
Depois de sair das Galápagos, o Beagle, com o jovem Charles Darwin, atravessou o Oceano Pacífico aportando no Taiti, Nova Zelândia e Austrália. Já no Oceano Índico, mais precisamente nas Ilhas Keeling ou Ilha dos Cocos, Darwin entendeu a formação dos recifes de corais que foram confirmadas 17 dias depois quando chegou às Ilhas Maurício, onde permaneceu entre 29 de abril e 09 de maio de 1836.
Darwin estava profundamente influenciado pelos Princípios da Geologia de seu amigo Charles Lyell (ambos descansam em paz na Abadia de Westminster), que explicava como as mudanças geológicas eram graduais ao invés de catastróficas (a natureza não dá saltos). Darwin mostrou em seu diário de viagem a história dos recifes: uma ilha formada por atividade vulcânica, cerca-se de um recife de corais pequeno. A ilha afunda gradualmente. Os corais vão se sucedendo (os vivos sobre os mortos) e o conjunto vai soerguendo, compensando o rebaixamento e alargando o diâmetro do recife que se torna uma barreira, na medida que forma uma espécie de lagoa-anel que circunda a ilha. Quando o topo da ilha submergir por completo, ter-se-á um atol.

Os primeiros ocidentais a chegarem a Maurício foram os portugueses em 1507, que a usaram durante o século XVI para consertar os navios no caminho das Índias. No início do século XVII, ingleses e holandeses também descobriram que navegar é preciso e em uma das expedições holandesas de 1638, batizaram a ilha de Maurício em homenagem a Maurício de Nassau, o Príncipe Laranja (nenhuma ironia) que era chefe das províncias holandesas. Eles também introduziram a cana de açúcar.

Daí em diante a história é mais conhecida por todos nós: busca desenfreada pelos recursos naturais (incluindo a extinção do Dodô) e uma briga entre nações pra ver quem ficava com a chave para Índias.
Em 1710 a Holanda tinha dois estabelecimentos naquela região do mundo: um no Cabo da Boa Esperança (África do Sul), outro na Ilha Maurício. Eles preferiram o Cabo, abandonaram Maurício e em 1715 os franceses a anexaram e rebatizaram-na de Ilha da França. Logo depois, em 1721 trouxeram os primeiros escravos pra trabalhar na cana de açúcar (vieram de Moçambique e Madagascar que fica ali perto).
A ilha então foi ganhando cara de Europa com novos fortes, hospitais, estradas e aquedutos, além das casas avarandadas (a varanda é ainda considerada, a principal parte da casa, pois serve para receber visitas que se refrescam com o vento, naquele calor tropical e úmido). La Bourdonnais que tornou-se governador em 1735 tem uma estátua no centro de Port Louis e é considerado o melhor governador francês da ilha.

Outro francês famoso localmente é Jacques H.B. de Saint Pierre o escritor russeauniano que acreditava na volta à natureza e baseou o romance Paul e Virgine na ilha. Em Port Louis há muitas referências (ruas, estátuas, etc..) ao romance (que não li).
Segundo Christian le Comte em seu Mauritius from its origin (Ed. Monica Hoss de le Comte, 2007), quando a revolução francesa chegou a ilha, houve muita discussão pois ela preconizava a libertação dos escravos mas os donos de terra e plantadores de cana, politicamente fortes, não deixaram que isto acontecesse. Os escravocratas alegaram prejuízos econômicos e como não existe pecado do lado de baixo do Equador, os escravos foram mantidos.
Então, os ingleses resolveram tomar a ilha com o argumento que ela estava servindo para ajudar os corsários e piratas franceses que enfraqueciam o comércio náutico e roubavam os navios da Rainha (era verdade). Em 3 de dezembro de 1810 os franceses se renderam e a Inglaterra começou seu governo na Ilha. Novamente a questão escravocrata apareceu (a terra da Rainha abolira a escravatura de suas colônias em 1807). Depois de muitas discussões e viagens dos donos de escravo para Londres, a Inglaterra pagou 2 milhões de libras e os escravos foram libertados em 1839. Como já não eram muito bem-vindos os ingleses deixaram a ilha crescer à vontade e por isto ainda hoje a língua oficial é inglesa, mas as pessoas preferem o francês ou o creole (língua local).

Um grupo de manifestantes apoiam Seewoosagur Ramgolam, o Primeiro-Ministro das Ilhas Maurício, que luta pela independência durante a conferência constitucional em Lancaster House, em Londres.
As Ilhas Maurício tornaram-se independentes em 1968 com uma constituição escrita em Londres e seus 1.200.000 habitantes são formados por 65% de Indianos, 30% de creoles (os mestiços), 3% de chineses e 2% de franceses.
Voltando em Darwin, ele achou a ilha linda e acima das expectativas do já lera nas descrições de navegantes. Gostou também da capital Port Louis que considerou limpa e acolhedora, das plantações de cana de açúcar e admirou-se com a cor escura dos indianos e mais ainda com o olhar soberbo deles. Espantou-se que numa colônia inglesa todo mundo falasse francês.
E hoje? A capital sofre de congestionamentos inacreditáveis, é suja, tem muitas casas pobres, alguns edifícios em ruínas e para mim, que sou do interior do estado de São Paulo, plantações de cana são desoladoras e tristes.
Em compensação o recife de coral que circunda a ilha, e que confirmou a explicação darwiniana, permite que você entre pelo menos uns 200 metros no mar com a água pela cintura e com uma simples máscara de mergulho possa se encantar com as mais variadas formas de vida, de corais a peixes maravilhosos.

Que bom que a natureza não dá saltos. Assim dá tempo de contemplá-la.










março 1st, 2009 at 10:11
Belas fotos. Mas o que mais me impressiona é a capacidade de dedução de Darwin. Mesmo pensando em mil outras coisas (incluindo a teoria da evolução), ele conseguia juntar outras ideias. E apenas alguns dias em algumas ilhas foram o suficiente para ele chegar à conclusão sobre os atóis. É algo que não vemos nos pesquisadores (pelo menos a maioria) de hoje…