Este blog tem a satisfação de apresentar sua primeira entrevista. Conversei por email com o professor de Química da UNICAMP Marcelo Ganzarolli, que juntamente com o médico Gilson Barreto, escreveu “A arte secreta de Michelangelo: uma lição de Anatomia na Capela Sistina” (Editora ARX). Neste livro primoroso, eles explicam que para cada uma das 32 cenas pintadas na Capela Sistina, há uma parte anatômica humana subjacente, incluindo querubins, escravos e “ignudis” que, ao redor, de algumas destas cenas, dão dicas do que elas representam.
Falei do livro no post anterior.
A entrevista é mais uma daquelas conversas que lamentavelmente não tive pessoalmente. Um doutor em química que gosta (e entende) profundamente de artes. Um daqueles gentlemen (ele é educado até com a arte moderna) que as universidades não formam mais, mas que ainda estão por aí, sabendo muito bem onde colocam seu talento, dedicação e paciência, incluindo o fato de parar tudo pra me dar a entrevista. É hora de flanar….
“Se você se empolga com a ciência, não há como não se empolgar com as artes”
Bafana Ciência: Até que ponto o estudo das artes influencia sua atividade científica? Parece que Mendeleiev baseou sua tabela periódica num jogo de cartas. Dá pra se tirar algo pra Química das pinturas de Michelangelo, além é claro daquela inspiração de fazer algo belo?
Prof. Ganzarolli: Mendeleiev decifrou um quebra-cabeça. Para isso usou o pensamento lógico, racional. Mas pode sim ter se inspirado nos jogos de paciência durante suas viagens de trem de São Petesburgo a Tver. Pode ter pensado: “haveria uma analogia entre a seqüência descendente dos naipes e as seqüências dos números atômicos dos elementos químicos?”
Pode também ter sido influenciado por um sonho, como aquele sonho arquetípico da cobra mordendo sua própria cauda, que levou Kekulé a desvendar a estrutura do anel benzênico. Quando estamos absortos em decifrar os segredos da natureza, tudo pode nos influenciar.
Não sei se dá pra tirar algo das pinturas de Michelangelo diretamente para a Química, mas acredito que a contemplação de qualquer obra de arte nos permite uma visão objetiva da unidade, ou da idéia, dentro da pluralidade, e que o conhecimento que adquirimos nesta contemplação pode ajudar na inspiração para as descobertas científicas.
Bafana Ciência: Como conciliar os projetos que desenvolve cujos nomes são esquisitos para o público leigo: “Preparação de Biomateriais para a liberação tópica de óxido nítrico” e “Desenvolvimento de stents eluidores de drogas inibidoras da reestenose” com o estudo das artes clássicas?
Prof. Ganzarolli: História da arte é apenas um dos interesses paralelos à minha área de trabalho acadêmico. Se você se empolga com ciência, não há como não se empolgar com arte.
Bafana Ciência: Qual foi a receptividade no seu departamento de Química e no departamento de Artes da Unicamp com a publicação do seu livro? Não rolou aquele patrulhamento pouco sadio do tipo “ele não é da área” ou ainda “ele fica perdendo tempo com esta inutilidade”? No caso do Gilson, nenhum paciente desconfia de um médico que “gasta tempo” com arte, ao invés de estudar a especialidade?
Prof. Ganzarolli: Felizmente as relações pessoais no meu departamento são sadias. Não ouvi nenhum comentário deste tipo. Ao contrário, os comentários que recebi foram elogios. Leve em conta nisso que o trabalho para escrever o livro foi executado fora de meu horário de dedicação à universidade e não me trouxe nenhum prejuízo de produtividade. Não posso falar pelo Gilson, mas acho que qualquer paciente bem informado deveria considerar que sua capacidade de análise da anatomia humana, expressa no livro, é apenas mais um reflexo de sua competência como especialista.
Bafana Ciência: Tem gente que acha que vocês deram uma “forçada” em certas pinturas da Capela Sistina e teriam visto “imagens em nuvens”, como aquela brincadeira infantil. Na atual edição, os senhores mantêm todas as interpretações das primeiras?
Prof. Ganzarolli: Como eu disse no epílogo do livro, nossa proposta é apenas mais uma das inúmeras interpretações sobre o teto da Sistina que já foram publicadas. Muitas das que já li, escritas por catedráticos em arte, podem ser consideradas tão imaginativas quanto as nossas, mas dificilmente serão criticadas por seus colegas de área. James Hall, um renomado historiador e crítico de arte de Cambridge, lançou em 2005 um livro excelente chamado “Michelangelo and the reinvention of the human body” (Michelangelo e a reinvenção do corpo humano), onde ele propõe novas interpretações para os significados “psicológicos” das pinturas e esculturas de Michelangelo.
Embora seja um livro brilhante, muitas de suas interpretações chegam a serem hilárias como as da cena da criação de Eva. Nesta cena, onde propomos que o formato do manto do Criador se assemelha ao contorno de um pulmão, Hall considera que este manto pode ser a concha de um molusco e que pela posição de seu braço elevado, o próprio criador pode representar um crustáceo primordial! Seguem-se outras ainda mais pitorescas. Nem, por isso deixo de recomendar o livro de Hall. Mas quem será que divagou mais, a dupla de leigos ou o catedrático? Nas interpretações propostas em nosso livro procuramos encontrar correlações das estruturas anatômicas com pistas das próprias cenas, repetidas com um aparente padrão, ou método, pelo artista.
Portanto não são, em princípio, interpretações “livres” do tipo “acho que é isso”. Mas concordo que o grau de subjetividade numa análise deste tipo é inerentemente alto. Gostaria de ter revisto muitas das interpretações das cenas, mas infelizmente não tive esta oportunidade até o momento. A nova edição a que você se refere é na verdade uma reimpressão, com pequenas correções no texto e substituição de algumas imagens por outras mais adequadas.
Bafana Ciência: O que você acha de parte das artes modernas que têm que ser explicadas pela teoria do caos (tão confusas que são) e não por uma ciência “clássica” como a anatomia?
Prof. Ganzarolli: Só conheço a análise através da teoria do caos das pinturas de Jackson Pollock, um artista norte americano que morreu em 1956 e cuja obra foi batizada por outros de Expressionismo Abstrato. Em 2002, Richard P. Taylor publicou um artigo muito interessante sobre isso na Scientific American. Ele escaneou a pintura de Pollock e estudou as qualidades estatísticas dos padrões de formas numa escala variando desde a menor pincelada até padrões de cerca de 1 metro. (As telas de Pollock eram enormes. Ele as pintava no chão e com freqüência, caminhava sobre a tela enquanto aplicava as tintas).
Taylor descobriu que os padrões eram fractais, isto é consistiam de padrões que se repetem conforme analisamos escalas cada vez menores e que, na direção oposta, são capazes de construir estruturas altamente complexas, semelhantes às que se formam em sistemas naturais e que governam, por exemplo, o comportamento do clima.
A geometria fractal foi desenvolvida por Benoit Mandelbrot nos anos 60 e 70 para descrever estruturas que apresentam auto-similitude, isto é, que apresentam uma estrutura similar qualquer que seja o grau de amplificação que usemos para analisá-la. Para uma melhor compreensão deste assunto recomendo o próprio artigo da Scientific American que, como de praxe, é muito didático.
Esta análise é bastante interessante se aplicada a obras abstratas, como é o caso de Pollock. Taylor descobriu que nas telas de Pollock o que, em princípio, parecia uma composição de linhas, formas e cores aplicadas totalmente ao acaso, era na verdade um processo de pintura deliberadamente sistemático. Ninguém havia feito esta análise antes e acho que ela enriqueceu muito o conhecimento sobre o processo criativo deste artista. Não acredito que esta análise possa ser aplicada às pinturas de Michelangelo. Mesmo a profusão de dobras no drapejamento dos tecidos das figuras, possui um caráter pictórico muito diferente de uma composição com características fractais. Da mesma forma, acho que uma obra moderna abstrata dificilmente poderá ser analisada por uma óptica “clássica”.
Bafana Ciência: Tendo estudado um artista como Michelangelo, afinal, o senhor tem alguma idéia, por que as artes em geral (música, literatura, e mesmo pintura) têm mais destacado o “feio engajado” do que o “belo eterno”?
Prof. Ganzarolli: Acho que este fenômeno ocorre em ondas na história da arte. As manifestações artísticas mais puras e simples, na música, na poesia ou nas artes plásticas, vão se tornando espontaneamente mais e mais elaboradas até atingirem um período de transição. Neste, a elaboração cede lugar a uma nova fase de simplicidade e pureza, moldada em maior ou menor extensão pela tendência ou “moda” da época, e que por sua vez, desenvolve novamente suas próprias elaborações. A moda pode gerar o que acho que você está chamando de “feio engajado”. A mola propulsora destas mudanças de valores na arte é a necessidade, muito humana, de impor ordem ao caos da natureza, que por sua vez, é a fonte primordial da própria arte.
Quando a complexidade da arte se torna tão grande ao ponto de nos trazer desconforto, nosso impulso em resgatar a simplicidade é nada mais que um instinto de auto-preservação; uma necessidade de dominar o ambiente e não de ser dominado por ele. Cá prá nós, prefiro o idealismo grego dos Templos Dóricos e a música clássica dos grandes mestres. De qualquer forma, nas artes plásticas, tanto o belo eterno como o feio engajado, podem nos proporcionar uma imagem inesquecível, podem ser obras meticulosamente executadas e podem chocar nossos sentidos. Isto é, podem ser Grandes Artes.
Bafana Ciência: Não há mais nenhum trabalho de arte-ciência fomentando na sua cabeça? Por exemplo, que livro você está lendo agora sobre artes?
Prof. Ganzarolli: Estou lendo o livro de Rona Goffen “Renascence Rivals” (Rivais da Renascença – Yale University Press, 2005) que fala sobre a vida de quatro mestres da Renascença: Michelangelo, Leonardo, Rafael e Ticiano, através do prisma de suas ferrenhas rivalidades. O livro é excelente e ricamente ilustrado. Rona Goffen, da Universidade de Rutgers, é uma das mais respeitadas pesquisadoras da Renascença Italiana e relata de forma fascinante e reveladora como estas rivalidades moldaram a produção destes artistas. É claro que leituras como esta, fomentam muita coisa, mas, no momento, estou contente apenas lendo.
Bafana Ciência: Quando que a “Arte Secreta” vai ser traduzida para o inglês? Mostrei pra várias pessoas na África do Sul e todas lamentam muito o fato do livro estar em português.
Prof. Ganzarolli: O livro já foi traduzido para o Inglês. Aliás, muito bem traduzido. Esta versão já foi apresentada a outras editoras no exterior, mas não tenho no momento informações sobre o interesse de editoras de língua inglesa. Por isto ele ainda não foi publicado. O livro já foi lançado na Hungria (em Húngaro) e estava sendo analisado por uma editora Coreana.
Bafana Ciência: Vocês enviaram o livro pros estudiosos do Vaticano? Qual foi a receptividade? E a igreja brasileira. Algum padre ou bispo disse alguma coisa?
Prof. Ganzarolli: Não. Não foi enviado para nenhum eclesiástico do Vaticano nem daqui. É um livro sobre Arte e Anatomia e meu interesse particular é saber a opinião de historiadores de arte e anatomistas.
Bafana Ciência: Já deu pra ganhar dinheiro com o livro?
Prof. Ganzarolli: Não, apesar da boa divulgação feita após o lançamento. É bem sabido que mercado editorial no Brasil ainda é paupérrimo, apesar da expansão das últimas décadas. Isso infelizmente reflete a triste realidade de nosso país. Um país de maioria esmagadora de iletrados que vivem na indigência cultural. Reflexo, em última análise, da crônica falta de interesse em educação de nossos governantes. Quanto à venda na Hungria, a situação parece não ser diferente. Depois de cerca de um ano, estamos ainda a ver navios (ou, a não ver royalties).
Bafana Ciência: Responda rápido: Leonardo Da Vinci ou Michelangelo?
Prof. Ganzarolli: Sou mais Leonardo.
Mais informações aqui.



março 7th, 2007 at 9:59
Excelente entrevista, Ronaldo!
Sempre é muito bom ler o que o autor pensa sobre a sua obra.
Parabéns pela iniciativa!
R.
março 8th, 2007 at 11:57
Rapaz, esse blog tá virando coisa séria.
Ficou muito boa a entrevista.
novembro 19th, 2007 at 19:41
besta eu adoro arte
maio 3rd, 2008 at 22:40
Muito boa entrevista, concordo sobre o panorama atual no que diz respeito a livros e leitores, mas eu sou mais michelangelo. Ele pelo menos terminava as obras, foi um genio inigualável admirado até pelo propio leonardo
maio 9th, 2008 at 8:23
Prezado Editor:
Gostaria de parabenizá-los pela excelente condução desta entrevista. Sou professora da UFRJ, chefio o Laboratório de Neuroanatomia Celular e atualmente tenho uma de minhas linhas de pesquisa na área de interface Ciência e Arte. Estarei organizando um evento nesta área, comemorativo dos 200 anos de criação da universidade brasileira, enfocando o advento da Escola de Medicina, e das Belas Artes, com a chegada da família real
portuguesa ao Brasil. Meu trabalho resgata a figura do anatomista como artista plástico e seria de todo desejável, encetar um contato com o Prof. Barreto, convidando-o a
conhecer o Departamento na condição de palestrante do evento que planejo para novembro deste ano, na UFRJ.
Peço que vocês, por favor, me direcionem para o Prof. Barreto, ou me enviem e-mail de contato, para que eu possa me apresentar e formalizar o convite.
Meus telefones para contato seguem em e-mail enviado para bafanaciencia@gmail.com
Grata,
Maira Fróes
Prof. Adjunto, PhD
Dep. Anatomia – Instituto de Ciências Biomédicas – UFRJ