No longínquo ano de 1860 o governo norueguês implantou aquele que é conhecido como o primeiro sistema de monitoramento de desembarque pesqueiro. Os “frios” noruegueses queriam saber quanto e quais peixes estavam tirando do mar. Eles tinham certeza que sem esta informação ficaria praticamente impossível, manter a pesca em níveis sustentáveis ou mesmo aumentar a produção.
Este domínio da chamada estatística pesqueira passou ser praxe também em outros países e hoje em dia no site da FAO (Food and Agriculture Organization http://faostat.fao.org/) é possível você encontrar grandes séries de dados (espacial e temporalmente distribuídos), mostrando a dinâmica pesqueira do mundo todo.
Infelizmente, nem todas as nações são rigorosas com suas estatísticas pesqueiras e_ ó verdade cruel_ o Brasil está entre eles. Assim, não sabemos direito o que nossas águas (marinhas e continentais) produzem de pescado, muito menos se a pesca é sustentável ou se podemos aumentar a produção. É claro que o nosso caso é mais difícil de resolver que o da Noruega, que não deve ser maior que o Espírito Santo ou algo similar (não vou conferir o tamanho, mas você entendeu o espírito da coisa…). Existe um zilhão de tipos de pesca no Brasil (redes com diferentes usos, também temos flechas, “covos” e linhas para todos os gostos…) e mais zilhão e meio de locais de desembarque. Sem falar da gente mesmo. A coisa vem assim, assim, desde o tempo da monarquia, como ensinou a Carmen do Instituto Oceanográfico da USP (“o país está sempre em transição, perturbando a atividade…” muito boa esta, professora.).
Para tentar solucionar o problema, cerca de 60 profissionais da pesca se reuniram nos dias 23, 24 e 25 de agosto em Brasília no 1º SENAPE – Seminário Nacional de Monitoramento e Estatística da Atividade Pesqueira (http://www.inpe.br/SENAPE/). Foram três dias de discussões, com mostras das respectivas experiências de coletar dados de desembarque em vários pontos do Brasil.
A palavra estatística vem de Estado e muitos acham ser obrigação única dele o controle e monitoramento de qualquer variável, pois mais e melhor informação, só tende a aprimorar o planejamento/ordenamento de qualquer atividade, mesmo que seja, pra usar a expressão do Ricardo Semler, uma Gestão por Omissão (Não é incomum fazermos isto baseados no desconhecimento. Como diria aquela hiena que conheci na África da minha infância: Isto não vai dar certo. Ó vida, ó azar…).
Com as exceções apresentadas no SENAPE (em *.pdf logo mais no site do evento) e talvez outras que não tiveram chance/convite para expor (desculpe gente, o SENAPE não foi, definitivamente, uma prima dona) ainda carecemos de um sistema nacional, unificador e flexível, mas que acima de tudo intensifique a coleta dos dados pesqueiros o mais rápido possível.
Entre o que vi, vou tomar a liberdade de falar sobre o monitoramento pesqueiro que foi interrompido no reservatório de Itaipu. Vinha ocorrendo desde 1983 quando o reservatório se formou engolindo “Sete Quedas”. Alavancou um conceituado grupo de estudos no assunto, o Nupelia (http://www.uem.br/redirect.php?to=www.nupelia.uem.br) que deu suporte para medidas que tornassem a pesca responsável que sustenta pescadores, famílias, e envolvidos, além de aumentar os chamados usos múltiplos do reservatório.
Hoje, a atual concessionária hidroelétrica, com muitos homens do governo no comando, resolve diminuir custos, já que tal atividade consome, nos meus rápidos cálculos, sagrados 4 (quatro) minutos de geração de energia, num ano de 525.600. Este é um “país de todos”, companheiro, mas a vida é dura. Temos que fazer nossos sacrifícios.
Uma pena que a inclusão social de um grupo, só vem depois da sua inclusão política. Não era para ser assim, mas é. Os noruegueses coletaram os dados, estudaram o assunto e mesmo assim o estoque veio abaixo. Ainda hoje não há consenso sobre o motivo. Mas é mais racional que tentar na base do “o pescador vende sem medir e o comprador compra sem contar” (1).
Contar os peixes que o homem captura. Aqui, por n motivos, não é tão simples como parece. Cada um faça sua parte. A gente vai conseguir. O Brasil é o país do futuro.
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Patrocinadores do SENAPE (por ordem alfabética): Ibama, Inpe, Pró-Várzea, SAPESP, SEAP/PR e SINPESCA (PA e AP).
(1) a palestra do Prof. Ronaldo Lobão (na abertura) foi muito instrutiva. Parabéns!

