Defesa da Torre de Marfim

 

Estátua de Gauss

Numa aula em 1784 num dos muitos territórios que no futuro comporiam a atual Alemanha, um daqueles rígidos professores pediu aos alunos de 7 anos que somassem os inteiros de 1 a 100. Um moleque de nome Carl o fez tão rápido que assustou o mestre e seu assistente. Ele tinha multiplicado 50 pares que somavam 101. Assim 1+100; 2+99; 3+98; etc…e encontrado o resultado final (5050).

Telescópio de GaussAjudado pelo sistema educacional da época o jovem foi logo pra universidade, pois para ele não havia necessidade de completar as outras séries, como diria o ditado inglês “Só faz doutorado, quem precisa….”. Gauss conseguiu proezas notáveis como prever a localização exata de um planeta observado por outros astrônomos, através de uma técnica por ele criada e hoje conhecida como “método dos mínimos quadrados” e que tem mil e uma utilidades. Além disso, construiu um telescópio com “régua e compasso” que permitia melhores observações. Isto foi considerado o maior avanço neste campo da ciência, desde a matemática grega de 2200 anos atrás!!!

Mas Gauss passou mesmo para a posteridade com a descrição matemática da curva normal, ainda hoje denominada muitas vezes de curva gaussiana. A curva normal estimava a probabilidade de erros de observações astronômicas em estudos sobre a movimentação de corpos celestes.

Curva Normal

Sim, Gauss foi uma “mente brilhante”. Diz a lenda que com menos de 30 anos ele já estava cansado das aulas e, então quis um local quieto e sossegado, onde pode pensar em alguns problemas que o fascinavam desde os 15 anos de idade, como a provável existência da geometria não-euclidiana. A administração da Universidade de Göttingen o colocou num velho e abandonado observatório astronômico numa das torres de seus prédios, onde ele passou o resto de seus dias, discutindo assuntos “triviais” como infinitude, números primos, órbita e gravitação, entre outros.

Como a cúpula da torre era feita marfim, surgiu a expressão “torre-de-marfim” muito falada em nossos recentes anos 60, e que passou a designar de maneira pejorativa a universidade, isto é, um local onde os pesquisadores trabalhariam em questões sem importância e alheios aos acontecimentos reais do mundo lá fora.

Em 1812, o matemático francês Laplace, também na clausura de sua própria torre de marfim, fez a conexão entre o trabalho de Gauss e outras descobertas, descrevendo então o Teorema do Limite Central, provando que a média de um grande número de erros (observações aleatórias independentes) apresenta uma distribuição aproximadamente normal (em forma de sino).

Graças ao Teorema do Limite Central e também a comprovação da necessidade de aleatorização, podemos confiar nos números dos institutos de pesquisas (eleitorais, por exemplo), e na probabilidade de um remédio ser mesmo eficaz para a maior parte de seus usuários. É claro que pode haver manipulação dos dados, mas isto já não é mais ciência. Mark Twain tem uma definição ótima: “As mentiras se dividem três categorias: as pequenas, as médias e as estatísticas”.

Hoje alguns pesquisadores reclamam da “ditadura da estatística”, já que a lei postulada por Gauss e Laplace, em conjunto com a teoria de falsificação de hipóteses popperiana, confundem-se com a atividade científica em si mesma. Quem diria, hein? Da torre-de-marfim gaussiana nasceu à própria ciência como a entendemos hoje (Note o leitor que Gauss tinha 15 anos quando ocorreu queda da Bastilha, mas sua preocupação, ainda bem, era outra….).

Desta forma, para que possamos ter aplicabilidade da ciência é necessário antes teorizar (de raiz grega “contemplar”). O difícil é saber se uma teoria terá sucesso, isto é, se resistirá ao tempo, à falsificação de suas hipóteses com a coleta dos “malditos” dados, ou ainda aos impostores que muitas vezes usam teorias com fins ideológicos.

Faraday Foi pensando no problema da teorização e no bom uso de seu dinheiro, que a rainha Elizabeth perguntou, por volta de 1830, ao súdito Michael Faraday pra que serviam todos aqueles apetrechos que ele estava usando no laboratório real. O já então famoso Faraday, que veio posteriormente substituir Shakespeare na libra londrina, respondeu com humildade: “Responderei Sua Majestade com uma pergunta: pra que serve um bebê?”. Tempos depois Faraday construiu o primeiro gerador elétrico e então temos a eletricidade, algo bastante excêntrico e inútil naquela época. Sem dúvida nenhuma, um bebê que deu certo.

De volta aos nossos tempos, há duas décadas atrás alguns ecólogos apostaram suas fichas na Teoria das Catástrofes, mas depois de muita tinta, papel e caminhadas nas florestas, o resultado foi – digamos – catastrófico e a teoria foi abandonada.

A necessidade compulsória de uma boa dose de teoria, complementada com experimentos em laboratório e de pequena escala, não são novidades pra ninguém do ramo, e os institutos de pesquisa e as universidades estão aí pra realizar estas tarefas. Mas muita gente ainda reclama que a universidade só faz teoria, incluindo a quase totalidade de seus alunos e administradores e uma boa parcela dos próprios professores. Ok. Mas se a universidade prescindir da teorização, quem na sociedade vai fazê-lo? As empresas? As secretarias estaduais de C&T? Os Ministérios? As Agências de Fomento?

Sem o conhecimento da teoria e da capacidade de filosofar sobre ela (daí a expressão PhD, abreviatura para Philosophy Doctor), é quase impossível o desenvolvimento da ciência em si e conseqüentemente de sua aplicabilidade. Com exceção talvez das Ciências Humanas, onde não é incomum o surgimento de grandes nomes fora da academia, as outras duas grandes áreas, Biológicas e Exatas, só têm a academia como único local de desenvolvimento teórico e prático.

Torre de Marfim de Gauss

Infelizmente nestes tempos de necessidades urgentes de “atendimento ao social” está a se exigir das instituições, e de seus pesquisadores e trabalhadores, mais do que aquilo que eles devem e podem oferecer. Por exemplo, até 30 anos atrás uma boa empresa era aquela que cuidava bem de seus funcionários e ainda fornecia produtos de qualidade com baixos preços ao consumidor. Hoje ninguém mais fala mais de “boas empresas”, mas sim de “empresas socialmente responsáveis”, como aquelas que apóiam ONGs ou programas assistencialistas do governo.

Ainda nesta mesma linha de raciocínio, já se exigiu de músicos e escritores um engajamento nas grandes questões. A bela “Sabiá” (Tom Jobim e Chico Buarque) foi vaiada em detrimento da modorrenta “Pra não dizer que não falei das flores” (Geraldo Vandré) a fina-flor do consciente de sua cidadania… Deu no que deu. Tom caiu no gosto internacional e Chico é a única unanimidade nacional (quando canta, claro, e não quando fala de Cuba…). Os conscientes ficaram com seus 15 minutos. Na literatura, até Dostoiévski foi policiado pelos pares mesmo depois de penar na Sibéria por conspiração. Os engajados nunca estão contentes…

Desta forma, ciência aplicada e literatura engajada são irmãs, filhas do mesmo pensamento-sentimento imediatista, com sua exigência por resultados “práticos”, isto é, rápidos o suficiente para auxiliar a política, governista ou não, do momento.

É crucial enxergar, que a posteridade sempre mostra que o pesquisador é mais útil na torre-de-marfim, entendendo o mundo, do que no palanque, “transformando-o”. A principal lição de Gauss e Faraday ainda não foi totalmente assimilada: seguir mais as próprias intuições à preferir “ser um homem de seu tempo”.

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Este artigo foi publicado em 1 de março de 2004 no Jornal Opção – Goiânia. O leitor que me perdoe a repetição, mas além do assunto ser pertinente, estou de saída para uma viagem, e o tempo, no meu mundo real, não é nada relativo, apesar da teoria do principal cientista do século XX.

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2 Respostas

  1. Silvio Says:

    Agradeço pela tua falta de tempo.

  2. Daisy Says:

    Muito interessante o texto!

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