É preciso dizer uma verdade: o relatório do IPCC, Carbon Dioxide Capture and Storage (Captura e Estoque de Dióxido Carbono) de setembro de 2005 foi mal diagramado, as figuras são insuficientes e o texto não responde o que todo mundo quer saber. Pra quem não leu: ele não fala nem quanto o mar ou a temperatura vão subir.
A Figura 7 do Resumo (confira abaixo), que mostra os cenários de emissão de CO2 (2005-2095), com ou sem as medidas de mitigação é confusa e a legenda diz: “Este exemplo é baseado num simples cenário e, portanto, não cobre o intervalo inteiro de incertezas”. Afinal: posso ou não confiar na extrapolação? As outras figuras ficariam lindas em cartolinas de trabalhos de colégio. Além disso, eles poderiam ter feito a gentileza de colocar o seguinte gráfico: no eixo X, o tempo (1900-2100), no eixo Y1, a temperatura e no Y2, o CO2 (pra fazer este tipo de gráfico, vá pro Excel e escolha gráfico, depois, tipos personalizados, e linhas em dois eixos). É pedir demais, colocar o intervalo de confiança?
Para fazer as simulações sobre temperatura, nível do mar e furacões, o leitor tem que procurar outras fontes. O relatório dá como pressupostas as relações de causa-e-efeito entre CO2, temperatura, vapor d’água e implicações, deixando a entender que o ponto de interrogação sobre a influência humana, já havia sido retirado em outros relatórios. Minha impressão é que um documento que se pretende fundamental teria que ser mais explícito. Como se dizia no meu tempo, nota cinco-bola (5,0) pros “400 de Paris”. O relatório se atém ao CO2 e ao chamado CCS (sigla de Carbon dioxide Capture and Storage), falarei mais abaixo.
Tem mais crítica. O livro do Marcel Leroux de 2005, Global Warming: myth or reality que ataca duramente as previsões sobre o aquecimento global, apesar de ter sido lançado pela conceituada editora Springer, parece que foi feito numa Olivette com cópias em mimeógrafo (pra quem é jovem, mimeógrafo é um aparelho que a gente tinha no Centro Acadêmico, você põe o papel-carbono nele, ….papel carbono??? deixa pra lá!).
Tudo bem, a vida é difícil, as pressões são muitas, mas, ô pessoal, usem lápis no 2 e bem apontado. É eu sei, o que importa é o conteúdo…, inclusive este blog poderia ser mais caprichado, porém estamos falando de 400 cientistas, da Editora Springer e não do Bafana.
Também sair dizendo que o ponto de interrogação foi retirado é de uma arrogância desnecessária e quase inacreditável (declaração de Achim Steiner, diretor-executivo do Pnuma – Programa de Meio Ambiente das
Nações Unidas). Primeiro por que modelos matemáticos têm que continuar sendo retro-alimentados por dados que podem variar e modificar as projeções. Segundo: se foi retirado, então não precisa mais de verba pra estudar o assunto, certo? A gente já sabe a resposta mesmo… Conheço um laboratório lá em Anápolis que tá precisando de um recurso pra acabar uma obra atrasada por causa da chuva. Será que não dava pra realocar a grana? (hehehehe…).
O relatório trata exclusivamente do CCS, cuja preocupação maior é estocar o carbono em outro local que não a atmosfera. Os candidatos a reservatórios são: o oceano e certas formações geológicas (como minas abandonadas ou salinas). Esta última (um aterro sanitário pra CO2) é melhor opção que a dos oceanos, pois é “muito provável” (90-99%) que o CO2 não fuja de lá.
Para os oceanos o relatório diz que o CO2, por ser mais denso que a água, formaria “um lago” (as aspas são do relatório) no fundo do mar, que retardaria a dissolução de carbono no ambiente circundante. O impacto disto está em “fase de pesquisa”, ou seja, não foi analisado em escala industrial e a gigantesca bolha de CO2, muito provavelmente, não explodirá.
Para transportar o CO2 até estes reservatórios, é bom saber que gasodutos saem mais barato que navios e, em pequena escala, caminhões podem ser usados. Outra forma de estocar carbono é a fixação industrial em carbonatos inorgânicos (dá pra fazer tijolos, estradas), mas não colaboraria tanto com as reduções das emissões por que o processo não é tão simples.
Os custos podem variar bastante, mas a estimativa é que o sistema CCS encareceria a produção de energia em
A primeira pergunta para o Brasil é se nosso sistema de geração de energia elétrica agüentaria um aumento de consumo da indústria (10-40%) e o crescimento de 3 ou 4% no país (fica pras próximas esta resposta). Outra questão que envolve o Brasil é a produção de bio-combustível e as negociações com os EUA sobre o assunto já se iniciaram.
A MB Consultores Associados (informação da Folha de SP de 12/01/07 por Luiz Carlos Mendonça de Barros, mas tirei daqui) diz que o Brasil tem 100 milhões de hectares de terra pra produzir cana ou soja. O ex-ministro ainda prevê que quando o Brasil virar um imenso canavial (o trocadilho infame é meu), dois problemas surgirão: “aumento de preço dos alimentos e valorização perene do real”. Sobre a natureza ele não diz nada, mesmo em se tratando de 11,7% de todo território. O Brasil já quis ser o celeiro do mundo. Agora se pretende posto de combustível. Como diria o Adoniran Barbosa, é o “progréssio”. Não dá pra só vender os royalties?
O leitor deve estar a perguntar, “mas afinal, sabichão, o que fazer?” Bem, nada muda. Do que vi em outras fontes daqui 80-100 anos o mundo estará mais quente, o m
ar mais alto e de vez em quando rolarão uns furacões. A recomendação do Sr. Steve Ryner (que não é nenhum cético) no editorial do periódico, Global Environmental Change, é boa: aumentar a capacidade suporte (buffer) do ambiente, principalmente das cidades. Assim, é necessário replantar a mata galeria e fazer tratamento de esgoto pra proteger rios e lagos, plantar florestas pra absorver gás carbônico e tentar manter o ciclo d’água em ordem, bem como diversificar a matriz energética, reciclar lixo, estas coisas. Por vias das dúvidas é bom morar longe da costa e dos rios.
Ok. Mas ainda tem que arrumar o asfalto, fazer a rede de esgoto, combater a violência, saúde pública, previdência, educação, etc… Pois é! Quais são as prioridades? Atualmente, na África do Sul os maiores problemas são: violência e transporte público. Meio-ambiente? Tem que cuidar na medida que atrai turistas e dinheiro.
Toda esta arrumação de casa incrementaria a emissão de gás carbônico. Sabe que vale o risco? Acompanhe: se é muito provável que o cenário mais catastrófico ocorrerá, então não tem jeito mesmo. Resta-nos queimar combustível fóssil pra aprimorar nossas vidas nas cidades. Daqui a 80 anos se o mundo for mesmo “dar tilt” elas talvez consigam suportar o impacto. E se nada do previsto ocorrer, a vida estará melhor, assim como hoje é melhor que em 1906.
Nada muda. Uma lei ambiental mais dura aqui, um pouco mais de fiscalização acolá, um adicional de recursos pra pesquisar o clima, o CCS toma lugar dos ISOs mil e tantos, o preço da taxa de água aumentará pra tratar esgoto e a vida segue. Há ainda uma previsão do INPE de savanização da Amazônia. Desta forma, por causa da seca e do calor, as árvores seriam substituídas por espécies de menor porte, mais esparsas. O cerrado se tornaria um deserto ou quase.
Bem, e o canavial, hein? Será que agüenta? Tá bem, as cidades do interior de São Paulo, são legais (assim, assim…), e vivem no meio da cana. Mas plantar mais? Este não pode ser o caminho. Outra alternativa sugere plantar árvores e viraríamos “guarda-parque”, caseiro de CO2 ou dono de pousada. Aqui em casa esta última é unanimidade.
O negócio é continuar vivendo. Nada muda. Por falar nisso será que re-gravaram aquela música da Bethânia pro carnaval? “Acreditei que o mundo ia se acabar / Fui tratando de me despedir / E fui tratando bem depressa de me aproveitar /…” e segue com “Maria Escandalosa”. Nestes tempos, faria o maior sucesso.
Confira o Relatório do IPCC: Carbon Dioxide Capture and Storage na íntegra aqui.


fevereiro 11th, 2007 at 14:50
Oi Reinaldo. Descobri o Bafana hoje e coloquei um link lá no SEMCIÊNCIA.
fevereiro 12th, 2007 at 18:01
Eai Ronaldo,
dia 14 agora, aqui no INPA, vai ter uma palestra, dentro dos Seminários da Amazônia, sobre o relatório do IPCC em relação à Amazônia.
acho que não vou ter paciência pra assistir, mas seria interessante ver qual será a abordagem… pelo resumo, parece que eles não questionam a validade do relatório..
inté
Aquecimento Global: Implicações do Relatório do IPCC para a Amazônia*
Palestrantes: *Dr. Antonio Manzi, pesquisador do Projeto LBA/INPA e Dr.
Philip Fearnside, pesquisador da Coordenação de Pesquisas em Ecologia
CPEC**/INPA***
*RESUMO:*
O Painel Intergovernamental em Mudança do Clima (IPCC) divulgou no dia 02/02, uma síntese de seu quarto relatório de avaliação do sistema climático, dirigido aos tomadores de decisão (governos, grandes corporações, etc). Trata-se das concluões do conhecimento em mudanças climáticas preparada pelo Grupo de Trabalho I do IPCC, onde
foram analisadas evidências das mudanças globais, calculadas as
forçantes radiativas e feitas projeções futuras com modelos climáticos. Na primeira parte do seminário será apresentado um resumo dos principais resultados do relatório. A segunda parte do seminário abordará as implicações das projeções futuras de evolução do clima para a Amazônia.