Walsh e colaboradores, em publicação na Ecology Letters de 2006 avaliaram os efeitos da evolução induzida pela pesca tamanho-seletiva submetendo populações de Atlantic silver side a regimes de pesca experimental. Em um dos tratamentos eles concentraram os esforços de captura sobre os maiores exemplares, no segundo tratamento os esforços eram sobre os menores exemplares e no último a pesca era aleatória. O tratamento em que foram pescados sempre os maiores exemplares, ao final de cinco gerações, resultou em queda substancial na fecundidade, volume dos ovos, tamanho das larvas, viabilidade e taxa de crescimento das larvas, taxas de consumo e conversão alimentar, número de vértebras e disposição em alimentar-se após stress. Este estudo demonstrou que a retirada de peixes grandes do estoque pesqueiro pode gerar alteração em várias táticas de vida, que são determinadas geneticamente, reduzindo a capacidade de uma população em recuperar-se após sobrepesca.
Assim, a pesca amadora será monitorada no reservatório de Serra da Mesa, com três objetivos principais: a) conhecer a “saúde” do estoque pesqueiro das duas espécies de tucunarés; b) verificar se tucunarés maiores produzem gametas maiores e em maior número que os peixes menores; c) verificar se peixes do mesmo tamanho possuem idades diferentes.
Perceba, caro leitor, que aqui temos mais duas hipóteses: tucunarés de maiores comprimentos têm gametas maiores em tamanho e número do que tucunarés menores e tucunarés de mesmo comprimento têm mesma idade. Para isto, duas alunas de iniciação científica, estão coletando e iniciando a análise de gônadas e otólitos de tucunarés de diferentes comprimentos. Assim, se os maiores exemplares forem efetivamente mais fecundos, demonstraremos a importância de se impedir a captura de peixes grandes, que transmitirão os genes de tamanho grande.
Ainda, dois outros alunos estão agora, fazendo o estudo da genética dos tucunarés e de outro predador de topo, o Hoplias sp. As hipóteses são: a) que tucunarés menores são mais aparentados entre si que os maiores; b) por ser um predador do tipo senta e espera, tucunarés pegos dentro de um braço do reservatório, apresentam menor variabilidade genética, em comparação com tucunarés de outros braços do mesmo corpo d’água (as mesmas hipóteses cabem para a traíra).
Muitos trabalhos têm apontado que um estoque pesqueiro tem boa saúde quando 20% dos peixes capturados é de mega-reprodutores e que estes são indivíduos com comprimento 10% maior que o comprimento do tamanho ótimo, ou seja, tamanho que na exploração pesqueira fornece o rendimento máximo sustentável.
De posse de todas estas informações, pretendemos demonstrar a importância de se manter os grandes peixes (mega-reprodutores) na água e estabelecer o tamanho máximo de captura para as duas espécies de tucunarés, através de Instrução Normativa (IN) conjunta do IBAMA e do Ministério da Pesca e Aqüicultura.
Assim, após publicação da IN será estabelecido pela primeira vez no Brasil o tamanho máximo de captura, medida que foi um sucesso para recuperação dos estoques de robalo na costa norte americana.
È interessante ressaltar que todas as vezes que conversamos deste projeto com pescadores, todos gostam de comparar os peixes com o gado ou com as galinhas, pois os próprios pescadores afirmam que o criador de gado abate as novilhas e não o maior boi reprodutor ou abate os frangos e não os galos reprodutores, entretanto os pescadores agem ao contrário, e sempre querem levar os “grandes troféus” para casa.
Com este trabalho multidisciplinar pretendemos unir comunidade científica, órgãos de gestão ambiental e os usuários dos recursos naturais, visando não só produzir conhecimento científicos, mas aplicá-los o mais rápido possível na gestão dos recursos pesqueiros do estado de Goiás e por fim, mas não menos importante, pretendemos com a participação de alunos de graduação multiplicar agentes atuantes nesta área de conhecimento e aumentar o esforço na pesquisa e gestão dos recursos pesqueiros goianos, que até o momento foram tão pouco priorizados tanto pela comunidade científica quanto pelas autoridades ambientais do governo.
O filósofo Sartre uma vez disse que “nenhum homem é uma ilha”, no sentido que as relações inter-pessoais são fundamentais para o desenvolvimento do ser humano. Consideramos que sua frase pode ser aplicada aos peixes, como bem colocada pelos criadores do Ecopath (V. Christensen e D. Pauly) e reproduzida no titulo deste artigo, e aplicada também às instituições que ao trabalharem juntas, complementam-se para alcançarem um mesmo objetivo.
Até o momento o IBAMA e as pousadas são os maiores financiadores do nosso projeto.
Publicado originalmente no Boletim da Sociedade Brasileira de Limnologia. Clique aqui.
Algumas Referências
Angelini, R. & Gomes, L.C. O artesão dos ecossistemas: construindo modelos com dados. Eduem, 129p.
Olsen, E. M.; Heino, M.; Lilly, G. R.; Morgan, M. J.; Brattey, J.; Ernande, B.; Dieckmann, U., 2004. Maturation trends indicative of rapid evolution preceded the collapse of northern cod. Nature, v.428, p. 932-935.
Walsh, M. R.; Munch, S. B., Chiba, S., Conover, D.O, 2006. Maladaptive changes in multiple traits caused by fishing: impediments to population recovery. Ecology Letters, 9, 142–148.


fevereiro 17th, 2011 at 16:40
muito bom o seu blog!
eu sou bióloga e monitora no Museu de Ciências Morfológicas da UFRN estamos com planos de por nosso blog no ar, enquanto isso poderia nos seguir no twitter
@MCM_UFRN
bjnhs
julho 24th, 2011 at 1:06
Adorei o blog, o entusiasmo pela divulgação científica é notável.
Recentemente, eu e um grupo de amigos criamos um blog para tentar divulgar o conhecimento para jovens e adultos de forma descomplicada. Ainda temos poucos post, mas seria um prazer receber a opinião e o apoio de quem está muito mais tempo …
setembro 26th, 2011 at 23:05
Olá pessoal, adorei o site parabéns. Estou precisando com urgência a livro do Alberts Biologia Molecular da Célula em português,por favor quem souber onde posso baixar me avise