E onde fica a História sem Adão?

No artigo anterior Ademir Luiz, dissertou sobre os problemas de um professor de História ao ensinar as crianças a evolução e os ancestrais da espécie humana. Segundo ele, alunos dizem não acreditar no processo de seleção natural e então estudam por obrigação, “já que aquilo não está nas Escrituras”.

Isto sinceramente me soa não como crendice sincera do aluno adolescente, mas sim como uma maneira de resistir ao estudo de uma matéria um pouco mais complicada do que simplesmente: “(….) Então Iahweh Deus modelou o homem com a argila do solo, insuflou suas narinas com um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivente” (Gênesis, cap.2 v.7).

No lugar deste parágrafo, o aluno tem que entender as várias linhagens de Australopitecus que viveram concomitantemente na África, depois Ásia, com os descendentes chegando à América via Estreito de Behring. Na longa marcha para a Patagônia, a espécie humana dizimou todos os grandes animais do Novo Continente, no episódio conhecido como “overkill”, isto é, super-matança (depois dizem que antes do advento da civilização o homem vivia em “harmonia” com a natureza…). Concluindo, o aluno poderia dizer com Ockham: entre duas hipóteses para explicar um fenômeno eu escolho a mais fácil e que não requer esforço algum _ apenas aceitação simples. Elementar, meu caro professor Ademir…

Sim, o estudo da evolução pelo processo de seleção natural nada tem de trivial, e duvido que professores de História, talvez até de Biologia, consigam explicá-los corretamente, já que muitos conceitos são necessários: a aceitação de evidências descontínuas (o registro fóssil), o entendimento do tempo profundo (os fósseis mais antigos de seres vivos têm 3,8 bilhões de anos) que permite mudanças graduais nas espécies que apenas são compreendidas com o auxilio de outras área do conhecimento como a genética molecular e a anatomia comparativa e a ancestralidade comum com outras espécies.

Também não é tão simples a compreensão que os indivíduos das espécies variam entre si e que na falta de recursos ecológicos, os sobreviventes tenderão a ser aqueles que são fortuitamente mais aptos ao ambiente (e a época) que o cerca. Mas não acaba aí, não: os descendentes destes provavelmente se parecerão com seus pais bem-sucedidos, através da hereditariedade (outro conceito que precisa ser explicado) e o acúmulo das variações favoráveis ao longo do tempo produzirá uma alteração evolutiva e só aí uma nova espécie. Ufa!

Depois de tudo isto, é preciso explicar também que evolução e progresso não são sinônimos e posso imaginar a dificuldade, principalmente de um professor de História sempre as voltas com o progresso das nações, em encarar tal desafio. Exemplificando: um crocodilo é tão evoluído quanto um chimpanzé, pois ambos foram igualmente bem sucedidos em seus respectivos ambientes.

Eu gostaria de dizer ao Ademir Luiz, que talvez, o aluno não seja tão preguiçoso assim e possa querer escolher a resposta mais esteticamente bela. Por exemplo, o quinto dia da criação do Gênesis (cap. 1, v. 20 e 21): “Deus disse: ‘Fervilhem as águas um fervilhar de seres vivos e que as aves voem acima da terra, sob o firmamento do céu’, e assim se fez. Deus criou as grandes serpentes do mar e todos os seres vivos que rastejam e que fervilham nas águas segundo sua espécie, e as aves aladas segundo sua espécie, e Deus viu que isso era bom”. Convenhamos, isto não é lindo? (tô falando sério). De quebra, afirma a fixidez das espécies: “aves aladas segundo sua espécie…”.

Variações deste texto existem em todas as religiões e crenças do mundo. É claro, que não dá pra levar ao pé da letra, mas seu apelo emocional na criança e estético nos adultos, ainda resiste em nós, as bestas humanas. E isto também faz parte da nossa história. Como é que é mesmo? “Há mais coisas entre o céu e a terra que nossa vã filosofia”.

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4 Respostas

  1. Osame Kinouchi Says:

    Igor, lá no SEMCIÊNCIA, Charles Morphy e eu estamos discutindo o recente caso da demissão do clerigo anglicano Reiss, condenada até por um editorial da Nature e por Dawkins com sendo de uma tolerância científica inaceitável.
    Reiss defende que em vez de passar com um trator, o professor questione o aluno criacionista sobre como suas idéias seriam testáveis, etc. ao mesmo tempo, A Nature reconhece que os professores de biologia estão despreparados para isso, como vc bem notou neste post.

    Se quiser dar uma ohada na nossa discussão sobre se existe um instinto Chomskyano para a religião, veja em:http://comciencias.blogspot.com/2008/09/dawkins-e-tolerncia.html

  2. Isis Says:

    Tenho certeza que os alunos têm preguiça de estudar. Também, se sentem desinteressados… O maior desafio do professor é, justamente, tentar colocar a importância de aprender essa matéria…

    Parabéns pelo novo design!

  3. Ronaldo Angelini Says:

    Oi Isis, o professor bem que podia mostrar como é gostoso aprender este assunto. As vezes falta vontade…O Igor é o único responsável pelo design (tirando a wordpress, claro). Ficou realmente melhor. Obrigado

  4. Osame Kinouchi Says:

    Ops, eu queria dizer “intolerancia cientifica”

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