Outro dia contei, mas vou repetir para você não ter que ficar “clicando aqui”…. et al. é a abreviação do latim et alicui que significa “e colaboradores”. Na hora de citar um trabalho de três ou mais autores, você cita o primeiro autor e et al.: Fulano et al.. Acontece que tem gente que se auto-referencia tanto, que virou um “et eu” (a pronúncia em inglês é “et ai”…ai!) Como blog é uma coisa individual vou me dar o direito de auto-citação. Este é o segundo da seção “et eu”.
Tempos atrás um físico disse que os “cientistas têm tanto interesse na história e filosofia da ciência, como pássaros têm em ornitologia”. Em geral, os pesquisadores seguem a teoria do forrageamento ótimo, aquela mesma, usada para explicar a competição entre aves. Assim, pássaros e cientistas estão todos muito ocupados correndo atrás de migalhas. Quem vai pensar em ornitologia ou história/filosofia?
Porém, de vez em quando pinta a dúvida shakesperiana e se você está amparado por uma eficiente, linda e silenciosa biblioteca como a da Universidade de Cape Town, é relativamente fácil descobrir grandes obras como o livro de T. D. Smith, “Scaling Fisheries: the science of measuring the effects of fishing, 1855-
Aí comecei com a ajuda da minha supervisora Collen Moloney, a pensar em ornitol…, ops, história das ciências pesqueira e ecológica, aquelas que me ajudam a por pão de cada dia e o vinho do final de semana na mesa e, montar o quebra cabeça de como estas duas disciplinas poderiam ter se influenciado mutuamente. Resultou no artigo publicado no periódico brasileiro Pan-American Journal of Aquatic Science (Panamjas) “Ecology, Fisheries and Modeling: an historical perspective” (Ecologia, Ciência Pesqueira e Modelagem: uma perspectiva histórica) que pode ser acessado livremente clicando aqui ou aqui. Mas vai a resenha.
Faz tempo que o homem pesca. Parece que começou com varas sem linha, que funcionavam como as antigas ‘varinhas de marmelo’. Eles literalmente batiam nos peixes que encontravam em ambientes rasos. Os peixes caíram no gosto popular e a relação “homem – peixe” ampliou-se em manifestações lúdicas, religiosas e/ou simbólicas. Assim, por exemplo, os primeiros cristãos se identificavam através do desenho de um peixe, influência do grego ICHTHYS que indica o monograma de Cristo: Iesous Christos Theous Yous Sôtêr, isto é, Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador. A ciência que estuda os peixes chama-se ICTIOlogia.
Em 1860, enquanto Darwin, questionado por Wallace, saia da moita com o livro do Malthus na mão, o governo norueguês iniciou a coleta de dados de estatística pesqueira (número e peso dos peixes capturados e número de barcos, redes, etc…), pois estava preocupado com a inexplicável flutuação da pesca, cujos constantes períodos de escassez provocavam fome naquele país gelado. O escritor Knut Hamsun ganhou o Nobel da literatura escrevendo sobre estes tempos. Um dia lerei.
A questão colocada era “Porque os estoques (as populações) de peixe variam tanto?”. O já famoso buldogue de Darwin, Thomas Huxley, retrucou que, dadas às condições de pesca e devido à enorme quantidade de ovos que os peixes depositam, os estoques pesqueiros constituíam “um recurso inexaurível”! Mas os barcos e apetrechos de pesca evoluíram rapidamente e o grande Huxley não conseguiu prever isto.
Em 1887, o primeiro experimento de pesca com rede de arrasto foi feito e mostrou que as capturas experimentais em áreas fechadas à pesca comercial eram muito maiores que nas de áreas abertas. Desta forma, a pesca tinha influência na flutuação dos estoques. Acontece que isto nem sempre funciona assim, pois um predador pode ajudar a população de sua presa na medida que, eliminando os mais fracos, diminui a competição entre as presas e permite que os outros fiquem maiores (maior produção). Este foi o experimento que Karl Möbius fez em 1882 na Alemanha com carpas e uma espécie de predador.
A simples pergunta “O que é sobre-pesca?” de 1903, só veio convincentemente em 1954: é uma pesca tão intensa que o rendimento sustentável [dos peixes que ficam na água] começa a declinar. Nesta época já se tinha os resultados dos dois “Grandes Experimentos Pesqueiros”: a interrupção espontânea _ e por razões lógicas _da pesca durante o período das duas grandes guerras mundiais. Após as guerras, as capturas foram maiores e os comprimentos médios das espécies pescadas tinham aumentado. Assim, concluiu-se que a pesca devia mesmo interferir com a dinâmica natural. Apesar da linearidade das conclusões, ainda há controvérsias a respeito da interpretação dos resultados destes “experimentos”.
Para chegar ao conceito de sobre-pesca, muita coisa rolou por debaixo da ponte e não foram apenas os peixes. A Ecologia tentou ser uma ciência dura na década de 20 com o americano R. Pearl batendo o pé, para que o modelo de capacidade suporte de Verhulst (que evoluiu à partir do modelo Malthusiano de crescimento das populações) se tornasse uma lei
Se já é difícil prever a dinâmica das populações naturais, imagine se estas populações, suas presas ou predadores, são alvo de uma atividade demasiado humana como a pesca, sujeita as leis sócio-econômicas do mercado e de regulamentações governamentais. O assunto fica_ eu diria, mais espinhoso ainda.
Felizmente o russo Fiódor Baranóv entendia quase tudo de biologia e matemática (desde 1918) e foi resolvendo as questões do impacto da pesca, quedas das taxas de crescimento, mortalidade e previsão do que aconteceria com os estoques. Um alemão, von Bertalanffy (1901-1972), descreveu a equação de crescimento de peixes, e outras três mentes brilhantes, Hulme, Beverton e Holt conseguiram unir todos os conceitos dispersos na famosa teoria de rendimento por recruta que foi a base para os modelos de pesca até os anos 80.
Neste ínterim a ecologia das relações entre as espécies foi tornando-se mais madura com os trabalhos de Lotka-Volterra (1926) para competição e predação e de MacArthur (1955) sobre nichos, competição e diversidade. Fazendo uso da teoria de sistemas do mesmo von Bertalanffy, os irmãos Odum nos anos 50-60 criaram a teoria de desenvolvimento dos ecossistemas, que mostrou que dependendo das relações energéticas entre os organismos que, o ambiente como um todo pode estar mais apto a suportar impactos, como o da pesca.
Hoje, o paradigma vigente no estudo das pescarias é o ecossistêmico, pois, entre outros motivos, permite a avaliação da influência de organismos que não são alvos da atividade (golfinhos, algas, aves). Este paradigma também é criticado, já que muitos não conseguem prever o homem como mais um fator que causa predação no sistema. Assim, estudam o peixe e a atividade de pesca como se o pescador não existisse. Em alguns casos, de fato, até querem que ele deixe de existir.
Em fevereiro último ocorreu no Instituto Oceanográfico da USP o “Primeiro Encontro Brasileiro de Modelagem Ecossistêmica da Pesca”, e vários pesquisadores fizeram suas contribuições que agora estão disponíveis no mesmo endereço do meu artigo (nem todos ainda, aliás). A ata final do encontro não poderia ser mais realista: o Brasil ainda não consegue efetivamente perguntar “por que os estoques variam?”, pois, por pura falta de organização institucional, a coleta de dados da estatística pesqueira brasileira é uma confusão dos diabos (ok, com honrosas exceções), prejudicando a validação dos modelos e consequentemente, o manejo responsável dos estoques.
Desta forma, estamos longe da Noruega de 1860. Para nós a pergunta ainda é: “os diferentes estoques brasileiros flutuam?”. Bem, parece que os principais estão caindo, mas, afinal, quanto mesmo? Enfim…., um dia quem sabe…., a gente alcance os noruegueses do século XIX, afinal somos ou não o “país do futuro”?









junho 5th, 2007 at 15:08
Oi, achei teu blog pelo google tá bem interessante gostei desse post. Quando der dá uma passada pelo meu blog, é sobre camisetas personalizadas, mostra passo a passo como criar uma camiseta personalizada bem maneira. Até mais.
setembro 24th, 2007 at 15:21
Gostei muito, acho que deveriam haver mais textos desse tipo na internet. Textos não técnicos mas que divulgam a ciência, podendo ser lidos por especialistas ou não. Parabéns.
maio 28th, 2009 at 12:27
Muito interessante o blog de vocês.Gostei muito e irei recomendá-lo aos meus estudantes. Quanto ao comentário de certo Físico, interado neste artigo de que os mesmo não se interessam por história e filosofia da ciência, deixo aqui meu parecer: Os Físicos, ou cientistas em geral que não se interessam pela história e principalmente pela filosofia, tornaram-se meros cérebros pesquisadores fazedores de tecnologia a serviço da ambição monetária e do prestígio científico. O cientista que se esquece do que o motivou, bem no início, a trilhar esse caminho com talvez esperanças de obter possibilidades de transformação para um mundo melhor, esqueceu-se de ser Homem, perdeu sua natureza de desvendar os verdadeiros mistérios do Universo, abandonou sua qualidade intelecta e o poder de servir para o bem a humanidade… afastou-se provavelmente da ética, do deslumbre místico que completa a ciência e mais do que tudo, afastou-se do deus do seu coração.
Abraços e sucesso para vocês!