O regime de segregação racial da África do Sul, que se iniciou na colonização, nos séculos XVI e XVII, se fortaleceu na primeira metade do século XX e finalmente se escancarou em 1948 com a eleição (só brancos votavam) do Partido Nacional.
O apartheid era fundamentado por quatro idéias principais: 1) A África do Sul é formada por quatro grupos raciais: brancos, mestiços (coloured), indianos e africanos, cada um com sua própria cultura; 2) os brancos, como a raça civilizada, tinham o direito ao controle absoluto do Estado; 3) o Estado não era obrigado a prover igual ajuda as raças subordinadas; 4) o grupo branco (africâner e as pessoas de origem inglesa) formava uma só nação, enquanto os outros eram muito divididos, por isto os brancos eram maioria.
Em 1950 foram proibidos os casamentos e namoros inter-raciais e as poucas vozes coloured e indianas no Parlamento foram caladas. Nelson Mandela tinha 32 anos nesta data. Já era casado, tinha perdido uma filha de nove meses, era conhecido em seu bairro (Soweto), respeitado em seu partido (ANC) e detentor de um bom emprego para um negro (tinha até automóvel).
A década de 50 foi marcada por todo tipo de protestos comandados pelo ANC e às vezes pelo partido comunista: greves, boicotes e passeatas. Mandela foi preso três vezes, acusado de liderar alguns destes movimentos, conferindo-lhes credibilidade moral. Era verdade. Este período é chamado por Tom Lodge, autor de “Mandela a critical life” (Mandela uma vida crítica, Oxford University Press, 2006, 274p) de “construindo o messias”, pois foi quando “Madiba” (como ainda é tratado por seus amigos íntimos) aliou seu charme aristocrático e seus modos de educação “inglesa” e valores cristãos, à luta dos seus semelhantes pela igualdade entre as pessoas que moravam na África do Sul. Isto era diametralmente oposto ao pilar do apartheid, isto é, as diferenças entre as “raças”.
Em 1961, o ANC cansou de tentar persuadir o governo a abrandar as leis. Estimulada pela ala radical do partido e outras organizações, a liderança discretamente começou a dar suporte a atividades de sabotagem a instalações governamentais, ou seja, terrorismo. Tom Lodge diz que Mandela aparentemente nunca se sentiu a vontade com a situação, apesar de ir a Etiópia participar de um treinamento militar. Mas quais eram mesmo as opções?
Em 1962 (agosto) Mandela foi novamente detido. No julgamento, fez sua própria defesa. Segue com minha tradução: “estou sendo acusado por leis escritas por um parlamento que não me representa (…) Nesta corte estou em frente à um juiz branco, acusado por um promotor branco e escoltado por soldados brancos. Pode alguém, sincera e seriamente, achar que neste tipo de atmosfera a balança da justiça é honesta?” Ele se considerou “Não culpado”.
Após o depoimento de sessenta testemunhas de acusação, Mandela, que não quis chamar testemunhas, se auto-declarou “culpado de nenhum crime” e se defende com um discurso que inicia sua reputação internacional: “(…) as terras pertenciam à tribo dos meus antepassados que eram livres e iguais e isto era a base do governo e formaram as sementes de democracia revolucionária, que me inspira bem como os meus companheiros”. Mandela foi condenado a três anos na cadeia de Pretoria. Menos de sete meses depois, e sem aviso, foi mandado a Robben Island, onde começou a quebrar pedras com outros prisioneiros políticos.
Em julho de 1963 ele volta a Pretoria para responder a nova acusação: o endosso e suporte ao documento “Operação Mayibuye”, que havia sido encontrado numa batida policial, e arquitetava um plano de desencadear a guerrilha urbana na África do Sul. Mandela conhecia o manuscrito, mas entendia que ele era um rascunho, nunca havia sido aprovado pelo ANC e era completamente irreal, pois previa até ataques aéreos a prédios do governo (onde eles arrumariam os aviões?).
Em sua nova defesa Mandela declarou que eles e seus aliados não queriam a guerra civil, mas ela parecia cada vez mais inevitável, frente à inflexibilidade do governo do apartheid. A sabotagem deixaria a economia sul-africana cada vez mais fraca (já haviam sanções internacionais) e os eleitores brancos reconsiderariam suas posições. Deixou claro a distinção entre os ideais do ANC e o dos comunistas e fez uma defesa tenaz da democracia, elogiando o parlamento inglês como “o mais democrático do mundo” e mesclando autobiografia com panfletagem política “tenho lutado contra a dominação branca e contra a dominação negra….este é um ideal pelo qual estou preparado para morrer”. Este discurso foi publicado em todos os jornais sul-africanos da época e é considerado o principal discurso de um político local. O sucesso da crítica foi um fracasso para a defesa: prisão perpétua e o retorno a Robben Island.
Mandela passou então dormir no chão (até 1977) e trabalhar nas pedreiras de cal da ilha, vendo a Montanha da Mesa e as luzes da Cidade do Cabo ao longe. Os prisioneiros políticos brancos ficavam em Pretoria e eram carpinteiros ou jardineiros (a discriminação era implacável até na cadeia). Ele tinha direito a duas cartas e duas visitas por ano, normalmente feitas pela nova esposa Winnie (meia hora e nenhum contato físico).
A única parlamentar a fazer-lhe visitas foi Helen Suzman que ajudou a amenizar o sofrimento dos prisioneiros da ilha. Mandela era bem tratado por carcereiros e companheiros. Aparentemente apenas os presos políticos mais jovens não o respeitavam, atitude que Mandela não recriminou tampouco tentou reverter, já que isso implicaria em , ter que bajulá-los. Nelson Rodrigues tinha razão: como jovem é chato!! E eu complementaria dizendo, principalmente os politiqueiros (sei que porque fui um deles).
No final da década de 70, Mandela tinha acesso a jornais e revistas. Escreveu uma autobiografia, meio-escondido, meio-aprovado pelos carcereiros. Porém seus “bons companheiros” não gostaram de suas críticas (e autocríticas) a alguns rumos que o movimento tinha tomado e o trabalho não foi publicado. Quando a existência da sua autobiografia não autorizada tornou-se pública, Mandela perdeu novamente o direito aos estudos.
Em 1982, ele foi levado, aparentemente sem motivo, a outro presídio chamado Pollsmoor situado nos arredores da Cidade do Cabo. O lugar não era tão bom quanto o anterior. Mas enfim, setores do governo já antecipavam a possibilidade de começar a dialogar com os líderes do ANC. Assim, em 1985, lhe ofereceram a liberdade condicional. Ele aceitou? Não perca o próximo capítulo, pois apesar de o leitor já saber o final, o roteiro vale a pena.




agosto 7th, 2007 at 21:45
Ronaldo,
Muito bom o blog. Tenho usado para leituras com meus alunos. Tem aberto mais a visão destes bem como a minha visão. Discussões interessantes e atuais. Professor Ronaldo parabéns. O senhor e a Adriana merecem mesmo a homenagem. Vocês, bem como outros professores que se esforçam bastante, são exemplos que nos inspiram a sermos melhores profissionais e seres humanos. Sucesso e vitórias(E que o nosso Palmeiras melhore).
até breve, Ilvan.
agosto 8th, 2007 at 15:19
Um abraço pra você e seus alunos Ilvan.
ronaldo
março 26th, 2009 at 22:32
Adorei o texto, gostaria de ler o resto.
Exite um filme muito bom que fala sobre as prisões de Mandela e como tornou-se presidente: Mandela, a cor da liberdade. Eu indico.
dezembro 22nd, 2009 at 12:22
OUVE ALGUM ATAQUE COM BOMBAS POR PARTE DE NELSON MADELA, E ESSE ATAQUE COM BOMBAS ATINGIU UM ONIBUS ESCOLAR COM CRIANÇAS?
abril 30th, 2010 at 19:43
nossa vc ñ pode resumir isso não??
esta muito grande
maio 20th, 2010 at 17:05
vca poderia colocar mais fotos
agosto 24th, 2010 at 1:38
PARABENS PELA TRABALHO TEM ME AJUDADO MUITO