Esta semana, no Instituto Oceanográfico da USP, aconteceu o 1º Workshop Brasileiro sobre Modelagem de Ecossistemas aplicada à Pesca (Download das palestras aqui). No post Os Bagres da Amazônia falei que esta é minha área de pesquisa principal. Realmente uma pena não ter participado para aprender mais sobre temas correlatos, além é claro de conhecer os pesquisadores (também tenho saudades de São Paulo…).
Modelagem ecológica pode parecer mais umas daquelas ocupações de cientistas em suas torres de marfim, mas decididamente não é (Aliás, se fosse não teria problema nenhum, mas este assunto fica pra outra hora). Na verdade é uma forma simples, porém abrangente pra se predizer alguns processos ecológicos e nossa pressão sobre eles.
O Ministério do Meio Ambiente estima em 250 mil, o número de pescadores de pequena escala no Brasil. Ainda tem a pesca industrial e a população ribeirinha na Amazônia (mais 250 mil) que tem um dos maiores consumos de peixe do mundo:
Normalmente os estudos ecológicos tentam ser “puros” e analisar as relações apenas entre os organismos e estes com o ambiente, deixando o Homem (carne, sangue e orgulhosa podridão, só pra citar meu Sto. Agostinho) de fora. Mas pesca é atividade essencialmente humana, o que complica sobre-maneira os modelos.
O primeiro profissional contratado para estudar por que as capturas pesqueiras flutuavam, foi Alex Boeck pelo governo Norueguês em 1859. Ele não conseguiu a resposta. Aliás, apesar dos avanços, até hoje todo mundo ainda faz esta mesma pergunta. No Canadá por exemplo, que é uma das melhores, se não a melhor escola de estudo sobre manejo pesqueiro do mundo, todos os estoques estão sobre-explorados e alguns deles já não se recuperam há tempos, mesmo com a ausência da pesca.
Sim, é ruim pros peixes, mas pior pra quem encara o desemprego. Só pra continuar nas más notícias, ainda há muita controvérsia entre os pesquisadores pra saber por que os estoques sumiram, porém, em geral é um conjunto de fatores: pesca muito intensa, falha no recrutamento/desova (que pode ter sido provocada por variações naturais de temperatura), destruição/poluição do habitat, entre outros.
Este último fator é o principal problema da pesca de água doce, pois os rios são muito influenciados pelo o que ocorre ao redor deles, na chamada bacia hidrográfica. Aquele papo de “ensinar a pescar é melhor do que dar o peixe” poderia ser complementado com “é melhor proteger o rio do que proibir a pesca”. Mas daí, resolvemos que temos que construir as “limpas” hidrelétricas, plantar até a beira do rio e jogar os esgotos doméstico e industrial na água. Não tem peixe? O pescador é o vilão. É, os mocinhos somos nós, que agora vamos plantar cana pelo Brasil afora. Gringo ordenou, cara-pálida faz…, afinal, quem mandou não estudar?
Ultimamente os modelos matemáticos têm despertado mais a atenção da mídia, depois que o IPCC (Painel Intergovernamental de Alterações Climáticas) e a mídia marcaram o ano do juízo final previsto por modelos. Outro dia fui a Universidade de Stellenbosch, perto de Cape Town, ver o tal documentário do Al Gore. Após o filme, o Prof. S.G. Philander, um climatologista sul-africano que fez carreira em Princeton, pois negro não fazia pós-graduação aqui 20 anos atrás, autor de um famoso livro sobre o El Niño, disse que apesar da correlação entre gás carbônico e temperatura ser um fato, não há provas entre causa e efeito. Algumas pessoas da platéia questionaram suas colocações, mas ele não foi hábil pra se explicar melhor. Eu, que já confessei meu ceticismo sobre a importância das atividades humanas no aquecimento global, acabei ficando também com uma pulga africana atrás da orelha, com aqueles que supostamente teriam que explicar melhor por que tudo isto não passa de um jogo de cena em escala planetária e não de um fato científico, descrito por modelos matemáticos.
Agora “senta que lá vem a história”. Em 1902 o Nobel da Medicina foi para Sir Ronald Ross por demonstrar que mosquitos transmitiam malária. Mas ele não acreditava que a malária poderia ser controlada reduzindo-se os mosquitos, pois não havia correlação entre incidência da doença e abundância do vetor. O que ele fez? Uma sofisticada análise matemática da interação mosquito, doença e população, onde, entre outras coisas fundamentadas epidemiologicamente, mostrou que a transmissão da doença dependeria da relação número de mosquitos/número de pessoas. Assim, a partir de um nível crítico seria muito provável a ocorrência do surto da malária. Publicou na Nature em 1911 e seu trabalho teve importante influência na ciência que estuda a ecologia das populações. Bacana, não é? Só que até hoje a malária é combatida matando-se os insetos!! Claro, tem outras ações, mas esta continua como a principal.
Enfim, espero que as mais de 100 pessoas que estiveram no Workshop da USP tenham fortalecido nossos métodos e a idéia de que os modelos devem refletir a natureza (medida pelas observações) e não o contrário.
Mais informações aqui: MONGABAY




março 11th, 2007 at 13:38
Bom seu comentário, Ronaldo.
).
Falando dos modelos: estive no Workshop de Modelagem Ecologica e Pesca, no IO e foi altamente positivo. Em breve sairá um documento com sugestões e em um par de meses, os Proceedings com os trabalhos dos especialistas do grupo.
Falando da mudança global do clima, uma jornalista da Radio Bras nos entrevistou e perguntou do evento e da pesca, mas depois, perguntou da tal “mudança global”… Sinal dos tempos! Agora todos falam… mas tenho a impressão (como cidadão, não como biólogo) que parece que a culpa e as soluções são coisa de terceiros. Nenhum país fala abertamente “mea culpa” e esperam um consenso mundial para agir. Acho que assim não vamos a lugar nenhum! (a mesma coisa pode se dizer da pesca
Abraço.
março 11th, 2007 at 13:39
PD: “Gonzalo” (usei um e-mail comunitáio como usuário do google)!
março 12th, 2007 at 17:27
Gonzalo, comentando por aqui?? Cê vê como são as coisas.
Essa mensagem está ótima, Ronaldo. Gostei muito da citação que fez daquele cientista que pesquisou a pesca na Noruega em 18 e bolinha. Veio daquele livro que você havia me mostrado, não? Preciso comprar ele.
Mas sendo mais objetivo: estou ansioso para ver uma mensagem sua sobre nós cientistas nas nossas torres de marfim.
É porque já sófri discriminação só pelo fato de ser cientista, sendo taxado de satanista e outros adjetivos tão carinhosos quanto…
Cheers,
Rodrigo Plei
março 14th, 2007 at 11:51
Oi Ronaldo,
Gostei muito dos seus comentários á respeito da diminuição dos estoques pesqueiros no mundo. Assisti, há duas semanas atrás, uma palestra com o professor Dr. Miguel Petrere Jr. – “O estado atual da pesca no mundo”, onde ele abordou justamente esse assunto.
Concordo com você, quando diz que “é melhor proteger o rio do que proibir a pesca”. Temos um bom exemplo dessa situação no rio Araguaia, onde limitaram o numero de pescadores, causaram um problema social enorme por conta do desemprego piorando a situação de pobreza dessas famílias, e o rio e seus peixinhos que é bom, vão de mal a pior…
março 14th, 2007 at 13:11
Off topic: acompanhaste a repercussão de vossa carta aos universitários no site da UEG?
Resolvi me intrometer e tomei porrada até…
junho 29th, 2011 at 18:35
muito bom,fantastico!