A década de 80 foi ruim para a economia da África do Sul. A vigilância das leis do apartheid tinham alto custo, a inflação estava acima dos 10% (ano), muitos brancos eram pobres e começaram a deixar o país em busca de dias melhores na Europa e EUA. A população negra crescia numa taxa muito superior à branca e havia crescentes embargos externos à economia sul-africana por causa do regime político, incluindo boicotes esportivos. Protestos continuavam dentro (com Winnie Mandela, principalmente) e fora do país. E então, o governo fez a mesma pergunta que Mandela no início dos anos 60: quais as opções? Neste caso: dialogar.
Tom Lodge, autor de “Mandela a critical life” (Mandela uma vida crítica, Oxford University Press, 2006, 274p.) explica que quando ele foi transferido do presídio da Prisão de Robben Island para Pollsmoor nos arredores da Cidade do Cabo, em 1982, membros do governo já antecipavam a possibilidade de negociar com os líderes do ANC, o partido dos negros, então na ilegalidade.
De fato, em 1976 o ministro da justiça Jimmy Kruger, ofereceu uma redução de sentença a Mandela e seu retorno à vida pública, pois, segundo o ministro, “com ele dava para trabalhar, mas não com seus colegas”. Mandela, fiel ao partido, recusou. Em 1981, um relatório sobre a personalidade de Mandela deixou o governo de cabelo em pé: “…a prisão tem servido para Mandela aumentar sua postura psico-política e ter a certeza da própria vitória…”.
Em 1985, o primeiro ministro P.W. Botha fez uma oferta no parlamento: se Mandela renunciasse à violência teria a liberdade. Ele recusou, também publicamente, numa carta lida num estádio em Soweto, pois “eu não sou violento (….) e que liberdade era esta que proibe a formação de uma organização política?”. No mesmo ano Mandela escreveu ao ministro da justiça, Coetsee, pedindo uma audiência. Não recebeu resposta, mas meses depois o ministro o visitou no hospital, internado que estava após operação de próstata. Mandela o saudou: “Ah. Mr. Coetsee. Prazer
Seguiram-se a partir daí diversas reuniões com o ministro e seu comitê nomeado para ouvir e discutir com ele as expectativas das mudanças. Na verdade, Mandela sempre foi muito claro em seu objetivo: um homem, um voto. E era justamente isto que o governo branco não queria.
Aqui vale acrescentar algo sobre PW Botha o primeiro ministro desta época. Ele foi o quinto dos seis líderes do Partido Nacional desde a chegada ao poder na eleição de 1948, por ordem cronológica: DF Malan, JG Strijdom, HF Verwoerd, BJ Vorster, Botha e FW de Klerk. O governo de Botha teve duas faces. A primeira e terrível foi que o “porão” de sua ditadura, prendia, torturava e matava os inimigos do regime (não há consenso sobre seu consentimento). Ganhou o apelido de “Pinochet da África”, além do mais famoso Groot Krokodil, que quer dizer Grande Crocodilo em africâner.
A segunda face foi a reformista: estabeleceu uma câmara tripartite dando voz e voto a indianos e coloureds (os mestiços locais); reestruturou municipalidades e favelas devolvendo responsabilidade aos negros dentro de suas “próprias áreas” e aboliu a odiosa lei do passe. Finalmente estimulou seu ministro a conversar com Mandela, e teve a iniciativa de se encontrar com o famoso ex-presidiário em julho de 1989, um mês antes de renunciar e passar o cargo a de Klerk que mais tarde dividiria o Nobel da Paz com Mandela, por seu auxílio na transição pacífica.
Em outubro de 2006, Botha morreu. Acompanhei o noticiário nos jornais e TV. Não houve nenhuma palavra de desabono ou recriminação. A tônica dos discursos de todos os líderes negros que foram às cerimônias oficiais, era de reconhecimento aos avanços de liberdade que o governo do Grande Crocodilo possibilitou. Acho que o leitor ainda se lembra que logo depois, o General Pinochet “original” morreu. Houve protestos inflamados (pós e contras) nas ruas de Santiago. Vai ver é nosso sangue latino…. Se o Brasil tivesse alguma relevância mundial, o apelido mais indicado para Botha seria “Geisel da África”.
Em fevereiro de 1990, o novo primeiro-ministro de Klerk, apesar de anunciar a legalidade do ANC (partido de Mandela), ainda procurava um meio de manter seu partido de brancos no poder e evitar a todo custo a regra da maioria: um homem, um voto. Uma das propostas era uma legislatura, composta pela câmara de deputados eleitos pela maioria simples e um Senado, com poder de veto, dividido igualmente entre os principais partidos.
Foi uma fase difícil para os sul-africanos (imagine se tivessem sangue latino….). Muitos fugiram com medo de uma guerra civil. Mandela se tornou presidente do ANC em 1990, o que significava que a vitória do seu partido, o faria primeiro-ministro.
As negociações sobre pontos da nova constituição continuavam entre o ANC e o governo, com grupos radicais dos dois lados fomentando o ódio entre seus pares. Em abril de 1993, Mandela aparece na TV pedindo calma por causa do assassinato de Chris Hani, um ex-guerrilheiro que não se conformava com a democracia, buscando sempre “a vitória total” (outros, ainda prisioneiros da Robben Island, pensavam da mesma forma). No mesmo ano Mandela recebe, com de Klerk, o Nobel da Paz. Na cerimônia em Oslo, a relação entre ambos já estava desgastada. Tom Lodge acha que para uma personalidade como Mandela, não é muito fácil dividir a autoridade moral. Eu já penso que o de Klerk exagerou em pedir um senado dividido por “partidos” no caso, “raças”.
Em 1994, o ANC vence a eleição geral, com 62% dos votos (o feito foi repetido em 1999 com 66%. Os negros perfazem 75% da população total e os brancos 13%). Em seu governo, Mandela montou a Comissão de Verdade e Reconciliação para julgar crimes do apartheid que foi presidida por Desmond Tutu. A comissão concluiu, como a ONU, que o apartheid era um crime contra a humanidade, porém destacou a diferença ente “guerra justa” (e.g. a oposição ao apartheid era justa) e “meios justos” (terrorismo não era justo) e o ANC também foi culpado de grandes violações aos direitos humanos: “Há uma equivalência legal entre todos os perpetradores. Suas afiliações políticas são irrelevantes”.
O governo de Mandela foi de reconstrução. Ele teve que unificar a burocracia, dividida em, por exemplo, ministérios da educação para brancos e outro da educação para negros. Não deve ter sido fácil. Ainda não terminou. Além disso, o governo enfrentou a chegada de um enorme contingente de imigrantes de países vizinhos assolados por guerras (Estive no Zimbábue à pouco tempo e mesmo aqueles que estão empregados por lá, ainda querem vir a África do Sul que funciona como os “EUA do continente”). Atualmente as fronteiras são muito bem protegidas para evitar os clandestinos.
Lodge termina seu livro dizendo que Mandela, como um herói democrático moderno, com falhas reconhecidas, nunca foi, nem quis ser, unanimidade, pois seu estilo político mostrava que era possível e necessária a participação de todas as pessoas. Já ouvi gente falar que quando ele morrer, a paz na África do Sul ficará ameaçada. Acho difícil. Ele construiu a base institucional do regime democrático, além é claro de, com seu exemplo, ensinar as pessoas a justa medida do diálogo.
Hoje, Mandela está casado com Graça Simbine Machel (ex-ministra da educação de Moçambique) e passa a maior parte do tempo em Maputo (capital de Moçambique).





agosto 17th, 2007 at 20:16
Belo artigo,com riqueza de informação e clareza. a Vida e Obra de Mandela nao podem ser esquecidas, parabens!
voce tem algumas coisas sobre as igrejas no tempo do apartheid??? ou informação sobre algum texto sobre este assunto?