“Por causa da obra de Galileu a humanidade começou a entrever um Deus, não de capricho e extravagância, como eram todos os deuses da antiguidade, mas um Deus que age por meio de leis” (Millikan, Science & Religion, 1929).
Em 1610 com “Mensagem das estrelas” Galileu ganhou fama e um desejado emprego em Florença para onde se mudou sob os auspícios de um membro da poderosa família Médici, depois de lecionar na já milenar Universidade de Pádua (fundada em 1222).
Mas a intelectualidade florentina não foi muito receptiva a suas idéias. Afinal, dá preguiça pensar, examinar e saber que tudo aquilo que você defendeu por muito tempo, não passa de uma grande farsa, que de tanto você ouvir e dizer acaba acreditando como verdade. E isto pode ainda ser visto hoje, bastando ao leitor, vasculhar os departamentos de humanidades de nossas universidades, com seus marxistas, socialistas democráticos (como se isto fosse possível) e tutti quanti… eles não desistem, como diria o próprio Galileu: “…se as estrelas baixassem a Terra pra dar o seu próprio testemunho, nem isso iria convencê-los (…)”.
Galileu estava cônscio da teimosia dos pares. Mas, segundo alguns estudiosos, era relativamente ingênuo quanto as insinuações maledicentes de seus detratores. Apesar disto, tentava se precaver procurando a proteção de gente influente e escrevendo cartas explicando suas convicções. Numa delas ele deixa claro sua idéia que o “problema da Igreja é nos mostrar como se vai para o céu e não como é o céu” numa tentativa de separar seu trabalho daquele dos clérigos. A preocupação de Galileu não era infundada, lembremos que uma década antes, Giordano Bruno tinha sido queimado pela inquisição (Neste caso, o “publique ou pereça” havia mudado para “publique E pereça”…).
Tendo a princípio ficado seguro com o apoio de suas amizades, em 1616 Galileu foi “compulsoriamente convidado” a não tocar mais no assunto da doutrina copernicana e então passou a dedicar-se a problemas de “movimento”, até que três novos cometas apareceram dois anos depois. E, como já fizera anos antes, surgiu um tratado com sua orientação, mas não a sua assinatura: “Discurso sobre os cometas” de 1619 do amigo Mario Guiducci.
Foi quando o jesuíta Orazio Grassi publica o livro “Balança Astronômica” e intima de uma vez por todas os galileanos ao debate que poderia levá-los à fogueira. Mas a fortuna pareceu sorrir a Galileu, pois Maffeo Barberini, um amigo e defensor, foi eleito papa com o nome de Urbano VIII. Era o ano de 1623 e aproveitando a “deixa” nosso herói publica, em homenagem ao pontífice, “O Ensaiador”.
É nesta obra que Galileu mostra o que vem a ser a ciência: humildade, abnegação, certeza que a busca da verdade é um caminho intricado que progride de passo em passo, sempre sob o julgo da observação acurada. Para ele, autores célebres podem ser infecundos, estéreis e enganadores, o que contrariava totalmente Grassi que acreditava com todas as forças nas “autoridades”.
Aliás, a frase mais repetida de Galileu aparece nesta hora “A filosofia é escrita neste grandíssimo livro que está continuamente aberto diante de nossos olhos (eu digo, o universo), mas que não se pode entender se primeiro não se aprende a entender a língua e a conhecer os caracteres em que está escrito. Ele está escrito em língua matemática e os caracteres são triângulos, círculos e outras figuras geométricas, sem os quais é humanamente impossível entender alguma coisa; sem eles é como girar em vão por um obscuro labirinto”.
Galileu vencera. Afinal a aprovação papal a “O Ensaiador” tornou-se conhecida. Então em 1632 ele publicou “Diálogo sobre os dois máximos sistemas do mundo”, obra já anunciada em sua “Mensagem das Estrelas”, e sem dúvida seu trabalho mais comentado e discutido. Diferente de outras obras publicadas em latim, esta foi editada em italiano, pois Galileu vislumbrava que se mais pessoas conhecessem seu trabalho, menos problemas com os inquisidores ele teria. Ledo engano.
Mesmo assim é importante notar que o criador da ciência moderna preocupou-se com a divulgação. Ludovico Geymonat, autor de uma das biografias de Galileu (Editora Nova Fronteira) destaca este caráter da obra dele, em especial dos Diálogos de 1632 “divulgar a ciência não é baixar o seu nível poluindo-lhe o rigor racional, mas difundi-la reduzindo suas razões a uma clareza inteligível para muitos, lá onde forem por demais difíceis”.
E convenhamos que a tarefa galileana não era nada fácil. Afinal, mesmo hoje quais os argumentos que temos para convencer, por exemplo, um analfabeto que ele está sobre um planeta que gira em torno do sol, quando este é que nasce de um lado e se põe do outro, dia após dia? Para piorar, no século XVII isto ainda podia levar a fogueira. Pensando bem, só os malucos poderiam crer nisto. Bem, até a fama de doidos dos cientistas, Galileu ajudou a difundir.
O gênero literário dos diálogos que Galileu usou era comum, seu próprio pai, músico, publicara “Diálogos entre a musica antiga e a moderna”. No Diálogo de 1632, três interlocutores conversam: Salviati (interpretando Galileu), Simplício (que faz o defensor de Aristóteles e Ptolomeu) e o veneziano Sagredo, que é anfitrião culto e “juiz” entre os dois primeiros.
O Diálogo é dividido em quatro jornadas: a concepção geral do universo, a discussão das experiências que provam a imobilidade da Terra, a apresentação das evidências do movimento da Terra e finalmente o movimento das marés que corroboravam a hipótese da Terra oscilante.
Galileu refuta o mundo aristotélico de dois andares (céu e Terra) e de quebra começa a tecer a divisão das ciências humanas e naturais, mostrando que os dados destas últimas (como as manchas solares ou a superfície montanhosa da lua) não podem ser refutados com engenhosidades fantasiosas e o “arbítrio humano nada tem o que fazer” perante as observações acuradas.
Mas se Galileu desejava fundar suas teses na observação, o que dizer da queda de um corpo de uma torre? Afinal ele cai horizontalmente e se houvesse movimento circular da Terra isto não ocorreria, aliás, se a Terra se movesse sempre teríamos vento, etc…. Galileu explica o fato com a experiência do barco, assim “você pode fazer inúmeros movimentos no convés de barco imóvel e depois quando este estiver se deslocando, desde que sem balanços ou atribulações, você pode repetir os movimentos da mesma maneira”. Assim, na queda de um objeto de uma torre, o observador, o objeto e a torre estão se movimentando horizontalmente e então todos estão, como se diz, no mesmo barco (isto foi chamado de principio da relatividade galileano).
Na terceira jornada Salviati-Galileu delineia os argumentos a favor do movimento da Terra, e de quantas anda o céu, enquanto critica as incongruências do sistema ptolemaico. A última parte dos Diálogos, sobre o movimento das marés era considerada por Galileu a principal, tanto que ele insistia que o nome do livro deveria ser De fluxu et refluxu maris, (Sobre o fluxo e refluxo das marés) mas o editor-inquisidor “pediu” a alteração do titulo. Melhor para Galileu, pois seu desempenho neste tema foi, pra dizer o mínimo, sofrível, já que comete erros graves de cálculo e ainda afirma que a lua não influenciava as marés.
O professor da PUC-SP, Carlos Arthur R. Nascimento em seu curto “Para ler Galileu Galilei: Diálogo sobre os dois máximos sistemas do mundo” (2003, Educ, 105 p.) ressalta a goleada galileana nas duas primeiras jornadas, a vitória simples na terceira e a quarta como um jogo pra ser esquecido.
Para a maior parte dos historiadores, foi esta obra que trouxe problemas para Galileu, pois Urbano VIII leu e com razão, não gostou, afinal seus argumentos sobre o “céu”, na boca de Simplício, foram tratados como, digamos, simplórios. Depois de algumas idas e vindas, Galileu foi condenado em 22 de junho de 1632, tendo que ler em público um ato de abjuração. Devido à idade avançada e a
surpreendente intervenção papal a seu favor, foi penalizado com uma simples reclusão em casa, onde não poderia receber ninguém e nem emitir sua opinião sobre o assunto. Mesmo assim escreveu mais um livro sobre o movimento que depois foi publicado na Holanda em 1638. Sinceramente, no futuro não muito distante, eu gostaria de receber uma sentença desta: recluso em casa, sem conversar com ninguém, cuidando apenas das minhas próprias dúvidas…
Muito se diz o quanto Galileu sofreu nas mãos da Inquisição e é obvio que a vida dele não foi um “céu de brigadeiro” (desculpe, não resisti ao chiste…). Mas é salutar para o espírito democrático, notar que a Igreja também tinha os seus motivos para processá-lo.
Em seu livro “Galileu Herético” (Cia. das Letras, 1991), Pietro Redondi mostra que as implicações de algumas teses galileanas levavam o leitor a considerar que na hóstia consagrada ainda restaria, partículas de pão e então, contrariaria o Concílio de Trento que estabeleceu que após a consagração eucarística, pão e vinho permaneceriam com cor e odor devido a um milagre. Logo, não restava a Igreja, que na época ainda estava sob a crítica de Lutero, outra alternativa a não ser censurá-lo. Infelizmente este livro que, em parte, mostra o “outro lado” da questão galileana não recebeu uma segunda edição em português e sumiu também dos sebos. Por quê? Vai ver que ele dá credito à Igreja e isto nos dias de hoje, não é politicamente correto.
Galileu morreu em Florença em 08 de janeiro de 1642 (mesmo ano de nascimento de Newton) e seus amigos e admiradores tiveram trabalho para poder enterrá-lo na Igreja de Santa Croce da mesma cidade, pois seus detratores não o perdoavam. Enfim, poder-se-ia ter dito (como fizeram com Darwin em relação a abadia de Westminster 250 anos depois) que Santa Croce “precisava mais de Galileu que ele dela”.
Hoje seu túmulo é vizinho do de Michelangelo e da “Estatua da Liberdade da Poesia” (que depois inspiraria o mais famoso presente francês aos EUA). Nada mais justo, pois foi seu espírito livre que o ajudou a entender o céu e, claro, um pouco mais de nós mesmos.
Veja também:
Galileu Galilei: Nascimento e Amadurecimento da Ciência (I de III)
Galileu Galilei – Enxergando bem além do seu tempo (II de III)











janeiro 27th, 2008 at 11:41
este blog é bastante interessante…
gostaria também de recomendar este:
http://designinteligente.blogspot.com/
abraços
fevereiro 5th, 2008 at 20:57
Muito interessante teu artigo sobre Galileu. gostei do blog,e também fiz alguns artigos sobre Galileu, para comemorar seu aniversário dia 15 de fevereiro.
Abraços.