu o jovem de 20 anos, a escrever poemas de amor e tratados matemáticos, pois ele estava pronto para matar ou morrer por uma mulher (competitividade máxima somada com gênio).

E ainda acusam os cientistas de serem frios e calculistas em suas torres-de-marfim! Como bem definiu Darwin, o “homem é apenas mais uma entre tantas espécies”. Aliás, humano, demasiado humano.

* * *

Li o artigo de Kanazawa, por uma dica do Prof. Dr. J.Alexandre F. Diniz-Filho da UFG, que recentemente teve seu 4o filho (a bela Anabela), mas continua com sua produtividade (gênio + esforço) altíssima. Ele ainda está na classe dos 35-40 anos.

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Uma Resposta

  1. Sophya Says:

    Eu acredito ser uma insanidade tentar justificar visoes ideológicas ou extremamente sociais através de explicaçoes biológicas.
    Como se tem discutido, a ciência nao atinge verdades, ela é uma forma de olhar o mundo, muitas vezes guaida por ideologias (inclusive inconscientes).
    Além disso, o ser humano, por sua própria biologia, possui um cérebro que se constrói pela inserçao em um ambiente cultural (por exemplo, a criança nasce com 1/4 do volume cerebral de um adulto e as conexões são realizadas de acordo com os estimulos que recebe do ambiente, portanto, da cultura que ela está inserida).
    Assim, além da dimensão biológica, o cerébro humano permite a formaçao e transmissao de algo que entendemos por cultura (que tem suas bases na biologia, mas permite a emergencia de algo que entendemos por social, cuja transmissao ocorre nao só pela hereditária biológica mas também pela “hereditariedade social”.
    Dessa forma, restringir comportamentos a puro instinstos biológicos nao parece correto. Será que o fato da produçao ser maior na faixa dos 40 nao seria uma desvaloriazaçao que se tinha e que se tem aos idosos? Sem a entrar na questao, que a estatística é lida e utilizada da maneira que se bem quer….
    novamente a utilizaçao da ciência na justificativa de ideologias e interesses….

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