Apresentando, nosso grande amigo Ademir Luiz: Do desafio de ensinar História diante do fundamentalismo religioso.
Todo professor de História vive um dilema anual: como apresentar a matéria sobre o surgimento do homem sem ofender a gregos ou a troianos?
A escola é, ou deveria ser, uma instituição laica por definição. Muito mais do que uma difusora de ideologias a escola tem o dever e a vocação de ser uma difusora do saber, isenta de qualquer tipo de preconceito. Um livro didático nada mais é do que o substrato do conhecimento humano acumulado em anos, décadas, ou mesmo séculos, de estudos teóricos e empíricos realizados por incontáveis cientistas e homens de letras; alguns gênios, outros nem tanto, mas todos humanos, muito humanos, lidando com problemas tipicamente humanos. O que se publica para fins didáticos é tão somente o resultado do provado e comprovado destes esforços. Senão vejamos.
Em um livro de Química não existe lugar para o éter olímpico. Em um livro de Física o que se vê é matemática aplicada, puramente lógica, nunca teorias mirabolantes seguidas de explicações herméticas. Os livros de Biologia fazem questão de trazer fotografias ampliadas de seres microscópicos para que não se tenha dúvidas de que eles realmente existem. Os livros de Geografia sabiamente fazem o mesmo com os planetas e as galáxias, provando que de fato há muito mais espaço aí fora do que Horácio poderia imaginar. Tudo isto é liquido e certo, óbvio até.
Ninguém se atreve a duvidar das informações contidas nestes receptáculos de conhecimento que são estes livros didáticos. Seus digníssimos autores são pessoas acima de qualquer suspeita diante do aluno, seu discípulo, usuário de cornucópia de verdades indiscutíveis que são suas obras; grandes e volumosas obras na maioria das vezes. Não por acaso, na aparência, guardam semelhanças com outros livros igualmente sagrados de natureza, digamos, mais transcendentes.
Não obstante isto, os autores de livros didáticos de História são quase sempre tachados pelos alunos de charlatões, hereges e o pior de tudo: chatos de galocha. Tudo isto porque, por força do ofício, tocam nas feridas abertas do que o ser humano possui de mais característico e ao mesmo tempo mais incerto: sua fé. Diversas foram as vezes em que ouvi um aluno resmungar frente a um texto ou prova de História: “Não acredito em nada disto. Estudo porque tenho que estudar, mas não esta escrito nas Escrituras.” (sic)
Os alvos da negação são os mais variados. Exemplos não faltam. Na Idade Antiga poucos aceitam que o paganismo hedonista das sociedades clássicas não se tratava de pura sem-vergonhice e sim de hábitos culturais de povos que não conheciam a idéia oriental de pecado; mero “sentimento de escravos”, como, segundo Nietzsche, diria um grego. Na Idade Média parece haver uma enorme resistência mental em relacionar a Igreja que perpetrou as monstruosidades da Inquisição e a chacina das Cruzadas, com a “justíssima” instituição que se conhece hoje. Na Idade Moderna muitos evitam sequer em pensar nas origens muito mais econômicas do que propriamente espirituais da Reforma Protestante, achando impossível que o novo patriarca Lutero pudesse prestar-se a este papel. Na Idade Contemporânea recebem o golpe final quando se deparam com o mais polêmico, escorregadio, e ao mesmo tempo inevitável, de todos os temas: a origem do homem posta a nu pela ciência materialista do século XIX. [Vide: Milo Manara!!! ; )]
Neste ponto o historiador torna-se definitivamente um mentiroso. Como pode ter o desplante de afirmar que o homem veio de um macaco, que por sua vez veio de um mamífero minúsculo com jeito de roedor, que veio de um peixe, que veio de uma célula original, que ninguém sabe ao certo de onde veio?! Pouco adianta explicar que nós não “viemos” e sim evoluímos, e que não eram macacos, mas antropóides superiores. A experiência mostra que neste instante a maior parte dos alunos vai estar se perguntando “e onde fica Adão nesta história?!”
Eles estão certos. Esta questão deve mesmo ser formulada. E onde fica Adão nesta história?
Em minha opinião, Adão deve ficar em seu honroso lugar de direito: a tradição. As convicções religiosas pessoais precisam ser respeitadas. Porém, jamais, em hipótese alguma, devem tomar o lugar da ciência, responder as questões que cabem a ciência responder. Infelizmente, não é isto o que acontece. A verdade é que o mito da criação divina do homem e do universo é um dos últimos grandes tabus a sobreviver no imaginário popular de nossa época. Há tempos que a Terra deixou de ser quadrada.
Ninguém mais acredita em concepção via cegonha ou tem dúvidas de que o Papai Noel é uma invenção da Coca-Cola. Da mesma forma que ninguém, por mais bronco que seja, por mais que se alardeie o contrário, duvida de fato que Armstrong pisou na Lua. Até a suprema tolice do nazismo é proibida por lei em várias partes do mundo. O racionalismo parece imperar na sociedade moderna. Ledo engano. A coisa muda de figura quando as verdades dogmáticas religiosas são colocadas na berlinda. Diante da pergunta “como surgiu o homem?”, é quase certo que nove entre dez pessoas, no Ocidente cristão, incluiriam em sua resposta as palavras barro e costela.
A hegemonia do mito sobre a verdade científica não é por acaso. Conta-se que em 1860, pouco depois da publicação de A Origem das Espécies, de Charles Darwin, a esposa do bispo de Worcester exclamou preocupada: “Barbaridade, descendemos de macacos! Esperemos que não seja verdade, mas se for rezemos para que isto não venha a se tornar amplamente conhecido.” Não é necessário explicar que a preocupação da nobre carola inglesa era com relação à sobrevivência das regras sociais, da moral e dos bons costumes; que certamente estariam ameaçados diante de uma revelação tão “bestial” como aquela. Provavelmente estaria pensando, tomando liberdades com a frase célebre de Dostoievski, “se somos macacos tudo é permitido.”
Felizmente, para a digníssima beata inglesa, o planeta dos homens continuou o mesmo. Não mergulhou no caos símio. As idéias de Darwin, apesar do impacto inicial, não se tornaram muito conhecidas, e aceitas, fora dos círculos acadêmicos. Neste aspecto perderam de longe em popularidade para as contemporâneas idéias de Sigmund Freud, que hoje fazem parte do cotidiano de todos nós. Vide o uso corrente de termos da psicanálise, tais como neurótico, psicótico, histérico etc. Este fenômeno de obscuridade tem um significado profundo. O ser humano pode até admitir, como ensinou Freud, que “nem mesmo em sua própria casa é ele quem dá as ordens, mas que deve contentar-se com as escassas informações do que se passa inconscientemente em sua mente”, mas não aceita de forma alguma perder sua descendência divina. Não admite ser órfão. O resultado é que refuta toda e qualquer tentativa de colocá-lo em seu devido lugar no âmbito da criação. O de um animal fraco, lento, pouco ágil, de parca visão; porém dotado de extrema habilidade manual e criatividade.
Quem paga a conta desta omissão é a ciência de modo geral e a didática histórica em particular. Claro que hoje, passados os tempos negros da Inquisição, ninguém mais é queimado vivo, mas ainda assim muitas vezes o combate às idéias religiosamente rebeldes é explicito. O caso recente do escritor lusitano José Saramago é sintomático. Seu romance O Evangelho Segundo Jesus Cristo, foi proibido pelo Ministério da Cultura de representar Portugal no Prêmio Literário Europeu, em 1992, sob a alegação de que ofendia as convicções religiosas do povo português. Tudo porque Saramago, um ateu convicto e confesso, retratou em seu livro um Jesus de Nazaré muito mais humano do que divino. Ofendido, o escritor resolveu se exilar nas Ilhas Canárias. Não pretendia ser um novo Kazantzakis, autor do infame A Última Tentação de Cristo, que chegou a ser excomungado pela Igreja Ortodoxa Grega. No afã de fazer justiça os clérigos raivosos não perceberam o que Martin Scorcese viu com clareza e explicitou em sua igualmente polêmica adaptação cinematográfica deste romance: que a obra de Kazantzakis, longe de ser ofensiva, é, na verdade, uma profissão de fé.
É comum acusar as igrejas cristãs de intolerância, mas esta prática vem de antes de Cristo.
Lembramo-nos que uma das acusações que pesava sobre Sócrates, no julgamento que acabou resultando em sua condenação a morte, foi a de ser ateu e corromper os jovens atenienses “ensinando-os a não acreditar nos deuses que a cidade acredita”. Nada mais falso, como demonstrou Platão em seu Apologia a Sócrates. O filósofo apenas colocava a tradição em seu devido lugar, submetida ao Logos, à razão. De qualquer forma, mesmo inocente, Sócrates bebeu cicuta, obedecendo à vontade democrática dos cidadãos de Atenas, que votaram pela eliminação de sua presença intelectualmente perigosa.
Se soa estranho este escabroso erro jurídico no seio da festejada democracia grega, espanta ainda mais acontecer algo semelhante em nossos dias na “pátria da liberdade de expressão”. É amplamente conhecido e divulgado no Brasil que em muitos estados norte-americanos o ensino do evolucionismo é simplesmente proibido. Nos anos vinte, um professor de biologia do Tennessee, chamado John Thomas Scopes, chegou a ser levado a julgamento por ensinar a teoria da evolução em uma escola pública. Acabou condenado a pagar uma multa de 100 dólares. Os responsáveis por tal aberração é o chamado grupo Criacionista, formado por cristãos fundamentalistas e que possui diversas vertentes. O atual presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, famoso por sua ignorância, apóia abertamente este movimento. A justificativa para a proibição não poderia ser mais risível. Os fanáticos alegam que as teorias de Darwin afastavam as crianças da “verdade”. O que temos aqui é o mais claro exemplo de inversão de valores: dogma tornou-se sinônimo de verdade. Mas os dogmas, como se sabe, são variáveis de cultura para cultura. Pensemos. Se acontecesse o mesmo na Índia, por exemplo, não se estaria sacrificando o evolucionismo em prol do Fiat Lux e sim do Dia e da Noite de Brahma. Podemos ir ainda mais longe no raciocínio. E se acaso uma criança hindu estivesse estudando em uma destas escolas norte-americanas? Seus pais poderiam protestar pelo fato dos professores do tal estabelecimento de ensino estarem ensinando “mentiras” a seu filho? Em se tratando de Estados Unidos podemos estar diante de uma ação judicial de milhões de dólares.

An anti-evolution book sale in Dayton, Tenn., during the 1925 Scopes trial, in which a high school biology teacher was charged with illegally teaching the theory of evolution.
Em meio a este cenário burlesco, uma coisa é certa. Se existe algo que pode aproximar o homem de algum tipo de verdade este algo é a ciência. Em 1996, o próprio Vaticano, na figura do Papa João Paulo II, admitiu, ainda que timidamente, como aliás era de seu feitio, que a Teoria da Evolução Natural “é algo mais do que uma hipótese” e que “a ciência pode purificar a religião do erro e da superstição”. Nada mais justo, sobretudo quando lembramos que o difamado Darwin, o pivô da polêmica, segundo alguns de seus biógrafos, era cristão fervoroso e chegou a declarar que “não vejo nenhum motivo para que as idéias expostas neste livro choquem as crenças religiosas de quem quer que seja”.
Einstein, seu colega de labuta cientista, poderia consolá-lo pela absolvição tardia dizendo-lhe que “a razão é fraca naturalmente, quando confrontada com sua tarefa infindável. Fraca realmente, se comparada às loucuras e paixões da humanidade, as quais, temos de admitir, quase inteiramente controlam o nosso destino humano, nas grandes e nas pequenas coisas. No entanto, a obra do entendimento sobrevive às gerações barulhentas e obstrutivas e espalha luz e calor através dos séculos.”
De qualquer forma, levando-se em conta que a maior parte da humanidade é incapaz de viver sem cresças no transcendente, como provou a fracassada experiência de ateísmo forçado na Rússia pós-revolução, o bom senso exige que ao menos se separe o mais possível os termos: o templo, seja de qual religião for, é para oração; a escola é para aprender ciência, lógica. No templo água pode até transformar-se em vinho, na escola em hipótese alguma água e óleo devem se misturar.




setembro 30th, 2008 at 9:55
Ronaldo,
Acho que muitas pessoas acreditam que o Homem não chegou na Lua (procure no YouTube!), e na verdade Papai Noel não foi criado pela Coca-Cola (veja na Wikipedia).
Da minha parte, eu acho melhor que as pessoas concluam por si mesmas se Papai Noel ou Papai do Céu existe mesmo, eu acho que não precisamos ficar pregando “Papai Noel está morto!” para crianças intelectuais.
E, cá entre nós, minhas crianças foram criadas acreditando em Papai Noel, curtiram bastante, e depois, como um rito de passagem intelectual, questionaram e chegaram a conclusão que papai noel não existe (na verdade ele existe enquanto mito e arquetipo poderoso, assim como YAVHE). E eu acho que isso apenas desenvolveu o espiriito critico deles, em vez de aceitarem de cima para baixo que um pai “ateu” lhes impusesse que papai noel não existe…