
Sem dúvida alguma a necessidade e a vontade de ganhar dinheiro ajudam no funcionamento do mundo. Dizem que a Terra nem gira mais em torno do sol e sim do dinheiro. Até mesmo nós paramos de olhar pro umbigo pra reparar, ao invés disso, nos próprios bolsos (e muitas vezes nos alheios…).
Há alguns anos a Science (olha eu aqui ecoando a Science…) publicou um artigo que fala sobre isto: “As conseqüências psicológicas do dinheiro” das professoras K. Vohs e N. Mead da Universidade de Minnesota, USA e do professor M. Goode da Universidade de British Columbia, Canadá. Basicamente eles pegaram algumas pessoas (cobaias) estimularam-nas (ou não) com dinheiro (ou a idéia de) e testaram suas reações. Estes “cientistas de laboratório” realizaram nove diferentes experimentos comparando basicamente dois grupos: um deles sempre recebendo o dinheiro ou estímulos (leitura, vídeo) sobre o dinheiro, o outro não. Vou chamar o grupo “endinheirado” de $ e o segundo de ∑, aquele que tem que somar as trocados pro fim do mês, e tentar explicar os experimentos (todos com resultados que mostraram diferença estatisticamente significativa entre os grupos).

No Experimento 1 os grupos tinham que executar uma tarefa difícil. Os resultados mostraram que os membros do grupo $ demoram mais para pedir ajuda (afinal, estavam motivados e ganhando dinheiro para fazer a tarefa) do que os do grupo ∑. É importante notar que as tarefas eram individuais, isto é, as amostras eram independentes, como manda a boa conduta científica.
O Experimento 2 foi complementar ao 1 e descontou (padronizou) a pré-condição financeira das cobaias, assim os grupos assistiram a vídeos: o grupo $ viu um vídeo incentivador sobre ganhar dinheiro, ou em termos científicos, recebeu uma condição ativada de abundância de dinheiro. Já o grupo ∑, teve a condição ativada de restrição de dinheiro. Dada uma determinada tarefa, o grupo $, demorou mais para pedir ajuda.
O Experimento 3 inverteu a situação: agora os grupos, diante de uma nova situação, tinham que ajudar outra pessoa. O grupo $ socorreu menos que o grupo ∑.

No Experimento 4 enganaram as cobaias com a simulação que um estagiário precisava de ajuda. O grupo $ teve menos disposição pra ajudar que o grupo ∑. Perguntados, os membros do grupo $ acreditavam que a estagiária deveria saber seu próprio serviço, etc…
No Experimento 5 durante um jogo do tipo “banco imobiliário”, entra um estagiário e derruba uma caixa de lápis, os participantes do grupo $ ajudaram menos o “artista-atrapalhado”. Sabe qual a variável usada pra medir a ajuda? O número de lápis recolhidos pelas cobaias. Assim os membros do grupo ∑ pegaram mais lápis que os do grupo $.
O Experimento 6 foi diferente. Antes do início dos trabalhos, cada participante recebeu 2 dólares. No final dos experimentos, os organizadores choraram as pitangas e disseram que a Universidade estava precisando de recursos (parece até uma universidade que conheço bem…) e pediram colaborações. Os participantes do grupo $ doaram significativamente menos dinheiro que os do grupo ∑.

No Experimento 7, os grupos, durante um trabalho na frente do computador, foram requisitados a entabular uma conversa com uma pessoa que precisava de ajuda. Membros do grupo $ colocaram suas cadeiras mais distantes (esta foi a variável medida) do que os do grupo ∑.
No Experimento 8, o grupo $ quando inquirido sobre que tipo de atividade lúdica preferiria (numa tabela previamente elaborada e com poucas opções) escolheu aquelas solitárias em comparação com o grupo ∑, que preferiu as mais sociáveis. Segundo os psicólogos é um sinal de auto-suficiência, ou seja, quem tem dinheiro (ou é estimulado por sua idéia) tem mais confiança em si próprio, isto foi confirmado pelo experimento 9, onde os participantes do grupo $ escolheram trabalhar mais sozinhos do que os do grupo ∑.
Concluindo, os 9 experimentos mostraram que o dinheiro altera a motivação das pessoas para melhor, causando-lhes um estado de auto-suficiência e modifica o comportamento social, agora para pior, pois as tornam mais independentes e menos sociáveis, ou seja, mais individualistas. Numa resenha do livro Freakonomics (de Levitt & Dubner) que fiz para a Revista Bula em novembro do ano passado, citei um trecho que traz as conclusões de um vendedor de doces para empresas e escritórios depois de 20 anos de comércio: “dentro de uma mesma empresa os departamentos são mais honestos que as diretorias”.
Os autores do livro especularam se seria pelo fato que quem está na diretoria chegou lá por ser menos honesto de quem está abaixo, mas agora com este artigo da Science provavelmente teriam uma resposta mais precisa: dinheiro traz auto-suficiência, individualismo e, por conseguinte, mais vontade de ganhar (ou menos de perder, no caso, de pagar). Ainda, “escritórios onde o clima de trabalho é tranqüilo e o chefe é carismático são mais honestos que os competitivos”. Precisa explicar? Os experimentos 4 e 5 respondem esta.

Outra menção feita em Freakonomics e que, inclusive aparece no artigo de apresentação do assunto no mesmo número da Science, (“Money is Material”) é o fato que quando algumas escolas começaram a cobrar multa dos pais que se atrasavam pra pegar os filhos depois das aulas, os pais passaram a se atrasar mais ainda. Afinal, eles podiam “pagar o pecado” da própria consciência pesada pelo atraso. Isto também funciona para quem compra diploma em suaves prestações mensais, em instituições onde nem é preciso estudar. Basta o “sacrifico de ter que trabalhar para pagar a faculdade”.
Estes experimentos manipulativos (artigo da Science) e mensurativos (nos casos mostrados em Freakonomics) são formas científicas de se estudar a influência do dinheiro em nossas vidas. Já existe até a “neuroeconomia” que testa como o dinheiro afeta os estímulos de nosso cérebro e os primeiros resultados, demonstrados estatisticamente por uma análise multivariada (PCA_componentes principais), mostraram que sucesso financeiro está do lado oposto às preocupações comunitárias! Santo Cristo.
Como ficam os pedagogos sempre apregoando que a educação deve ensinar o cidadão a ter “consciência social”? Agora, basta pagar mal o sujeito pra ele passar a se preocupar mais com a sociedade. E o professor não pode reclamar de salário, afinal, segundo os resultados, se ele próprio ganhar bem passará a ser mais individualista. Por favor, não contem esta pro meu patrão!! Uma pena que Vohs e colaboradores, não mediram os batimentos cardíacos ou outra variável similar em suas cobaias. É provável que chegassem à conclusão que dinheiro faz mal pra saúde.

Como cantava o Dire Straits “money for nothing” (dinheiro pra nada) e ainda teríamos uma desculpa científica ótima para pedir um desconto em nossa próxima consulta médica. Bem, isto já pode ser feito para o psiquiatra, afinal se dinheiro faz mal pra relações sociais, por que não faria mal também ao seu psiquiatra? Freud, dizia que “poder”, por ser desejo infantil, influencia mais a humanidade que dinheiro. Talvez tivesse razão, mas apenas naquela época. Até nisto o mundo tem ficado mais chato.
Referências:
Burgoyone, C.B & Lea, S.E.G. Money is material. Science, 314: 1091-1092.










outubro 23rd, 2009 at 15:21
Grande Ronaldo, belo texto. Mas ganhar dinheiro é fundamental! Como dizia o Cazuza, Sou rico mas sou artista, háháhá. Abs.
outubro 26th, 2009 at 20:32
E minha achava que eu era gentil e generoso, quase um altruísta.
novembro 11th, 2009 at 13:54
Salve Ronaldinho, resultados muito interessantes, fiquei com uma dúvida, e se os experimentos tivessem usado as pessoas como blocos, ou seja, se a mesma pessoa fosse colocada no grupo $ ou Sigma aleatoriamente, e depois no grupo oposto, será que seu comporamento mudaria?
novembro 26th, 2009 at 9:59
Com certeza a UEG sentirá tamanha perda….