Freak Brothers é o nome de uma antiga revista em quadrinhos sobre três amigos que só pensavam “naquilo” o que na década de 70 significava: dinheiro sem trabalho, sexo, rock’n roll e drogas, com predileção por esta última parte. Acabavam sempre enrascados em mil situações hilárias (Freak quer dizer extravagante, hippie, ou as duas coisas de uma só vez).
Pra desespero dos puristas da nossa língua, as editoras Campus e Elsevier lançaram em português, na tradução da professora da PUC-RJ Regina Lyra, o livro Freakonomics: o lado oculto e inesperado de tudo que nos afeta: as revelações de um economista original e politicamente incorreto do economista Steven D. Levitt e do jornalista Stephen J. Dubner.
O fato do selo da editora Elsevier (um dos mais bonitos no mercado de livros) subsidiar a obra não é irrelevante já que a Elsevier é uma das editoras mais consagradas no meio científico, além de uma das mais tradicionais na Europa. Nascida na família holandesa Elzévier, ficou famosa no século XVI pela edição de romances no formato in-12º, hoje conhecidos como “de bolso”.
Voltemos ao livro que apesar do nome não tem nada de maluco-confuso (tradução alternativa para freak). As premissas lógicas da dupla de escritores são: as pessoas reagem a incentivos (quer econômicos ou não), e, às vezes, trapaceiam; o senso comum em geral está equivocado e por fim, é importante observar, medir, fazer as perguntas certas e usar a técnica adequada para analisar os dados.
Dados (informações quantitativas) não faltaram para Levitt & Dubner. Aliás, o livro está recheado de grande conjunto deles e mostra a salutar obsessão americana pela coleta acurada de informações de diferentes populações (de alunos, atletas ou criminosos). Aqui no Brasil, pobre gente, o governo federal anda cortando recursos do IBGE, o principal órgão provedor destas informações essenciais para o planejamento (este é só mais um motivo pelo qual Lula é mais parecido com Collor do que com qualquer outro presidente, pois o nordestino Collor segurou os recursos para a realização do censo de 1990).
Os conjuntos de dados analisados pelos autores são os mais variados possíveis, indo de resultados de lutas de sumô até levantamentos minuciosos de um vendedor de rosquinhas caseiras e de um traficante de crack formado em Administração Superior. Para estes dois últimos casos vale se gastar alguns parágrafos.
Paul Feldman, um economista agrícola, começou a vender rosquinhas em escritórios de contabilidade. Seu procedimento, como se diria na década de 80, era “coisa de 1º mundo”: ele deixava seus quitutes no início do expediente nas cozinhas dos escritórios, junto com uma caixinha pro consumidor depositar seu gasto. Ninguém vigiava. A tarde passava para pegar as “quitandas” (como os goianos chamam) não consumidas e o dinheiro. Depois de 20 anos anotando cuidadosamente a contabilidade do negócio, Feldman descobriu que:
a) uma empresa que efetuasse o pagamento de 90% das rosquinhas era “honesta” e entre 90 e 80% era considerada “inconveniente porém tolerável”;
b) o índice geral de honestidade foi de 87% tendo aumentado 2% depois do atentado de 11 de setembro devido à comoção nacional;
c) escritórios menores são mais honestos que os maiores, provavelmente pela possibilidade de maior vergonha (incentivo social) se o criminoso for pego num escritório menor;
d) muito calor é prejudicial pra honestidade;
e) dentro de uma mesma empresa os departamentos são mais honestos que as diretorias. Será que quem está na diretoria chegou lá por ser menos honesto de quem está abaixo?;
f) escritórios onde o clima de trabalho é tranqüilo e o chefe é carismático são mais honestos que os competitivos. A conclusão de Feldman é que tem muito mais gente honesta nos escritórios e, por conseguinte no mundo, do que desonesta. Um índice de 87% é bastante alto para o chamado “selvagem” mundo capitalista.
Crack e McDonald’s
Numa manhã chuvosa em 1989, depois de acordar de mau humor, o jovem matemático indiano Sudhir Venkatesh formado na Universidade da Califórnia, foi tentar um PhD em sociologia na Universidade de Chicago. Seu orientador o mandou para campo, no caso, os bairros negros mais pobres da cidade dos Bull’s do basquete. Após jogar fora o inútil questionário que havia montado, Venkatesh decidiu “vivenciar o cotidiano” (só pra usar o pernóstico jargão sociológico) de uma gangue de jovens traficantes de crack e foi, então, autorizado pelo líder, J.T., que formado em administração entendia a importância da pesquisa científica e da coleta de dados (Ah! No 1º mundo até traficantes sabem disto. No Brasil tem professor universitário que ainda não chegou neste estágio…).
Depois de alguns anos, tendo adquirido a confiança dos marginais, um deles, Botty (um posto abaixo de J.T.), confidenciou-lhe que iria ser morto por “pisar na bola” e com o sentimento de culpa rondando-lhe a alma presenteou Venkatesh com uma pilha de cadernos com a contabilidade de quatro anos da gangue. Botty achava que os cadernos poderiam ser úteis ao estudo da criminalidade e com isto conseguiria um pequeno salvo conduto para seu próprio juízo final. Estava certo (quanto ao estudo claro, pois infelizmente não dá pra saber se sua alma foi salva…). Assim, depois de virar doutor, com uma tese inteiramente sociológica, Venkatesh conheceu Levitt lhe falou dos cadernos e a análise começou.
A gangue que Venkatesh estudara era apenas uma de outras 100 “franquias” de uma organização maior, denominada Black Disciples comandada por um Conselho de 20 membros que recebia 20% do faturamento bruto de cada uma delas em troca do direito de vender o produto. A pretensão maior do líder da gangue era ser admitido no Conselho. Além do líder, cada gangue tinha três consultores: um xerife (segurança), um tesoureiro (fiscal das finanças) e um mensageiro (transporte de carga), e abaixo deles os soldados (vendedores de rua). No ponto mais baixo da hierarquia havia a ralé (“estagiários” que prestavam pequenos serviços e cujo sonho era ser efetivado como soldado).
O ganho bruto mensal da franquia de J.T. nos anos dourados do crack era de 32 mil dólares (gastos não salariais somavam 14 mil). O salário de um proprietário de franquia era de $8.500, contra $ 40.000 dos conselheiros. Já um consultor ganhava 700 dólares mensais e um soldado não mais que $ 400 (menos que o salário mínimo americano). Conclusão: 2,2% dos membros da organização embolsam mais da metade dos lucros, por isto, concluiu Levitt, os traficantes de rua continuam morando com as mães, pois simplesmente não tinham dinheiro para morarem sozinhos. Além disto, muitos deles tinham empregos legalizados e viviam pedindo a Vekatesh uma colocação de zelador na Universidade de Chicago.
Levitt ironiza sem fazer troça: “enquanto os mauricinhos brancos se esforçam para imitar a cultura rapper do gueto negro, os bandidos do gueto negro se esforçam pra imitar o modo executivo de pensar dos pais dos mauricinhos” e conclui dizendo que o problema do tráfico é o mesmo de todas as profissões glamourosas: um monte de gente competindo por um pequeno punhado de boas posições. No Brasil um exemplo típico destas diferenças é o futebol, onde cerca de apenas 3 a 5% dos jogadores profissionais recebem salários dignos de uma profissão que dura até 35 anos de idade.
Estes casos são maravilhosamente contados no livro, pois em nenhum momento os autores perdem-se em detalhes de metodologia estatística e as citações ficam restritas às inúmeras notas concisas ao final do livro, que ainda é um ótimo exemplo a quem se aventura na divulgação do conhecimento de suas especialidades.
O capítulo que mais chamou a atenção das inúmeras resenhas foi o que mostra que a acentuada (e não prevista) queda na criminalidade dos EUA nos anos 90 se deve à lei do aborto aprovada na década de 70. Basicamente os criminalistas sabem que a probabilidade de um indivíduo tornar-se um criminoso aumenta muito quando ele é pobre e é criado apenas por um dos progenitores. Com a liberação do aborto muitas meninas pobres e solteiras que até então não abortavam, devido aos altos preços desta atividade quando ilegal, passaram a fazê-lo e literalmente diminuíram a população mais susceptível de vir a se tornar criminosa. Outras duas variáveis que auxiliaram na queda da criminalidade, mas em peso menor que o aborto de 20 anos atrás, foram o aumento do número de policiais e penas mais duras aos bandidos.
Para quem gosta de fugir das unanimidades que Levitt & Dubner, citando John Kennet Galbraith, chamam de sabedoria convencional, o livro é um banquete. Pois esta sabedoria convencional não é necessariamente verdadeira, mas sendo simples, auto-estimulante e confortadora é facilmente firmada e então difícil de ser derrubada. Assim, por exemplo, os criminologistas nacionais culpam as armas (daí o plebiscito), a desigualdade social e a falta de crescimento econômico (variáveis que não fizeram nenhuma diferença no estudo americano) como as vilãs da atual insegurança de todos nós. Assim, estes especialistas do alto de suas cátedras universitárias e em colaboração com a mídia esquerdista, produzem o “marxismo convencional”: o crime, ou qualquer mazela da sociedade, é culpa do capitalismo! O resto não importa.
Os politicamente corretos insistem em nos chamar de país “em desenvolvimento” quando, para nós, o subdesenvolvimento além de mais correto é nosso destino. Do modo de vida freak só nos restaram a ressaca, o tempo perdido (com o PT por exemplo) e a preguiça de pensar. E isto não tem a mínima graça.
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janeiro 22nd, 2009 at 18:14
Posso ser meio idiota, até mesmo por ter feito sociologia.
Mas eu estava lendo este artigo sobre o livro freaknomics e lá pelas tantas, do nada, o autor dá uma desancada no Lula ou no governo, que não dá verba pro IBGE, coisa assim.
Putz, é o tipo de coisa que me enche o saco. Ná hora parei de ler, me encheu o saco. Pô, se o cara é tão bom, não fica criticando o outro. Se candidata, vai lá e faz melhor. Ponto.
É chato, gosto eu ou não do Lula, mas o cara tá falando algo e no meio dá história te gospe na cara. Ora eu votei no Lula e não me interessa a opinião pessoal do articulista, pelo menos enquanto estou lendo algo que não é desta seara. De política partidária.
Então pra mim é de um primarismo tosco, o cara aproveitar o ensejo e querer dar uma traulitada em alguém que não está presente e de uma forma meio primária, OK ?