Ao redor do Kruger National Park há inúmeras reservas particulares de vida selvagem (chamadas de Private Game Reserve). Estas áreas funcionam como um hotel-fazenda, mas ao invés de engordarem bois e cabras, se dedicam à criação de leões, rinocerontes, javalis, entre outros. Algumas são muito requintadas, possuindo até campos de golfe (de vez em quando alguns jogos são interrompidos para que as girafas atravessem o campo….). Carros próprios do hotel (com guias) se encarregam de te conduzir aos safáris fotográficos e você pode beber um delicioso champanhe, enquanto observa os hipopótamos no lago (um luxo! Te contei, não?).
Apesar da “frescura”, estas reservas empregam muita gente, incluindo profissionais como veterinários e biólogos. De vinte anos pra cá, elas estabeleceram um acordo com a direção do Kruger e parte delas aboliu a cerca que faz divisa com o Parque. Assim, os animais ganharam mais espaço e as reservas podem oferecer um melhor serviço, já que os safáris ficam mais surpreendentes. Além disso, a eliminação das fronteiras possibilita que os animais do Kruger e das reservas se cruzem, aumentando a variabilidade genética e evitando o intercruzamento (ou inbreeding). A natureza e o turismo agradecem. Vocês sabem: pra conservar animais enormes são necessárias grandes extensões de terra. Por exemplo, apenas um elefante consome por dia de 150 a 300 kg de vegetação.
Porém, o problema se complica um pouco mais quando falamos dos grandes carnívoros terrestres (> 21,5 kg) que são territorialistas e que muitas vezes escolhem presas menores, acabando por competir com outros predadores também menores. No Kruger observamos, por exemplo, durante o dia um leopardo espreitando um velho e solitário búfalo, que se lançou contra o leopardo para afugentá-lo. Ambos sumiram vegetação adentro com o leopardo sorrateiramente indo atrás do búfalo. Mas consideramos que será uma caçada complicada, se não impossível, pois o búfalo pesa 7 vezes mais que o leopardo.
Numa destas “game-farm” chamada Mala Mala (que tem mais de 50 anos e 570 km2), foi conduzida uma longa (1988-2000) e minuciosa análise de carcaças de animais predados por felinos, como leão (Panthera leo), leopardo (Panthera pardus) e a chita (Acynonix jubatus), além de uma espécie de cachorro selvagem africano (Lycaon pictus).
O interessante deste trabalho é que a coleta de dados foi feita pelos guias dos 8 veículos de turistas que percorrem a reserva todos os dias do ano, levando os visitantes para o safári fotográfico. Desta forma, o esforço amostral foi muito grande e evitou um problema freqüente em estudos deste tipo: a subestimação da quantia de carcaças de pequenas presas que além de serem difíceis de visualizar pelos pesquisadores, se decompõem muito rápido.
Os cientistas da Universidade de Pretoria (capital da África do Sul) mostraram que o leão é verdadeiramente o rei dos animais (veja referência completa ao final do texto e algumas fotos nos posts abaixo).
No experimento conduzido, o impala_ Aepyceros melampus_ o veado mais comum do Kruger (tem, em média, 32 kg) foi presa preferida das chitas (macho = 54 kg; fêmea = 43 kg), leopardos (machos = 60 kg, fêmeas = 38 kg) e cachorros selvagens (não há dimorfismo sexual no tamanho, 25 kg) e fêmeas de leão (120 kg). Já o leão macho (188 kg) preferiu búfalos (Syncerus caffer, 425 kg) e girafas (Giraffa camelopardalis, 880 kg). Girafas!?!? Pois é. Leões perseguem demoradamente as velhas ou doentes que se cansam e acabam sucumbindo ao predador.
Analisando as outras presas, constatou-se que os predadores têm preferência por espécies de, no máximo 50% a mais do seu próprio peso. A exceção é o leão macho que, além de consumir animais grandes, também consome maior número de espécies de presas, incluindo as menores. Isto mostra que eles não se especializam nas maiores, o que seria esperado pela teoria, já que desta forma evitariam a competição com os outros predadores que só pegam as menores, pois são “pequenos” também. Alguma dúvida do motivo do leão ser considerado o rei dos animais?
Além de fortes, os leões são muito inteligentes. Já foram vistos inclusive usando ferramentas no Parque Nacional de Waza nos Camarões. Só pra resumir: uma fêmea enfiou um espinho em sua pata dianteira direita. Foi vista, tentando arrancar o espinho com a boca. Como não conseguiu, deitou-se à sombra de uma árvore e passou a segurar um galho baixo também com boca, enquanto raspava o espinho de sua pata no galho, numa clara tentativa de tirar aquilo que lhe atormentava. Foi a primeira vez que o uso de ferramentas por leão foi descrita cientificamente.
O leão pode também ser manso. No Zimbábue, mais especificamente em Victoria Falls, tive uma oportunidade única de caminhar ao lado de leões (veja fotos abaixo). O programa de conservação é intitulado “Encontro com Leões”. Trata-se de uma organização que recebe filhotes de reservas que não têm condições de mantê-los ou não os desejam para evitar o intercruzamento entre irmãos. Também aceitam indivíduos apreendidos que viviam em lugares indesejados (próximos a vilarejos e fazendas). Os leões passam por um programa de treinamento, em que aprendem a caçar em áreas abertas, com a finalidade de serem re-introduzidos na natureza ou ao menos em outras Reservas Particulares quando já estiverem aptos a comerem sozinhos. A convivência com os humanos é parte importante do treinamento, pois os leões aprendem a nos ver como uma espécie amiga, isto é, nem predadora, nem presa.
Foi engraçado confiar num pedacinho de pau, achando que aquela varinha de condão poderia controlar um bicho daquele tamanho. Na verdade, controlou. Eu adoraria ter feito isto com 12, 13 anos. Mas devo admitir que aos 40, foi ainda impressionante. Me senti como uma criança: extremamente inferiorizado entre o assombro e a admiração, mas confiante na nobreza dos gestos do leão.
Vida longa ao Rei e ao programa que ajuda a conservá-lo!
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Referências:
Bauer, H. 2001. Use of tools by lions in Waza National Park, Cameroon. African Journal Ecology, 39: 317 (short communication).
Radloff, F.G. & Toit, J.T. 2004. Large predators and their prey in southern African savanna: a predator’s size determines its prey size range. Journal of Animal Ecology, 73: 410-423.

