John Lukacs não é apenas um historiador. É um grande contador de histórias (O Duelo: Churchill x Hitler; Junho de 1941 – Hitler e Stálin; Churchill – Visionário. Estadista. Historiador) e, às vezes, proseador de histórias sobre histórias, como em O Hitler da História.
Lukacs é elegante, quase pedante, chegando mesmo a forçar o texto para inserir frases e expressões de efeito como: “(…) lembra a conhecida criada irlandesa que, questionada pelos vizinhos se as fofocas sobre a jovem viúva do final da vila eram verdadeiras, respondeu: ‘Não são verdades, mas suficientemente verdadeiras”” (Junho de 1941 – Hitler e Stálin).
Ele tem a percepção que a História (com H maiúsculo) é muito mais o resultado da visão, arrogância, capricho ou teimosia dos líderes do que de disputas entre esquemas ou sistemas de poder: “(…) a derrota final [de Hitler] pode ter sido predestinada por sua arrogância. Mas também, a arrogância é defeito mais de caráter do que de visão, e Hitler não era cego” (O Hitler da História).
Em O Duelo… ele faz uma análise pouco convencional: “[eu tenho] um fraco pela cognomologia – isto é, pela misteriosa maneira por que o nome de uma pessoa se torna uma representação de seu caráter… o nome e o som de Hitler era enérgico, direto, decidido e frio. Possuía um tom cortante e gélido, e não só devido ao que passamos a associar a ele… Já Churchill… sua rabugice o torna humano e jocoso, em vez de clerical. A rabugice se dissolve, de forma afável na segunda sílaba. Essa sílaba final nada tem de indiferente. É curta, brilhante, o som primaveril de um córrego. O som do nome completo é tanto sério quanto jocoso: Churchill.”
Mas há um livro duvidoso de Lukacs. Trata-se de O Fim de uma Era. Nele, este húngaro naturalizado americano, se esforça para mostrar que a época iniciada 500 anos atrás já se esgotou. Ele chama este período da História de Era Européia, pois foi quando o Velho Continente expandiu-se geográfica e culturalmente pelo mundo e então, tivemos as Eras do Estado, do Dinheiro, da Indústria, da Família, da Privacidade, da Educação, entre outras. Todas estas, aliás, com fórmulas atualmente esgotadas, e que agora começam a ser engolidas por uma nova Era Global, difícil de ser ainda sentida em sua plenitude, mas muito presente nos sinais característicos de fim dos tempos que se aproximam.
De certa forma, aceito sua tese no geral, por exemplo, quando diz que aquilo que as pessoas pensam e acreditam é que determinam a organização material da sociedade e não o contrário, como as atuais “escolas” da história social (ou mesmo ambiental) nos tentam demonstrar com seus esquematismos de lutas de poder para implantação de impérios. Até aí, morreu o Neves. Mas quando Lukacs começa a falar de Darwin, Einstein e Freud, o resultado é desapontador.
Sobre as opiniões dele à cerca de Freud, este que vos escreve não dirá nada, pois a tradutora (Vera Ribeiro) já fez na página 120 numa nota de rodapé: “(…) O autor não parece ter-se aprofundado muito na teorização freudiana, mas como ele mesmo diz, essas questões não são de sua alçada”.
Mas ele acha que a teoria darwiniana é apenas teoria. Não é! Há outros exemplos, mas o mais famoso é o do casal Grant que viveu 30 anos nas Ilhas Galápagos, registrando todos os tentilhões que nasciam e, então foi capaz de quantificar as pequenas modificações entre os indivíduos, mostrar as vantagens evolutivas delas e constatá-las nas gerações seguintes (O Bico do Tentilhão, J. Weiner). Evolução e seleção natural são fatos.
Ele não concorda com a idéia de que as características adquiridas por um ser humano durante sua vida não podem ser herdadas e diz que a falha essencial do darwinismo é negar que exista alguma diferença fundamental, por mínima que seja em termos físicos, entre os humanos e os outros seres vivos.
Bem, o Sr. Lukacs não explica, mas será que ele acredita mesmo que Edinho adquiriu as características de seu pai Pelé, de treinar incessante e permanentemente? Não basta ter herdado parte do talento (desperdiçado por ele mesmo)? Lamarck foi um grande cientista mas mesmo na época dele ninguém acreditava muito em caracteres adquiridos e a história da girafa esticando pescoço. Também nunca vi ninguém dizer que não exista uma diferença mínima entre um homem e um chimpanzé. É claro, as bases nitrogenadas do DNA tem mesma forma, etc… mas cada espécie tem seu próprio desenvolvimento. Elementar meu caro, Lukacs.
Há uma frase que Lukacs gosta de usar em seus livros e que neste caso, cabe como uma luva para ele mesmo. É aquela na qual Sheridan diz a um colega da Câmara dos Comuns: “Ele disse coisas verdadeiras e novas, mas, infelizmente, o que era verdadeiro não era novo, e o que era novo não era verdadeiro”.


