Mais perto de Deus

Cotopaxi

Em junho de 1736, chegou à Quito no Equador uma missão da Academia Real de Ciências de Paris formada por Pierre Bouguer (físico), Charles-Marie de La Condamine (geógrafo) e Louis Godin (matemático e chefe da expedição), além de um botânico.

Foram medir um grau do arco do meridiano no equador terrestre para testar a hipótese newtoniana, de que a Terra tem forma elíptica. A mesma Academia também tinha enviado outra expedição à Lapônia, perto do círculo polar. Assim, se o arco do meridiano fosse maior no equador, a Terra deveria ser abaulada no equinócio e Newton estaria certo…

Rota de La Condamine

Porém a medição não era tão simples. Para determinar o meridiano era necessário colocar vários pontos fixos (geodésicos) distantes uns dos outros vários graus de latitude, formando triângulos para depois projetar um arco e medir sua longitude. Ainda era necessário um barômetro preciso para considerar e padronizar a altitude.

Tudo isto tinha que ser feito no mau e volúvel tempo dos Andes com suas constantes temperaturas baixas, ventos cortantes e terrenos acidentados. Além disso, os franceses não se deram bem com os desconfiados nativos e os geodésicos eram, por vezes, roubados.

Journal du Voyage fait par Ordre du Roi, a l'Équateur, servant d'Introduction historique a la Mesure des Trois Premiers Degrés du MéridienFim da história: os franceses brigaram entre eles mesmos (típico de cientistas…), demoraram mais de seis anos pra retornar e, quando o fizeram, com exceção de Bouguer e La Condamine, “pereceram”, já que não publicaram nada, perdidos entre incontáveis e desconexas notas de campo. De todo modo a expedição teve sucesso, pois, o “erro” das marcações do equinócio de Bouguer e La Condamine foi de 0,02% (como verificado muito tempo depois). Além disso, a expedição ajudou, no final do século XVIII, à estabelecer o metro como unidade de medida universal, pois que representa um décimo-milionésimo da distância do meridiano ao equador (hoje botaram a velocidade da luz na determinação do metro…). Em todo caso, tenho que dizer: imagine se as notas de campo tivessem sido aproveitadas na totalidade…

Em 1802, Alexander Von Humboldt também foi à região de Quito, passando 8 meses na (como conhecida hoje) “Avenida dos Vulcões”, pois conta com 18 deles, destacando-se o Chimborazo (6.310m) e o Cotopaxi (5.897m), ambos escalados por Humboldt e Aimé Bonpland.

Eu e a Adriana subimos o Cotopaxi até onde o carro chega, 4.600m. Com o tempo encoberto, ventos e o constante frio, não nos imaginamos subir mais 700m, à 5.400m que foi a altura alcançada por Humboldt e seu fiel escudeiro no Chimborazo, à mais de 200 anos. O pesquisador alemão ainda se orgulharia muito tempo de sua escalada nas montanhas mais altas do mundo (o Himalaia ainda não havia sido “descoberto” pela ciência ocidental…).

Humboldt

Ainda, estas escaladas ajudaram Humboldt, à estabelecer a teoria dos gradientes altitudinais, isto é, as grandes massas vegetais (fitofisionomias) são diferentes, formando um mosaico ao longo de uma montanha, refletindo a associação entre vegetação e clima, com participação importante do solo. Humboldt, então, viu a floresta e não apenas as árvores, como era característico da filosofia natural da época, preocupada apenas com a descrição das espécies.

É incrível que este senhor, depois de todo o sucesso de suas obras ainda tenha afirmado que apenas a arte e a pintura em particular estão aptas a dar conta dos profundos sentimentos e do “sopro da vida” que emana de uma paisagem natural.

Marcela Garcia e Bernard Francou em “El Corazón dos Andes” (Edição Libri Mundi, Enrique Grosse-Luemern, 2004), afirmam que desta maneira Humboldt influenciou uma geração não apenas de cientistas, mas também de pintores como  Frederic Edwin Church (confira abaixo) e Rafael Troya (1845-1920), por exemplo, que foi contratado por uma expedição alemã justamente para, com a pintura, auxiliar na descrição das paisagens.

Church: http://www.artchive.com/artchive/C/church/heart_of_andes.jpg.html

Então, para um dos maiores cientistas-naturalistas pré-Darwin, a arte supera a ciência, e esta só pode apoiá-la e estimulá-la. “Escalando um monte bastante provável”, Humboldt ficou mais perto de Deus e ajudou também na aproximação do Homem com a Natureza, pois trilhou o caminho da boa ciência.

Mais algumas fotos:

Imagem exclusiva Bafana Ciência

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