Girafa: o mais simpático dos grandes mamíferos

O continente africano possui paisagens e flores magníficas, mas no quesito grandiosidade, alguns animais da África têm fama mundialmente inquestionável. As cinco espécies que recebem maior destaque são: rinoceronte, elefante, leão, búfalo e leopardo. O Rand, que é a moeda da África do Sul (7 Rands = 1 dólar), ostenta-os, respectivamente, em suas notas de R10, R20, R50, R100 e R200. Estranhou a lista? Cadê o hipopótamo, a chita, o gorila e a girafa? Na verdade, os chamados “big five” não são exatamente os “maiores”, mas sim os mais agressivos e perigosos ao homem.

MapinguariPor que a diversidade de grandes animais só é alta no continente africano? A resposta mais correta é o fator histórico-evolutivo, pois há 20 mil anos atrás, o continente americano também contava com mamíferos quase gigantescos: tatus, ursos, veados (com galhadas de mais 10 metros de largura) e o mais famoso deles, a preguiça gigante, que depois virou lenda na Amazônia com o nome de Mapinguari (tem até pesquisador atrás dela). Então, há cerca de 13 mil anos, o bicho-homem atravessou o estreito de Behring e caminhando (8 km/ano) até a Patagônia foi dizimando estas belas espécies.

O episódio é conhecido como overkill (supermatança) e ninguém tem dúvida que ocorreu, pois todas as outras hipóteses, em especial as climáticas, levantadas para explicar a rápida extinção, foram descartadas. Assim, apesar do tamanho enorme, estes bichos não tinham nenhum instinto evoluído para evitar o homem e representavam uma importante fonte de proteína para nossos ancestrais.

Isto é basicamente provado pelo fato de que, na África, as extinções nesta mesma época foram menores, pois como é o berço de nossa espécie, os animais já haviam sido selecionados para evitar aquele bípede cabeçudo que atuava em grupo.

A girafa (Giraffa camelopardallis) é um destes animais que aprendeu a conviver com a presença humana e se a fragmentação mais recente do habitat africano ainda não acarretou especiações propriamente ditas, permitiu variações de cor e padrões de manchas distinguíveis para os pesquisadores, que então descrevem 9 subespécies de girafas (nem todos concordam com este número). Diga-se de passagem, que aparentemente a coloração ajuda a confundir os predadores (foto abaixo).

Girafa na Aquila Reserve

Independente da subespécie, as girafas, em geral vivem em grupos de 9 a 10 indivíduos que normalmente se reduzem na estação seca para em torno de 6. Não há hierarquia, nem padrão nos grupos, que às vezes têm mais fêmeas, às vezes mais machos, hora têm mais adultos e outras mais jovens. A maior parte dos grupos é inconstante desfazendo-se a cada dois ou três dias. Na Nigéria, por exemplo, ao oeste do Rio Niger, 1900 indivíduos permutam-se em aproximadamente 280 grupos que perambulam por entre as fazendas e florestas da região.

Devido ao tamanho (750 kg) as girafas precisam de um coração grande (12 kg) para bombear o sangue pelo corpo e principalmente para o cérebro. Aliás, a pressão com que o sangue chega a cabeça é tão grande que há uma “esponja” junto ao cérebro para reduzi-la. O pescoço, com apenas 7 vértebras como muitos mamíferos, ainda possui uma série de válvulas que ajudam no controle da pressão sanguínea.

Independente do pescoço, a girafa é suficientemente alta para pôr em risco a vida dos filhotes ao nascer. A queda é de uma altura de dois metros, mas como nascem primeiro com as pernas e só depois com a cabeça (como a maior parte dos ungulados), o tombo é minimizado e ainda rompe o cordão umbilical (Há quem diga que os neozelandeses inventaram o “bungee jumping” observando o parto das girafas nas savanas africanas).

Em comparação com outros animais, os filhotes da girafa (2 m, 100 kg) têm mais dificuldade nos primeiros passos. Mesmo para os adultos, não deve ser muito fácil manter o equilíbrio, principalmente quando fogem de predadores como leão e a hiena que muitas vezes perseguem e perturbam o animal de longe apenas esperando que tropecem e caiam, para efetivamente atacá-lo. Pela mesma razão terrenos inclinados são evitados pelas girafas.

Acácia africanaGirafas alimentam-se, na época chuvosa, de árvores do gênero e há grandes evidências que quando em altas densidades, as girafas limitam o crescimento e aumentam a mortalidade destas árvores. Nada comparadas, claro, com rinocerontes e elefantes que adoram as mesmas Acácias, mas tem o péssimo hábito de derrubá-las.

Numa reserva particular que fui visitar, a 250 km de Cape Town, havia apenas duas girafas (uma delas na foto acima), pois a Conservation International que fiscaliza e regulamenta este tipo de propriedade, constatou corretamente, que o local ainda tem árvores insuficientes para sustentar mais indivíduos desta espécie.

Girafas esticando o pescoço pra comer no alto das árvores nos levam a lembrar do exemplo da comparação das teorias de Lamarck e Darwin sobre a evolução das espécies. Um exemplo, bastante incorreto, pois o pescoço faz mais diferença na disputa entre machos e nos acasalamentos quando muitas vezes eles chegam a se entrelaçar. É a clássica evolução sexual e “pescoçar” as fêmeas, neste caso, é um verdadeiro galanteio.

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Algumas referências

Para o overkill:

Brazilian Journal of Biology, 64 -3A- 407-414, 2004; artigo de José Alexandre Diniz-Filho

“O Poema Imperfeito” livro de Fernando Fernandez, (Editora da Univ. Federal do Paraná) .


Para as girafas:

Caister, et al. 2003. Female tannin avoidance: a possible explanation for habitat and dietary segregation of giraffes (Giraffa camelopardalis peralta) in Niger. African Journal Ecology 41: 201-210

Le Pendu, et al. 2000. The social organization of giraffes in Niger. African Journal Ecology, 38: 78-85;

Bond & Loffell, 2001. Introduction of giraffe changes acacia distribution in a South African savanna. African Journal Ecology, 39: 286-294;

“Beat about the Bush: mammals” livro de Trevor Carnaby (ed. Jacana, 2006)

Para o exemplo das girafas nas aulas de evolução:

Ciência Hoje, vol. 34 (200): 64-67 (dezembro de 2003), artigo de Izabel Rebelo Roque.

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Uma Resposta

  1. Leandro Correia Says:

    O que é exatamente esta “esponja” que a girafa tem no cerebro?

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