Elefante, manejo pra proteger a memória

Be Happy Elefante

“Um elefante incomoda muita gente, dois elefantes incomodam muito mais…” era assim que começava uma musiqueta que cantávamos, quando crianças, para atormentar os adultos. Depois veio o Jotalhão, o elefante do Maurício de Souza que acabou virando extrato de tomate, com o lema “o mais amado do Brasil”, ou algo similar.

Na África do Sul, e na África de modo geral, os elefantes ainda incomodam muita gente, mas atraem turistas, exigindo cuidados especiais da direção dos Parques Nacionais e dos gerentes das reservas particulares (chamadas de “game farms”). Estas propriedades são um atrativo negócio em que o fazendeiro ao invés de criar animais para abate, os cria para serem vistos por turistas em preservadas paisagens naturais.

O problema com o “way of life” elefantino é que ele é um glutão. Diferente das girafas que ficam com as folhas e espinhos, os indivíduos da espécie Loxodonta africana, preferem a árvore ou o arbusto inteiros na época seca, pois na chuvosa o consumo é exclusivamente de gramíneas. Apesar disso, eles consomem por volta de 165 espécies de plantas, o que o transforma no melhor dispersor de sementes do continente.

elephant Sun Enquanto estava em Cape Town, num programa no canal 3 (em tempo, há apenas 5 canais de TV aberta na África do Sul) houve um debate sobre o impacto dos elefantes na vegetação ciliar de alguns rios ao leste do país. A provisão de água, para eles mesmos e também para outros animais, estaria seriamente ameaçada, já que a derrubada da mata de galeria acarreta o carreamento do solo e conseqüente assoreamento do rio. Não há consenso, sobre o que fazer, entre os especialistas. Uns pedem pra deixar como está, pois alguns morrerão e o ciclo da vida continuará; outros acham que os elefantes devem ser “conduzidos” para outras áreas ou mesmo mortos, já que temem os impactos da população acima da capacidade suporte das áreas, o que acarretaria prejuízos para todas as espécies animais.

Esta história já é relativamente documentada (ver referências abaixo). Por exemplo, num estudo conduzido durante três anos na savana do Kênia, houve uma redução de 16% no número de indivíduos de uma espécie de árvore do gênero Acacia sp. (o preferido dos grandes herbívoros). Os elefantes foram responsáveis por 40% da mortalidade, seguidos pelo rinoceronte negro (33%) e por último um fator físico, a seca (27%).

Addo ElephantOs números são realmente grandes: o consumo de vegetação diário de um elefante é de 150 kg de vegetação e mais 150 litros de água. Aquela piada de que se “se elefante comesse terra, não precisaríamos de fábricas de tijolo”, quase que se ‘concretiza’, pois às vezes os elefantes comem mesmo argila, mas apenas pra suprir suas necessidades de alguns nutrientes como o sódio. Eu conferi. As fezes são quebradiças (produção média de 100 kg/dia/animal). Não dá pra construir nada com elas, exceto claro para o besouro do esterco (no Brasil conhecido como rola-bosta).

O nome científico deste inseto, Circellium bacchus, é uma homenagem ao deus grego Baco, já que o besouro quando rola a bola de esterco, caminha como uma pessoa que se excedeu ao beber vinho… O besouro se alimenta do esterco e também deposita seus ovos nele. No Parque Nacional Addo Elefante, há placas pedindo pra você não atropelar estes insetos, bem como não passar por cima dos montes defecados por elefantes e rinocerontes nas estradas.

Elephant Fight Um elefante vive em média 40 anos, podendo chegar aos 60. A gestação é de 22 meses. Ao nascer, o bebê tem 120 kg e 90 cm e seu período de amamentação vai variar entre 3 e 8 anos. Eles não são territorialistas e vivem em grupos matriarcais, nos quais as fêmeas aparentadas permanecem juntas enquanto machos adolescentes (12 anos) são obrigados, pelo dominante, a se retirar para outros grupos. Esta foi a fórmula que funcionou na natureza para evitar a consangüinidade. Estes machos errantes (sozinhos ou em grupos pequenos) acabam invadindo propriedades e em algumas aldeias agrícolas existem até o “espantador de elefantes” para evitar que um deles acabe com o trabalho do ano inteiro. Mas isso ocorre onde ainda existem elefantes fora de reservas o que é raro hoje em dia.

Já há estudos que provam que estes elefantes só atacam as plantações quando a qualidade nutritiva das gramíneas declina. Isto pode ocorrer, por exemplo, durante secas muito severas que tornam as gramíneas mais abrasivas e fibrosas e consequentemente diminuem sua digestibilidade. Também é necessária a existência e conservação de corredores ecológicos que permitam a estes machos encontrarem outros grupos e não se perderem próximo ou no meio de povoados, como no Parque de Mavuradona (não confundir com Maradona…) no Zimbábue.

Babe elefante

Há mais algumas curiosidades sobre os elefantes que gostaria de partilhar. Ele só tem dois joelhos, pois tecnicamente falando, um joelho é uma junta entre o fêmur e a tíbia e só existe nos membros traseiros dos quadrúpedes. Assim, os membros dianteiros de um elefante são os correspondentes dos nossos braços, com cotovelo e pulso, e este último, se dobra como um joelho (adoro esta “cultura inútil”).

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O elefante mais famoso do mundo é sem sombra de dúvidas, o Dumbo de Walt Disney cuja característica principal era ter grandes orelhas. Um dos comportamentos mais comuns dos elefantes é balançar a cabeça e agitar as orelhas, isto espanta as moscas, mas principalmente ameniza o calor, pois a superfície de suas orelhas representa 20% da superfície total do corpo do animal e como são bastante irrigadas por vasos sanguíneos, são eficientes na dispersão de calor.

Conta a história que os primeiros exploradores brancos da África encontraram muitas carcaças de elefantes juntas, o que originou a idéia dos cemitérios de elefantes. Na verdade eles presenciaram o testemunho da morte da manada inteira (por sede), devido a grandes secas que assolam a África desde milhares de anos atrás. Mesmo assim, há muitos indícios que os elefantes são capazes de reconhecer se uma carcaça é de outro elefante ou não e muitas vezes espantam os carniceiros que dela se alimentam. Além disso, há relatos confiáveis que a memória de destes animais é mesmo “elefantística”, pois são hábeis pra reconhecer indivíduos de sua espécie, através do cheiro, depois de 30 anos de separação.

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Os marfins dos elefantes, principal motivo de sua caça indiscriminada até recentemente, são usados por eles para quebrar galhos e árvores, lutar (entre machos) e se defender. Hoje poucas lojas ainda têm o mau gosto de vender “pedaços” de animais mortos, que em geral só atraem a atenção de orientais (japoneses e chineses em especial).

Atualmente, a África do Sul tem em torno de 10 mil elefantes, dos quais 80% no Parque Nacional do Kruger. O Parque Nacional Addo Elefante foi criado em 1925, justamente para proteger os elefantes. Na época havia apenas 11 (!), porém hoje são 400 e não há suprimento extra de alimento para eles, que ficam à própria sorte, protegidos pelo dinheiro trazido por turistas que desfrutam, se quiserem e puderem, de todo tipo de comodidade desde camping ou quartos simples até acomodações luxuosas, todas dentro do parque público, mas com gestão privada através de concessão.

No entorno do Addo há algumas “game farms” particulares e muitos pequenos “hóteis” (Bed & Breakfast) que auxiliam a economia de antigas fazendas onde o plantio de laranja é predominante. Isto é, a população e empresários locais adoram, entendem e colaboram com o Parque e, claro, com os elefantes.

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Há uma velha história sobre eles que faz analogia com a complexidade de um problema: um homem vendeu quatro outros e pediu que eles explicassem o elefante através do toque. O primeiro pegou-lhe as orelhas e disse que o elefante se assemelhava a uma árvore com poucas folhas grandes; o segundo tocou-lhe as pernas e para ele o elefante era um conjunto de 4 postes; o terceiro encostou-se no corpo, e o animal seria apenas um muro, enquanto que o quarto homem, com a tromba na mão, disse que o elefante era uma cobra arborícola.

Money elephantAssim, para se explicar o sucesso da preservação do elefante não há apenas uma resposta, à pergunta: por que a natureza é protegida e os parques são bem administrados na África do Sul? Porque possui gestão mista (público-privada); por que tem animais carismáticos (caso do elefante); porque atraem turistas que podem viajar nas ótimas estradas (orgulho nacional); porque a população vizinha ao parque apóia e se aproveita salutarmente dele.

Um elefante beneficia muita gente, quatrocentos elefantes, elefantes, elefantes…. podem beneficiar muito mais, desde que em áreas bem administradas.

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Referências:

Beat about the Bush: mammals” livro de Trevor Carnaby (ed. Jacana, 2006)

“Smithers’”Mamals of Southern Africa – A field Guide” por Peter Apps (ed. Struik 2000)

“Field guide to he larger mammals of Africa por Chris Stuart & Tilde Stuart (ed. Struik 2006).

Birket, A. & Stevens-Wood, B. 2005. Effects of low rainfall and browsing by large herbivores on an enclosed savannah habitat in Kenia. African Journal of Ecology, 43: 123-130.

Osborn, F.V. 2004. Seasonal variation of feeding patterns and food selection by crop-raiding elephants in Zimbabwe. African Journal of Ecology, 42: 322-327.

Osborn, F.V. & Parker, G.E. 2003. Linking two elephants refuges with a corridor in the communal lands of Zimbabwe. African Journal of Ecology, 41:68-74.

 

 

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3 Respostas

  1. Anonymous Says:

    O elefante é lindo, eu amo esses gordos!!! Não consigo escolher quem é mais maravilhoso, os elefantes, as girafas, etc. rs
    gostei muito do texto,
    abs

  2. paula Says:

    amo esse animais lindos nunca descobri o pq mas sou facinada por eles e cada caracteristica deles que conheço me apaixono mais adorei a materia

  3. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx Says:

    legal

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