Com a publicação de “A mensagem das estrelas” em 1610, cuja primeira edição teve 550 exemplares, Galileu foi nomeado matemático e filósofo do grão duque de Florença (Cosme II de Médicis), a quem, por coincidência, dedicara sua obra. Com essa nova colocação livrou-se da obrigação de subir os oito degraus do estrado que o alçava a um metro e meio do chão na Universidade de Pádua (conservado até hoje no Palácio del Bo) para lecionar. Mudou-se para Florença, foi dispensado das aulas (sonho de quase todo professor-pesquisador universitário), tornou-se um homem célebre na Europa, e claro, alarmou os filósofos da classe do pensamento dominante.
Ele já reclamava com um amigo: O senhor, não sabe, então, que mesmo se as estrelas descessem a Terra para dar seu testemunho, isso não iria convencer os obstinados, que só se importam com os vãos aplausos do que é vulgar, imbecil e estúpido?. É altamente assombroso o que Galileu fez, não contra a “Igreja” ou as instituições “perversas e selvagens”, mas sim contra um modo de pensar que não mais satisfazia seu espírito inquieto.
Para entender melhor o tamanho do seu trabalho, meditemos resumidamente à luz de quatro filósofos da ciência do século XX.
Karl Popper afirmou que o cientista não prova a hipótese, apenas pode refutá-la, ou melhor dizendo, confrontando dados de experimentos críticos com esta hipótese, ela pode adquirir alto grau de respeito, mas não ser validada, pois a única verdade é a falsificação.
Para Thomas Kuhn a ciência é formada por paradigmas que dirigem os experimentos e com isto, a atividade flui normalmente, até que o paradigma não consegue mais explicar dados contraditórios e uma revolução cientifica é necessária para estabelecer um paradigma alternativo. Do mesmo modo, Imre Lakatos chamou a atenção para o fato que hipóteses múltiplas protegem o corpo central de uma dada teoria e então é necessária uma revolução kuhniana para modificá-la.
Michael Polanyi usou a expressão República da Ciência, afirmando que esta é formada por visões múltiplas e diferentes opiniões. Os cientistas são treinados por outros e os critérios para a prevalência das opiniões são: a plausibilidade, o valor (acurácia, interesse, importância) e a originalidade (criatividade e dissidência). No confronto modelo contra modelo vence quem satisfizer melhor estas qualidades.
Pois bem, ou Galileu foi um homem muito além do seu tempo, ou os filósofos da ciência demoraram mais de 300 anos pra enxergar o que ele fez. Ele foi “republicano” sensu Polanyi, na medida em que aprendeu com seus professores, formou outros alunos (como Torricelli que inventou o barômetro) e teve maturidade para escolher o melhor modelo (e método) para a explicação dos fenômenos.
Também foi “popperiano” já que entendia que o método poderia mandar para a lata do lixo da história algumas hipóteses, mas apenas se aproximaria da verdade com outras mais prováveis. Nunca afirmou que a ciência tinha alicerces verdadeiros incontestáveis.
Ainda, Galileu conheceu a força hercúlea do escudo capaz de proteger o corpo principal da teoria aristotélica-ptolemaica e, em parte, religiosa e foi um revolucionário “kuhniano” com seu novo paradigma o, por assim dizer, experimental-matemático. Ele também foi vítima da inveja do seu sucesso. É que o mundo intelectual sempre foi como o Brasil do Tom Jobim, em que um pouco de sucesso causa um mal estar incrível nos patrícios.
De quebra em sua “Mensagem das Estrelas”, Galileu prometia uma obra futura para mostrar que a Terra era um astro errante. E ela veio 22 anos depois (“Dialogo sobre dois sistemas de mundo”), mas neste meio tempo outro trabalho também faria, para o bem ou mal, sucesso, trata-se de “O ensaiador” de 1623. Mas sobre isto, se o leitor ainda me suportar, tratarei no próximo artigo.
Veja também:
Galileu Galilei: Nascimento e Amadurecimento da Ciência (I de III)
Galileu Galilei: Liberdade ainda que tardia (III de III)
Publicado originalmente na Revista Bula











