Em 2009 o mundo será invadido por reportagens, documentários, lançamentos editoriais, vídeos e toda a sorte de mídias versando sobre um assunto: Charles Darwin. A avalanche de informação terá início provavelmente em fevereiro, mais precisamente no dia 12 quando se comemora 200 anos do nascimento do pai da seleção natural. Os festejos não se encerrarão tão cedo visto que em 24 de novembro de 2009, outro aniversário ilustre acontece: o livro A Origem das Espécies por Meio da Seleção Natural, best-seller em seu lançamento, faz 150 anos.
Se você quer se “ilustrar” sobre o assunto para não ficar boiando nas conversas, há muitos, mas muitos livros de e sobre Darwin. Aliás, mais de uma vez já foi dito que a montanha de publicação sobre Darwin é colossal por si só (no sítio da Livraria Cultura a palavra “Darwin” nos itens de busca encontra 384 títulos). Para o leitor ter uma noção da quantidade de informação gerada, um dos biógrafos de Darwin, Frank J. Sulloway, passou 14 anos investigando o que o jovem pesquisador de 23 anos fez no arquipélago de Galápagos durante a sua estadia de 5 semanas! Certamente o velho sábio inglês se atordoaria com tantas notícias sobre ele mesmo. Lembremos que Einstein, outro cientista famoso, foi imortalizado numa foto mostrando a língua para um papparazzi. Ele não era louco, estava apenas de saco cheio das perseguições.
Pouca gente, incluindo os biólogos, lê os textos escritos por Darwin. Como diria o evolucionista e professor da UFG, Alexandre Diniz-Filho, aqui mesmo neste espaço duas semanas atrás: “… a admiração por Darwin é de fato pelo seu pioneirismo e por curiosidade em termos de história da ciência. Mas no fundo a gente não fica mais lendo Darwin como fonte de pesquisa original, acho que isto é diferente dos sociólogos que lêem Marx ou Weber, por exemplo…”.
Assim, Darwin e seus escritos são objetos e interesse da História, o que na maioria das vezes, é mais instigante que a Biologia em si. De qualquer forma, para mim A Origem das Espécies é tão fascinante quanto Dom Quixote. Recomendo com fervor.
A melhor biografia de Darwin é a de A. Desmond e J. Moore Darwin: A Vida de um Evolucionista Atormentado (Geração Editoral, 740p.) que mostra todos os passos do cientista e todas as dúvidas do homem sobre a publicação da teoria que, ele já sabia, cairia como um torpedo na época de certezas vitorianas em que vivia.
De qualquer forma o livro é considerado grande para os padrões nacionais e se você então quiser algo mais conciso, o ideal seria o pequeno, objetivo e bem ilustrado Darwin e a Ciência da Evolução (Editora Objetiva) de Patrick Tort. O livro tem mais de uma centena de ilustrações antigas, com desenhos científicos de pássaros, bois, peixes, além de boas fotos que ilustram os vários estudos empreendidos para explicar as diversas teorias apregoadas por Darwin ao longo de sua vida.
O autor ainda destaca algumas curiosidades, como a que Darwin teve um tio homônimo que aos 20 anos de idade morreu, pois, foi infectado num acidente com o bisturi na aula de anatomia. Charles foi então batizado em homenagem a ele, o que criou em seu avô Erasmus a expectativa de consolidar com o neto os sonhos que a morte do filho não lhe permitiu realizar. Mas o jovem neto foi um desapontamento em especial para seu pai e a família já se conformava que ele não seria mais do que um clérigo de interior.
Então, fez-se a luz… e veio a oportunidade de viajar no Beagle, surgida por que o capitão FitzRoy precisava de uma companhia culta que soubesse conversar assuntos “superiores”. FitzRoy tinha medo que lhe acontecesse como a um tio seu, também capitão, que durante uma longa viagem caiu em profunda depressão suicidando-se ainda em mar. Vale ressaltar, desta forma, que Darwin só subiu à bordo, por que era um gentleman e apenas após a chegada do Beagle ao Brasil, quando o naturalista oficial do navio pediu demissão, ele assumiu a posição e passou a usar seus conhecimentos adquiridos na Universidade. O resto é história.
Outro livro muito interessante (e curto) é o de Janet Browne, Darwin’s Origin of Species. A biography (Atlantic Books, 174p., 2006) que está disponível apenas em inglês (uma tradução para o título seria “Uma Biografia para Origem das Espécies de Darwin”).
Apesar de concentrar-se na obra propriamente dita e suas diversas edições, incluindo as correções feitas por Darwin, este livro traz um primoroso resumo com o melhor das biografias do mestre inglês, além de dois bons capítulos finais.
O penúltimo é intitulado “Controvérsia” e explica os problemas com Wallace, que divide a originalidade da idéia da seleção natural, mas, achava que o homem ainda sim seria uma criação especial.
Browne ainda destaca as batalhas dos quatro cavaleiros do apocalipse darwiniano, isto é, dos principais popularizadores e defensores da seleção natural, na época vitoriana: Charles Lyell, o geólogo que inspirara Darwin com sua idéia original que a formações na Terra se formaram lenta e gradualmente; Joseph Hooker, que coordenava os Jardins Botânicos da Rainha e mostrou que a teoria da seleção natural funcionava no campo; Asa Gray, principal aliado de Darwin nos EUA; e por último, o mais conhecido de todos, Sir. Thomas H. Huxley que escreveu livros e textos explicando a seleção natural e participou de debates públicos e acalorados, vindo a ser chamado de “buldogue de Darwin”.
Outro capítulo digno de nota nesta obra de Browne é “Legado”, em que ela explica toda a infelicidade da eugenia e sua associação às idéias darwinianas, deflagrada principalmente por Galton, um primo que Darwin não queria ver nem pintado de ouro e muito menos trabalhar junto. Mais tarde até um dos filhos de Darwin, Leonard, viria a ser presidente de uma tal Sociedade Eugênica criada em Londres em 1907. O famoso Bernard Shaw também caiu nesta bobagem. Eles tinham certeza que as pessoas mais fracas nas sociedades humanas precisavam ser esterilizadas. Acabou no holocausto judeu.
Ainda, se você quer saber mais sobre evolução propriamente dita, sem deixar de lado seu criador, uma dica para não errar é O Bico do Tentilhão: Uma Historia da Evolução no Nosso Tempo de Jonathan Weiner (Editora Rocco, 333p., 1995) que conta a história do casal Grant que passou 30 anos nas Galápagos estudando a evolução destes passarinhos famosos que são semelhantes aos pardais.
Darwin, Darwin, Darwin… no fim da vida, cuidava de uma longa barba, que para a sua época era um símbolo de autoridade intelectual e sabedoria, mas que foi um prato cheio para os chargistas de então, que o transformaram muitas vezes num macaco.
Quando tenho paciência de ler Richard Dawkins, o darwinista mais roxo do planeta com seus ataques à religião, fico a imaginá-lo logo depois da morte, chegando ao paraíso e mirando a face daquele Deus barbudo de quem ele faz tanta troça. Constrangido à maneira inglesa, o ateu e professor de Harvard certamente dirá: “Charles Darwin! Você por aqui? Vamos encontrar o Stephen J. Gould e dizer que ele estava errado…”.








março 12th, 2009 at 18:39
[red][b]
eu achei o cientista muito
bom