Semana retrasada foi publicado aquele que deverá ser considerado nos próximos anos o relatório mais famoso do Banco Mundial: “o relatório Stern”, que mede a economia mundial segundo as mudanças provocadas pelo aquecimento global. O texto e seus modelos matemáticos receberam elogios e aprovação de laureados com o Prêmio Nobel da Economia (vejam no blog do Marcelo Leite http://cienciaemdia.zip.net/).
Esperando que o Nobel da Economia, não esteja contaminado de politicagem como o da Literatura, é como se o texto recebesse a aprovação científica usual de apreciação pelos pares. Confesso que não li o relatório (afinal são 700 páginas. Alguém, de fato, já leu?). Mas me sinto a vontade pra comentar a entrevista de Nicholas Stern à revista Veja. Eu ainda sou do tempo que o sonho de todo brasileiro era aparecer nas páginas amarelas da Veja, pois isto lhe conferiria, quase que automaticamente, uma mística de inteligência e bom-senso. E o Sr. Stern, por telefone, conseguiu isto, por ter organizado um texto que mede o impacto do aquecimento global na economia mundial.
Ele, e seus colaboradores, acham que o planeta perderá de 5 a 20% do PIB mundial por causa do aquecimento global, mas (em itálico e azul trechos da entrevista): No nosso estudo, falamos em 20% (…). Claro que não são números precisos, porque é impossível prever com segurança hoje impactos que serão efetivamente sentidos dentro de algumas décadas. Tá. Então de 5 a 20 eles escolheram 20, por que é mais “seguro”, isto é, usaram o valor maior com a desculpa do princípio da precaução, mesmo assim não podem prever com segurança. Em frente: Dentro de quarenta a cinqüenta anos sentiremos o impacto do que já fizemos contra o planeta, (…) na forma de desastres naturais (…). Não importa o que fizermos agora, esses efeitos serão sentidos, eles já são inevitáveis. Assim, tudo o que fizermos nas próximas duas ou três décadas só terá impacto no fim deste século.
Parece aquele índio americano “tudo que fizermos a Terra, faremos aos filhos da terra..”. Hum….Volto a repetir, só estou criticando a entrevista (e não o relatório), mas o Sr. Stern é o tipo do pesquisador que não deve contradizer o relatório. Mas quando diz: “Não importa o que fizermos”, o que nos resta? Som na caixa e vamos aproveitar, enquanto os furacões, tempestades, e outras catástrofes, não chegam…
Mesmo assim ele afirma que as emissões de gás carbônico têm que ser reduzidas e calcula que isto custaria 1% do PIB mundial, ou seja, 7 trilhões de dólares. Continuemos: Veja – Em seu estudo, o senhor calcula que os países pobres poderão perder até 10% do PIB. Não é um cálculo exagerado? Stern – As perdas econômicas para os países pobres realmente serão bem maiores do que as verificadas nos países desenvolvidos. [Sempre são]. Esse número (…) será menos do que 10% agora e mais do que isso depois. (…) Pode vir a ser menos do que isso ou mais do que isso. Ah, é? “Pode vir a ser menos do que isso ou mais do que isso”. Vai acertar na mosca, digo, no elefante. Dá pra explicar melhor? Que tal está? : [...] o Brasil utiliza mais energia hidrelétrica do que os outros países e, isto é bom, pois diminui o aquecimento global.
Eu não trouxe comigo, mas se não me engano, em dezembro de 2004 saiu na Ciência Hoje um artigo do Fearniside (o cientista mais citado da Amazônia), dizendo que o reservatório de Tucuruí no Pará emite uma quantidade de metano que é o equivalente, para o efeito estufa, a todo o gás carbônico que a cidade de São Paulo libera. É uma pena o Sr. Stern não ler a CH. Aliás, para quem gosta mesmo da natureza (como eu) este papinho não podia ser pior. Só vai aguçar a vontade de colocar hidrelétrica no Rio Araguaia (um dos poucos do Centro-Oeste ainda poupados), lá no meu Goiás. Assim num dô conta, não!
O impacto de uma hidrelétrica no ambiente é enorme: matam, afogam e diminuem áreas para uma porção de espécies animais e, por vezes, de florestas que consumiriam o gás carbônico. Sem falar nos peixes, principalmente os migradores que são sempre os mais prejudicados. Tem também os “atingidos pela barragem” que perdem suas terras (alguns se aproveitam da situação, é claro) e, no caso da pesca, ficam sem o sustento econômico.
O Sr. Stern ou é por demais educado ou é irônico: o Brasil também investe pesadamente no desenvolvimento de biocombustíveis e vem contribuindo enormemente em termos de pesquisa em novas tecnologias. Ai gente, tem coisas que são difíceis de comentar. Tudo tem limite. Ano passado a Coréia capitalista patenteou mais de 1000 produtos, o Brasil se limitou a uns 50 (Desculpem falo o números de cabeça, os valores exatos estão na Revista Pesquisa Fapesp de maio) e o economista do Banco Mundial vem dizer que a gente contribui com novas tecnologias? Quer enganar quem? Só faltou gritar, Brasil, il, il, il….
Alguns analistas vêem com bons olhos o relatório, pois ele coloca 1% do orçamento mundial numa causa nobre, ou seja, salvar o futuro do planeta. Mas, e os problemas do presente? Só pra confrontar os números do Sr. Stern, em 2004, foi realizado o chamado “Consenso de Copenhagem” encabeçado pelo odiado ambientalista céptico Bjorn Lomborg e por isto mesmo, ignorado pela grande mídia. Reuniram-se vários cientistas e ficou calculado em 27 bilhões, o custo pra impedir o avanço da AIDS, em 12 bilhões para acabar com a fome e a subnutrição no planeta, e mais 13 bilhões pra erradicar a malária. Tudo isto em 5 anos. Somados, estes valores representam em torno de 1% dos 7 trilhões preconizados pelo relatório Stern.
Bem, mas vocês sabem que fome, a malária e AIDS são problemas de países pobres. E quem se importa com eles? O último relatório da WWF que pretende ser uma espécie de “Estado Atual do Mundo” não usa nenhuma vez a palavra fome, apesar de enumerar regras que o mundo deve seguir para encontrar o seu nirvana sustentável.
Mas vamos mudar um pouco o foco, na semana passada (03/10), também foram publicados dois intrigantes artigos na Science: um sobre biodiversidade marinha (vol. 314: 787-790) e outro à respeito de grandes mamíferos carnívoros na Europa (vol. 314: 746-749). Estes eu li. O primeiro fala que os ecossistemas com maior diversidade têm maior estabilidade e que áreas oceânicas protegidas ajudam na conservação e sustentabilidade dos estoques pesqueiros. Pouca novidade (de fato), mas o destaque da BBC sobre ele, por exemplo, foi que, os autores disseram que o alimento marinho pescado/coletado acabará em 2048. Bem, mas tá lá no final do artigo, um parágrafo no qual os próprios cientistas acham esta conclusão exagerada, pois o modelo de regressão linear usado é muito simples, e afirmam que este não é o principal resultado do trabalho que enfoca que ecossistemas marinhos com maior número de espécies são mais sustentáveis.
Pois é, mas não foi bem assim que a BBC, este quase ilibado veículo de mídia, tratou o assunto. O outro artigo tem o sugestivo nome de os “Mamíferos estão de volta” e mostra que as populações de quatro grandes mamíferos carnívoros: ursos, duas espécies de lobo e o lince têm aumentado em vários países da Europa, para desespero de criadores de ovelhas no interior francês, onde as autoridades buscam (literalmente) ursos de outras partes pra soltá-los nas florestas de suas cidades (ao redor das fazendas) onde viviam séculos atrás. Os agricultores criaram o slogan: “Liberdade para os ursos, perigo para as pessoas” para o qual um expert em ursos da WWF da Áustria argumentou “os elefantes são mais perigosos e causam mais problemas que os ursos”. Que consolo hein, seu dotô ôtoridade?!! Aliás, elefante come gente? Urso come.
O fato mais curioso desta história é o do urso Bruno, que nasceu na Itália e chegou sozinho a Alemanha no último verão. Foi homenageado pelo ministro do meio ambiente que deu uma coletiva pra falar do significado de sua chegada, dos corredores ecológicos e da ajuda mútua em pesquisa conservacionista entre os países. Daí, Brunão começou a atacar galinheiros, ovelhas e criações de coelho. Um verdadeiro troglodita italiano!! Depois de infrutíferas tentativas de capturá-lo o governo teve que contratar caçadores que o mataram. Vida dura esta dos ursos. Até pastores, caçadores (de cervos) e mesmo guias de caminhada nas montanhas não gostam deles. Quem é que quer encarar um urso? As reclamações são tão intensas sobre o governo da França, que um dos seus burocratas pediu demissão para não ficar louco.
Até onde pude pesquisar ninguém divulgou este último artigo, pois ele é uma mescla de boa notícia, ou seja, o retorno das populações naturais, com uma má e, por enquanto, insolúvel: a difícil volta da natureza para perto de nós. Não resisto a mais uma nota: stern em inglês, quer dizer popa (a “traseira” de um barco), e sou obrigado a lembrar do livro do Roberto Campos “A lanterna na popa”, isto é, que aquela que, como a experiência, só ilumina as águas passadas. Será que o barco da nossa economia mundial vai passar a navegar de ré? Navegar é preciso, mas viver é ainda mais importante.


novembro 23rd, 2006 at 22:41
Quem sabe um dia a evolução, assim como àquela proposta pelos roteiristas do Super e acatada pelo senhor Popa, nos dê um economista urso! Possivelmente o problema de convivência seria sanado pela conveniência: Urso (animal carnívoro evoluído)+ homem (animal omnívoro involuindo) = alimento abundante !
Será que tem vaga de roteirista em Hollywood? Afinal, bobagem por bobagem, sou mais as minhas!