A Ciência é um processo de aprendizado sobre a natureza em que diferentes idéias sobre como o mundo trabalha são medidas contra a observação. Desta forma, diferente do senso comum, a ciência necessita testar suas idéias, sintetizadas em hipóteses ou modelos, através do confronto com a realidade. Foi assim com Galileu que, observando os movimentos dos astros, provou (em sentido literal) que a Terra girava em torno do Sol, apesar disto parecer tão ilógico. Sem incorrer em grande erro podemos dizer que a ciência, tal qual a conhecemos hoje, nasceu com Galileu.
Agora, imagine um homem que, em plena Inquisição, sustentava que a Lua não era uma esfera perfeita, que a Via Láctea era composta de inúmeras e incontáveis estrelas, além é claro de nosso planeta ser apenas mais um entre outros, e tudo isto usando um telescópio (que, para seus pares, “distorcia a realidade do olho nu”!). Não bastassem esses pioneirismos, ao invés de escrever uma de suas principais obras, o Diálogo sobre os dois Máximos Sistemas de Mundo em latim (o “inglês” da época) publicou mesmo em italiano (idioma oficial de apenas um país). Mas a clara intenção de Galileu neste seu livro de 1632 era divulgar a ciência, ou melhor, ensinar o método científico matemático-experimental, que ele havia delineado em oposição ao respeito irrestrito que seus pares davam as chamadas “autoridades” (sistema aristotélico-ptolomaico).
O leitor me perdoe a digressão, mas é importante notar que o nascimento da ciência vem junto com sua própria divulgação, que entre os cientistas nacionais é uma tarefa praticamente marginalizada. Ludovico Geymonat, autor de uma das biografias de Galileu (Editora Nova Fronteira) destaca este caráter da obra galileana, em especial dos Diálogos de 1632: “Divulgar a ciência não é baixar o seu nível poluindo-lhe o rigor racional, mas difundi-la reduzindo suas razões a uma clareza inteligível para muitos, lá onde forem por demais difíceis”. Anos depois de Galileu destronar nosso planeta do centro do universo, outra idéia de como o mundo funciona iria transformar a maneira de pensar dos terráqueos.
Em 1859 Charles Darwin publicou sua teoria da seleção natural como princípio da evolução no livro A Origem das Espécies. É irônico que um dos motivos da demora de Darwin em publicar suas idéias era justamente… torná-la pública, já que ia contra os dogmas cristãos vigentes (hoje em dia a Igreja aceita a seleção natural e a evolução das espécies) e então afetaria a sensibilidade de seus mais queridos contemporâneos. Particularmente, e apesar de me esforçar para isso, não consigo compreender a recusa de Darwin em defender suas idéias perante as platéias. Os motivos podem ser vários: problemas de saúde, preguiça, modéstia excessiva, esnobismo ou tédio tipicamente inglês ou simplesmente falta de tempo (Esta última é a grande justificativa pela qual não fazemos divulgação de nossos trabalhos.) ou ainda todas estas razões combinadas.
Mas afinal, por que Darwin iria se dar a este trabalho se havia um craque neste ofício? Thomas Huxley, depois chamado de “buldogue” de Darwin (bons tempos aqueles nos quais os buldogues eram os cães m
ais ferozes), desde 1855 ministrava palestras noturnas para a “plebe ignara” inglesa. Os assuntos discorridos eram, por exemplo, as glaciações e suas formas de estudo e análise, os fósseis e os misteriosos ambientes da era dos dinossauros. Segundo o Prof. Fernando Fernandez no livro O poema Imperfeito (Editora UFPR), os 600 ingressos para as palestras de Huxley eram disputados a tapas com cambistas e os auditórios ficavam sempre lotados. Depois de ler a Origem das Espécies foi fácil para o já experiente Huxley tratar mais um grande assunto, ou melhor, “O” assunto, para suas palestras de educação científica.
E assim nobre leitor, peço licença pra resumir meu próprio texto: o nascimento da Ciência, com Galileu, vem acompanhado de sua divulgação. O parto da Biologia Moderna, com a aceitação da seleção natural, seria muito mais difícil sem a educação científica perpetrada pelo grande Huxley. Desta forma, ambas atividades são partes fundamentais do trabalho dos cientistas. Mas o que elas realmente significam?
Conceitos
A Educação Científica utiliza o delineamento experimental e a história de pesquisadores para ensinar os fenômenos e processos que regem a dinâmica de vida dos organismos e a influência da intervenção humana sobre ela. Além disso, tem o papel de mostrar o prazer de conhecer as ciências e despertar vocações nos jovens, enquanto educa o cidadão para uma atitude científica, isto é, para a curiosidade, a observação honesta e a lógica acurada.
A Divulgação Científica pode ser entendida como toda atividade de descrição inteligível e de difusão dos conhecimentos do pensamento científico, que ocorre fora do ensino oficial com o objetivo de esclarecer ao público, enquanto tenta sensibilizar a sociedade para a importância das instituições de pesquisa e a valorização dos pesquisadores.
Pouca gente sabe, mas em 1813 (3 anos após a criação da Imprensa Régia) surgia O Patriota a primeira publicação nacional com cunho científico e em todo o século XIX houve ao menos 300 periódicos relacionados à ciência, como mostra o livro Ciência e Público: caminhos da divulgação científica no Brasil (Editora UFRJ), organizado pela Profa. Luisa Massarani e colaboradores. Vale ressaltar que quase na mesma época em que Huxley fazia sucesso em Londres com suas palestras, foram criadas em 1873 “As Conferências Populares da Glória” com muito sucesso entre a elite carioca durante pelo menos 20 anos.
E a Limnologia?
Nove entre dez notícias sobre o avanço da ciência, seus métodos e descobertas, são sobre saúde humana. Mas, os limnológos e ecólogos também têm um objeto de estudo de enorme interesse do público e mais do que isto, das crianças do ensino formal.
Este fato facilita o trabalho de escrever e instruir, mas tomo a liberdade para tecer algumas considerações com bases em minha pequena experiência nesta atividade:
i) divulgar é mais esclarecer do que discorrer sobre pormenores;
ii) catastrofismos como, por exemplo, “a água do planeta está acabando” devem ser evitados, pois ou o público não acredita, ou fica prostrado perante um problema hercúleo que não poderá resolver;
iii) assuntos locais sobre recursos hídricos chamam mais atenção que os globais, além de potencialmente terem maior chance de mudar a atitude de crianças e adultos;
iv) analogias e metáforas, desde que na medida certa, são sempre muito bem vindas na explicação dos pontos mais nebulosos;
v) comparações com outros lugares (ambientes, países, cidades) auxiliam na contextualização do que está sendo tratado;
vi) uma notícia recente, ou ainda algum comentário de personalidade pública, podem servir como “ganchos” para a discussão ou esclarecimentos mais aprofundados de um determinado tema, com a considerável vantagem de agradar os editores dos jornais e revistas e entreter ainda mais as crianças;
vii) atividades de educação científica têm pouco significado se pontuais (um só dia);
viii) é fundamental a criança fazer a pesquisa, desenvolvendo a metodologia adequada e não apenas analisar os resultados.
Mas, como e onde publicar?
Hoje no Brasil é possível encontrar em qualquer banca de jornais várias revistas de divulgação: Scientific American Brasil, a National Geographic, a Ciência Hoje (que finalmente regularizou sua distribuição), e a “Pesquisa Fapesp”. Numa linha voltada para o público juvenil, há a Superinteressante (400 mil exemplares por mês), a Galileu e a mais recente Ler Ciência. Além destas revistas há outro meio muito interessante, mas não muito valorizado entre os cientistas que são os jornais locais.
Eu recomendaria uma conversa com o editor, tentando convencê-lo da importância do artigo e do tema “ciência”. Geralmente estes veículos de comunicação estão mesmo ávidos por artigos de “doutores” que lhes confiram uma “aura” mais intelectualizada. Uma informação que não deve ser subestimada é o fato que o Brasil tem 70 mil pesquisadores e forma em torno de 8 mil doutores por ano, além de contar com 245 mil professores universitários. E onde mais esta gente pode adquirir cultura científica geral?
As instituições também podem auxiliar na divulgação, como bem já mostrou o Prof. Reinaldo Bozelli no capítulo “Divulgação Científica: limnologia para t
odas e para todos?” no recente livro Lições de Limnologia (organizado por F. Roland e colaboradores, editora Rima). Mas no geral, as instituições são lentas pra estas iniciativas (já repararam como boa parte das assessorias de comunicação das universidades serve mais como departamentos de marketing, quando não como meros apêndices das secretarias das administrações superiores) e tudo acaba dependendo mesmo do cientista que individualmente deve fazer seu trabalho completo.
Assim, esta é apenas mais uma de nossas atividades, como nos ensinaram Galileu e Huxley e apesar dos métodos e estratégias para divulgar e educar sobre ciência serem novos ainda para pesquisadores brasileiros, talvez esse seja um bom momento para reproduzirmos o exemplo pioneiro por eles deixado e nos tornarmos mestres de nosso próprio futuro.
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1 – Este artigo foi publicado originalmente no Boletim da Sociedade Brasileira de Limnologia SBL, 2006, 35 (2): 32-34. Este número do boletim é um especial sobre macro-invertebrados aquáticos e pode ser visualizado em arquivo *.pdf no aqui.
2 – Outras formas de divulgação são os blogs (como este), dos quais falarei em outra oportunidade.


