Dona Capes, obrigado!!

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É comum ouvirmos pesquisadores e professores universitários dizerem “Ah, a Capes é injusta com isto…” ou “O CNPq não sabe o que faz…” ou ainda, o “O MEC tem uma política equivocada…”. Bem, vivemos num pais democrático e claro, todos têm direito à opiniões. Mas há algo injusto quando a crítica é feita, por professores e cientistas, a estes três órgãos diretamente ligados ao ensino superior e à pesquisa. Afinal, quem é a CAPES? Quem é o CNPq? Quem é o MEC?

Ora, a maioria esmagadora das decisões destes órgãos é realizada em comitês, alguns até numerosos, formados por pesquisadores e professores universitários. Então, quando a CAPES ou o CNPq decidem algo, há uma regra básica que todo professor-pesquisador tem que se lembrar: somos “nós mesmos” (ou nossos colegas de departamento ou de outras instituições) que tomamos (ou tomam) as decisões destes órgãos, com base em parâmetros e regulamentos que são discutidos entre os pares. Essas deliberações e pareceres de propostas podem sim conter erros (humanos, demasiado humanos…), algumas injustiças (“cabe recurso” no jargão de burocratas) e serem absolutamente passíveis de críticas (incluindo muitas vezes algumas iradas, outras irônicas, etc…). Mas foi um de nós, quem as fez.

Há também o outro lado da moeda, por exemplo, recentemente o Prof. Marcelo Hermes da UnB, que mantém o Blog Ciência Brasil (e ajudou a derrubar o reitor das lixeiras caras, lembram-se disto?), encontrou-se com o presidente da CAPES num congresso (veja post), fez alguma objeção a uma decisão deste órgão e foi tratado, segundo o próprio Marcelo, com uma falta de educação ímpar, pois aparentemente, o atual presidente da CAPES, acha que ela não pode receber críticas. O que é isso, companheiro presidente? Por acaso existe outra maneira de aprimorar o processo de ordenamento das atividades de pesquisa, que não ouvir as críticas de um pesquisador 1A do CNPq, como o Marcelo? (Tudo bem que ele votaria no Obama se fosse americano e que defende a paridade na eleição pra reitor, mas ninguém é perfeito, não é mesmo?).

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Mas você, caro leitor, deve estar se perguntando porque estou nesta lenga-lenga… É que recentemente coordenei o envio de uma proposta de mestrado ao Comitê de Ecologia e Meio Ambiente da CAPES e ela foi reprovada. Claro que a gente fica chateado (dá um trabalho danado preencher o “Data Capes” que é incompatível com o Lattes…), mas com um parecer tão educado e didaticamente escrito, como o que recebemos, não há o que reclamar. Vejamos as considerações do gentleman (ou “gentle-woman”) que analisou nossa proposta.

Sobre a UEG:

Há infra-estrutura mínima como biblioteca (embora com pequeno número de computadores disponíveis)…”

Sobre o corpo docente e perspectivas de melhora:

“O curso tem o número mínimo de docentes exigido pela área (10), mas 3 deles não têm dedicação exclusiva… De acordo com a proposta, a UEG tem aproximadamente 1200 professores mas somente 80 têm doutorado. Isso indica que há pouca possibilidade de que o quadro docente permanente venha a ser complementado dentro da própria instituição. Nesse sentido, é primordial que a instituição invista na qualificação do corpo docente e na contratação de doutores para apoiar uma proposta nova de Mestrado no futuro… o quadro apresentado suscita sérias dúvidas na consolidação do programa proposto”.

Trata-se de um grupo jovem com produção concentrada majoritariamente em dois docentes. A produção científica qualificada está no patamar mínimo da área (0,2 trabalho A por docente / ano) e a produção total (incluindo capítulos de livro e livros) é de 1,1 trabalho por docente / ano (inferior ao esperado pela área de 1,4). Poucos têm experiência de orientação em nível de Mestrado sendo ainda que quatro dos dez permanentes tampouco têm muita experiência em orientação de Iniciação Científica”.

Resumindo:

“Diante da potencial importância regional de uma proposta deste tipo, seria importante maior investimento no aumento do número de docentes permanentes com dedicação exclusiva, assim como melhorar a produção científica do grupo e tornar sua distribuição mais eqüitativa, para que no futuro novas propostas neste sentido possam ter maiores chances de implementação.

Conclusão:

“O CTC confirma o parecer da Comissão de Área com a recomendação de que seja efetuada uma visita pedagógica ao grupo proponente”.

Viu pessoal, a Capes fez, em minha opinião, um julgamento isento e justo. Nós só temos a agradecer.

Quem tem culpa em nossa reprovação? Nós mesmos, isto é, os doutores com baixa produção científica (outros professores que não entraram na proposta estavam piores ainda…) e a UEG com insuficientes 5% de doutores no quadro docente e uma série de deficiências que decididamente não colaboram para nossa produção.

Mas, voltando à questão colocada no início do artigo: Quem é a UEG? Esses mesmos dez professores e, claro, os outros 1190 professores, os funcionários e os alunos…

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De qualquer forma, o parecer da comissão, que teve boa vontade com nossa proposta, é inequívoco: tivéssemos uma produção mínima, mesmo com as condições ainda deficientes, a Capes liberaria o funcionamento do curso.

Então senhores doutores da UEG, a culpa é nossa mesma. Nada de apontar o dedo para os “outros”, isto é, para a UEG que embora tenha muitos e graves problemas, não os arrumará nos próximos anos, simplesmente porque não há interesse político, (eu até diria que nem interesse acadêmico…) e, pelo que temos notícias, muito menos recursos econômicos no Estado de Goiás. Isto é um fato. A vida vai passar e se não fizermos o que realmente importa, isto é, publicar, pereceremos na vala comum dos “reclamões”. A caravana passa e os cães ladram…

Lembrando ainda, que os critérios da Capes só tendem a ficar mais exigentes e, vocês sabem, que não poderia ser de outra forma.

PS.: - Dona Capes, a senhora é muito bem-vinda para uma visita, mas nós já identificamos nossos problemas e um deles a senhora pode nos ajudar a solucionar liberando o seu Portal de Periódicos Científicos para a UEG (agora é uma solicitação pública). A despeito dos problemas, a UEG tem dois cursos de mestrado funcionando (áreas de Química e Engenharia Agrícola) e, ao menos cinco dezenas de professores precisando dos artigos que só o portal possui, para dar uma boa formação de iniciação científica aos graduandos, para que estes possam ingressar em bons cursos de mestrados recomendados pela senhora. Sai caro? Lembre-se, a ignorância pode ser ainda mais custosa.

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