A xenofobia ou aversão aos estrangeiros existe desde que o mundo é mundo. Mas a repulsa é apenas uma faceta deste mal. No Brasil, tribos literalmente comiam umas as outras. Na África, Oceania e Oriente Médio, quem não era do grupo virava escravo. Os egípcios, por exemplo, obrigaram os judeus à carregarem pedras pra construírem inúteis pirâmides, até serem libertos por Moisés, na conhecida passagem da história, que pesquisadores têm cada vez mais duvidado (veja por exemplo: aqui).
Mas independente se os judeus fugiram ou não do Egito, o fato é que os judeus viraram os bodes expiatórios de várias gerações em muitos países. Por exemplo, na Hungria de 1920 (Pós-Primeira Guerra) foi sancionada a primeira legislação anti-semita importante na Europa, limitando a admissão de judeus na universidade a 6% que era a percentagem que eles representavam na população total. Assim, há 88 anos o sistema de cotas era fruto da fobia aos judeus, mas hoje, dizem os bem-pensantes e politicamente corretos, é apenas um modo justo de fazer “reparações” (Deixa pra lá….).
Recentemente um novo tipo de literatura tem contado a história do povo judeu: são as “graphic novel” (romances em quadrinhos). A de maior sucesso é indiscutivelmente MAUS – a história de um sobrevivente de Art Spiegelman [download aqui Vol. I e Vol. II], que recebeu o Prêmio Pulitzer em 1992. No livro, para este caso seria pejorativo dizer gibi, o autor conta as experiências vivenciadas por seu pai, Vladek Spiegelman (judeu polonês), nos campos de concentração nazistas. O interessante é que o jovem Spiegelman faz reflexões no presente e não coloca seu pai como anjo ou mártir, apenas como um homem, tão demasiado humano, que é desenhado, como os outros judeus, como um rato (cultura não tão inútil: em alemão, “maus” quer dizer rato). Os alemães são os gatos.
O criador do primeiro romance em quadrinhos, Will Eisner (1917-2005), tem também dois títulos que tratam do tema: O Complô – A história secreta dos Protocolos dos Sábios de Sião [download aqui] q
ue na edição da Cia. das Letras tem introdução de Umberto Eco (tradução de André Conti, 146p.) e Fagín, o Judeu [download aqui] (Cia. das Letras, 2007, 122p., mesmo tradutor).
Em O Complô… Eisner didática e brilhantemente conta a história do documento, Os Protocolos dos Sábios de Sião, supostamente escrito por líderes judeus e que mostraria como eles pretenderiam dominar o mundo.
Eisner não romanceia. Com base em estudos dos recém abertos arquivos russos, ele narra a história. Em 1864, Maurice Joly publicou O Diálogo entre Maquiavel e Montesquieu, equiparando Napoleão III, no poder desde 1848, à Maquiavel e tentando denunciar os planos do déspota. Achava que sua obra conscientizaria o povo a derrubar o imperador, mas este só foi destronado em 1870, devido à uma guerra perdida contra os alemães. Joly pegou 15 meses de gancho, se meteu em mais encrenca e aparentemente se matou em 1878. Ponto parágrafo.
Nicolau II virou tsar russo em 1894 e, como os antepassados, tinha uma política de repressão aos judeus. Era influenciado por pensadores liberais, e então, políticos contrários à mudanças modernizantes na Rússia, chamaram um jovem escritor mercenário para escrever artigos anti-semitas que ligassem este processo de modernização, aos judeus.
Mathieu Golovinski foi contratado pelo serviço secreto russo, mas logo deportado por traição. Na França, em 1898, Golovinski foi convidado a escrever um documento que fizesse o hesitante Nicolau II acreditar firmemente num complô judaico contra ele.
Eisner mostra um Golovinski medíocre, que na falta de algo melhor, acabou aceitando a idéia de seu mandante, Rachkovsky e plagiando na cara dura o livro do Joly, colocando os judeus como autores de um plano maquiavélico…
Assinou o texto, um certo escritor místico, Sergei Nilus, que tinha forte influência na tsarina. O tsar leu, a Dona Alexandra deve ter lhe dito algo e em 1905, acreditou piamente em Os Protocolos dos Sábios de Sião, usando-os como desculpa para seus fracassos. Doze anos depois, Nicolau II foi executado pela revolução. Ninguém gostava dele.
Em 1921, M. Raslovlev vende a comparação dos Protocolos com o Diálogo ao Times londrino (publicada em 17/08/1921). Eisner coloca trechos dos dois originais, lado à lado em 19 páginas de sua história. Mesmo assim, os nazistas acreditaram nos Protocolos (ou fingiram) e Hitler o cita em 1926 no Mein Kampf [download aqui]. O texto foi condenado na Suíça em 1934. Até hoje há traduções e novas edições dos Protocolos em quase todas as línguas, pois muita gente ainda o usa como verdade.
Umberto Eco, na introdução, traduz como um destes anti-semitas pensa: “Como os Protocolos dizem o que eu digo em minha história, eles a confirmam” ou “ Os Protocolos confirmam a história que depreendi deles e, portanto, são autênticos”. E conclui o autor do Nome da Rosa: “(…) não são os Protocolos que geram anti-semitismo; é a profunda necessidade das pessoas de isolar um Inimigo que as leva a acreditar nos Protocolos”.
A edição tem capa dura, os desenhos são em preto, branco e belos tons de cinza. Contém bibliografia e explicações dos personagens principais num índice ao final do livro. Realmente, muito além de um gibi.





setembro 16th, 2008 at 19:21
eu estava a procura desses quadrinhos!!!!!
Obrigada por upalos!
fevereiro 1st, 2009 at 0:17
Este blog e realmente bacana…Valeu.