Enciclopédia de recursos pesqueiros em reservatórios brasileiros

Usina Hidrelétrica de Itaipu

Em torno de 30 países no mundo dependem diretamente de reservatórios de água para acender a luz, usar o liquidificador e rodar as máquinas da indústria. O Brasil é um deles, já que 95% de sua energia são geradas pelas hidroelétricas, consideradas limpas quando comparadas a queima de óleo e carvão, que jogam o dióxido de carbono na atmosfera e mais seguras e baratas que as usinas nucleares.

Porém quando uma barragem é construída e fechada, um novo ecossistema se estabelece, pois no lugar do rio, surge um lago, com características especiais e que pode acomodar usos múltiplos, isto é, servir como local de pesca comercial, turismo, recreação, piscicultura, esportes náuticos e armazenamento de água. Estima-se que o Brasil tenha de 100 a 300 reservatórios grandes (aqueles com capacidade de armazenamento superior a 10 milhões de m³ de água), cujas áreas somadas chegam a 35.200 km² (0,5% da área do país).

Ecologia e Manejo de recursos pesqueiros em reservatórios do BrasilNo que diz respeito à pesca comercial/artesanal nestes ambientes, acaba de ser lançado pela Editora da Universidade Estadual de Maringá um livro que mais pode ser considerado uma enciclopédia: “Ecologia e Manejo de Recursos Pesqueiros em Reservatórios do Brasil” de Ângelo Antonio Agostinho, Luiz Carlos Gomes e Fernando Mayer Pelicice. O termo enciclopédia não é exagerado, pois a obra congrega muitas informações sobre reservatórios que estavam fragmentadas ou em diferentes trabalhos científicos ou, a maior parte, em relatórios de uso restrito ou teses não publicadas. Inevitavelmente, eles constatam que não há informação para a maioria destes corpos d’água (às vezes não se sabe nem quando foram fechados) e por isto, os autores se concentram, a maior parte do tempo, em dados de 77 deles.

O assunto da pesca em reservatórios pode parecer irrelevante, mas não é. A atividade sustenta milhares de pessoas pelo Brasil, mesmo com a produtividade variando entre 150 kg/ha/ano nos açudes do NE até apenas 9 kg/ha/ano nos reservatórios da Bacia do Paraná. Neste último, não há muitas espécies lacustres (o local, era um rio certo?), produção primária é mais baixa e há muito mais predadores. Aliás, os reservatórios da Bacia do Paraná são os principais alvos-de-estudo dos autores, em especial Itaipu, cuja concessionária (Itaipu Binacional) mantêm convênio com a UEM e ajudou a financiar o Núcleo de Pesquisa em Ecologia, Limnologia, Ictiologia e Aqüicultura (NUPELIA), local onde os dois primeiros autores trabalham (Fernando é aluno de doutorado do Ângelo).

A luta do dourado para ultrapassar os obstáculos, Furnas-MG           Imagine um rio. Nele vivem espécies de peixes adaptadas à correnteza da água e ao regime de flutuação de secas e cheias. Os peixes migradores têm que subir o rio pra desovar, mas um dia surge uma pedra, ops, uma parede no meio do caminho. O peixe fica preso e por isto, bem como pela incorporação de recursos terrestres ao local inundado, nos primeiros anos o reservatório tem alta captura. Depois a produção diminui embora tal correlação não tenha sido encontrada pelos autores para o conjunto de dados avaliado.

De qualquer forma, as espécies migradoras, normalmente as de maior tamanho, serão eliminadas se não encontrarem um tributário para desovar (mais de 50% dos reservatórios não têm nenhuma espécie migradora de grande porte) e a composição da ictiofauna será profundamente alterada, inclusive pela colonização por espécies exóticas (corvina, tucunaré e tilápias, parecem ser as campeãs da invasão).

O livro tenta responder como manejar o recurso pesqueiro. Os mecanismos para transposição da barragem (escadas, eclusas e até elevadores) funcionam? Em parte sim, mas o problema é a sobrevivência da larva, que se passar pelos predadores do reservatório deve morrer na turbina da usina. A estocagem, isto é, ficar jogando alevinos e/ou juvenis de peixes no reservatório, é eficiente? Quase nunca. Também a piscicultura em tanques-rede, para aproveitar a lâmina d’água dos reservatórios, que seria uma boa alternativa à pesca, carece de uma política clara de médio e longo prazos.

Passagens para Peixes (PPPs)

O livro ainda aborda com profundidade:

i. a remoção ou não da vegetação a ser inundada;

ii. o controle da pesca;

iii. as ações ambientais do Setor Hidrelétrico (promissoras, segundo os autores, mas ainda sem monitoramentos adequados);

iv. as perspectivas para a atividade (há esperança, crianças).

No capítulo sobre espécies exóticas, os autores, comentam que elas colonizam os reservatórios e podem reduzir a riqueza da biota e as críticas às exóticas são várias e consistentes, mas se não fosse a tilápia (vinda da África), os açudes do NE e a Represa Billings em São Paulo, não teriam produção. Também não é demais lembrar, que exótico mesmo é o reservatório. A comunidade apenas se ajusta.

Por ser um tópico ainda pouco estudado no Brasil, a forma de uso e benefício para a população, seja ela urbana ou ribeirinha, não foi muito enfatizada na obra, à despeito do bom capítulo sobre pescadores. A “enciclopédia” também carece de uma breve apresentação dos autores, mas o lapso mais grave é que uma obra com uma quantia enorme e diversificada de informações como esta, deveria ter índices remissivos para assuntos, autores e espécies. Não tem nenhum (quem sabe na segunda edição?). Isto certamente facilitaria seu manuseio pelo pessoal do setor hidrelétrico brasileiro e alguns órgãos do governo que acabam de ganhar um grande livro de cabeceira. Só falta acordar. As diretrizes já estão traçadas.

Ah, sim ia me esquecendo. O livro não precisa ser comprado, basta mandar um e-mail educado para a Rosi (rosi@nupelia.uem.br) com um endereço completo para a remessa. Por favor, se for pedir, diga que viu a informação neste blog, quem sabe da próxima vez os autores citam modelos de ecossistemas como ferramentas de manejo…

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3 Respostas

  1. Martín Cuevas Says:

    PARABENS! pelo site, muito bem feito, achei que é uma forma bakana – bafana (rs…) de divulgar a ciência entre todos, nos biólogos e convidar assim também ao público leigo curioso. Muito boa e útil a idéia de disponibilizar livros on-line. De novo meus PARAbens!.
    Instituto Argentino de Recursos Naturales.

  2. Ronaldo Angelini Says:

    Oi Martín apareça sempre e convide os amigos

  3. ANVIRLÂNIO Says:

    eu gostaria de parabenizar os criadores desta pagina pelo belo trabalho feito, para concientizar-mos a todos pois quanto mais informanções repassarmos será melhor para o nosso mundo
    parabens

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