Os Monstros: nossos maiores amigos

Para a geração que chega agora nos 40, poucos filmes foram tão impressionantes na adolescência como Tubarão de Steven Spielberg. Longe dos monumentais efeitos computadorizados de hoje, o aclamado diretor conseguia manejar muito bem a câmera, colocando os espectadores, hora como vítima, outra como predador, fazendo-os, por assim dizer, sentirem-se como ambos. Tudo isto ao som daquela “musiquinha”: tundundun-dundun-tundun… mais aterrorizante talvez apenas, os gritos agudos no chuveiro de Hitchcock, em Psicose, conhecido e traduzido em Portugal como O Filho que era Mãe (parece piada, mas é pura verdade, perguntem pro Ruy Castro).

A cena de abertura do filme é clássica: a garota, num luau com os amigos transviados, vai nadar nua, no oceano tranqüilo. E então, tundundun… na poltrona da cidade do interior (longe do mar) já sabíamos o que ia ocorrer, mas nos aterrorizávamos mesmo assim. Depois vem a caçada ao grande bicho -“assassino”, que mostra toda a sua força, até ser explodido em zil pedaços. Politicamente incorreto? Então que tal lembrar do cultuado Moby Dick, romance de Hermam Melville, sob a direção de John Huston? No filme, Ahab, o capitão, exala ódio da baleia branca. A obsessão do perna-de-pau em matá-la é tamanha que, alude à luta de um homem para atingir sagazmente seus objetivos, enfrentando a natureza indomada. Numa palavra: clássico. É claro, o filme de Huston, que colocou lindos olhos de cavalo na baleia franca, enxota Tubarão para a “sessão da tarde”, pois é um clássico nascido de outro, combinação que nem sempre dá certo.

Se filmado hoje, o Pequot (nome do navio de Melville) seria um baleeiro japonês, com um capitão defendendo sua “cultura” de comer baleias, argumentando que apenas as espécies de baleias piscívoras consomem pelo mundo, de 54 à 88 milhões de toneladas de peixe, o que representa 60-100% da pesca marítima mundial. E os heróis japoneses, estariam, por assim dizer, reduzindo o número de nossos competidores pelo mesmo recurso (o peixe). Porém, esta é uma avaliação muito simplista. Nem sempre os chamados efeitos da cascata trófica, são assim tão diretos, isto é, tirar o predador, pode não ser a melhor coisa para a presa. Os efeitos são muitas vezes, contra-intuitivos. Por exemplo, um predador, beneficia a população de presas, quando consome indivíduos idosos e doentes (mais fáceis de caçar), e então reduz a competição entre elas, aumentando assim, os recursos disponíveis às presas mais saudáveis e consequentemente o número e biomassa delas próprias.

Mas, quero ainda falar do tubarão, não do filme, mas do peixe que também tem este importante papel no ecossistema, controlando a população de animais como focas e pingüins, suas principais presas. Já li mais de uma vez a conversa que o americano Spielberg, instigou nas pessoas uma visão muito perversa do pobre coitado do Carcharodon carcharias que é o nome científico do tubarão-branco. Mas queria o quê? Veja esta: por ser um animal que mudou pouco nos últimos 400 milhões de anos, a “mamãe-tubarão” não tem placenta. Isto é, durante o período de gestação de 13 meses (!) os filhotes alimentam-se dos próprios irmãos menores e quando finalmente nascem (às vezes até 10 de uma vez…) já têm um metro, podendo atingir posteriormente até sete. Para quem mesmo antes de vir ao mundo, já passa por este teste de sobrevivência, não é de se esperar um comportamento dócil e recatado.

Junte-se a isto, o fato de não terem ossos, pois seus esqueletos são formados apenas de cartilagem, o que lhes conferem amplo poder de manobra, por isto já foi chamado, num desapaixonado artigo científico, de “míssil teleguiado por suas presas”, já que consegue dar enormes saltos para, por exemplo, pegar uma foca fujona. Além disto, podem ver cores e parecem atraídos em especial pela cor laranja (a cor da maioria dos “salva-vidas”), tendo ainda as capacidades de olfato e audição extremamente aguçadas, com uma mandíbula repleta de fileiras de “dentes-de-leite”, que se perdem num ataque, mas depois são rapidamente repostos.

Ao contrário, dos predadores terrestres, os aquáticos só tem a mandíbula para caçar, (se tivesse membros, a hidro-dinâmica ficaria prejudicada), então o ataque tem que ser certeiro e forte (a força da mordida já foi avaliada em 18 toneladas). Na década de 90 foi registrada, no mundo todo, uma média de 55 ataques de tubarão por ano, com um total de 71 vítimas fatais. Cifra quase irrelevante se compararmos com qualquer outro tipo de injúrias (atropelamentos, assassinatos, gripes, acidentes domésticos, etc…), mas ainda sim alta, pois nos últimos 400 anos foram 544 mortes no levantamento mais confiável, o que mostra que a última década o número de ataques aumentou, a despeito das fatalidades terem diminuído de 12 para 5%, assim de cada 100 ataques nos dias de hoje, 5 são fatais. Muito provavelmente esta maior incidência de ataques ocorre, pois o número de pessoas ao mar é bem maior hoje do que em qualquer outra época, o que aumenta o risco de pelo menos alguém encontrar um deles.

Apesar disto, as muitas populações de tubarões estão declinando principalmente por causa da pesca. Não que sejam apreciados, mas quando os barcos pescam uma espécie eles sempre trazem a chamada “fauna-acompanhante”, ou seja, aqueles indivíduos que não são o objetivo da pescaria. Em muitos casos, tubarões e golfinhos são mortos assim. Por isto algumas marcas de atum trazem um selo de cuidado ecológico, pois alguns novos aparelhos de pesca evitam a pesca da fauna acompanhante. Mais recentemente, em países como Austrália e África do Sul, o tubarão-branco tem sido protegido por leis e políticas ambientais. Não por coincidência, são os mesmos países que conseguem ganhar dinheiro com ele vivo, mas como o tubarão-branco não consegue sobreviver em aquário (muitas tentativas foram feitas e nenhuma com sucesso), o jeito é ir visitá-lo com um barco.

Passeio Tubarão Branco II

Estive num destes passeios na África do Sul em Gassbaai, a duas horas da Cidade do Cabo (Confira aqui). O barco de 12 metros navegou por 40 minutos e parou no meio do nada. Os marujos começaram a jogar restos de peixe ao mar. É colocada na água uma gaiola, (três metros quadrados de área, dois de profundidade) para quem quiser ver o tubarão por debaixo da água (desculpe decepcioná-lo, mas com água a 14º C e a temperatura no barco a 12º C foi impossível para mim, uma criatura tropical, entrar nesta fria). Atraído, o tubarão, passa a rodear o barco, tentando mansamente pegar uma isca (um pedaço grande de peixe, que flutua graças a uma bóia). É aí que o tubarão surpreende por sua sutileza ao surgir pra abocanhar a “presa”!

Os pesquisadores já identificaram 5 tipos de comportamentos do tubarão nestes casos e acreditam que o tubarão “sabe” o que está se passando, isto é, ele não está ali necessariamente para comer (afinal ele prefere caçar, pois carne fresca é melhor que carniça), mas sim para ver e ser visto. Em alguns momentos dá até pra duvidar da sua ferocidade, e até a hipótese que estes encontros deixariam o tubarão com vontade de apreciar humanos no jantar, já foi testada experimentalmente, e descartada. De onde estávamos avistamos mais cinco barcos, realizando a mesma atividade. Desta forma, eram seis barcos com 20 pessoas cada um, a mais ou menos 100 dólares por pessoa e então, doze mil são arrecadados numa única manhã, numa única baía. A atividade dura todo ano. Recentemente o quase sensacionalista “Cape Argusestampou na primeira página: “ataque de tubarão é bom para os negócios” e diz que as escolas de surf estão perdendo alunos, enquanto que os operadores destes passeios têm incrementado seus ganhos, principalmente por que em agosto, um tubarão abocanhou uma prancha de surf e outros dois foram vistos “enamorando” também surfistas, mas sem realmente atacá-los.

No fim das contas, biólogos marinhos, tubarões, conservacionistas e operadores do turismo, têm de agradecer ao Spielberg. Afinal, ele deu um grande estímulo àquilo que já havíamos aprendido a amar para sobreviver, a saber, os nossos próprios monstros.

Algumas referências consultadas:

Caldicott, D.G.E.; Mahajani, R. & Kuhn, M. 2001. The anatomy of a shark attack: a case report and review of the literature. Injury, International Journal of the care of the injured, 32: 445-453.

Cope, J.M. 2006. Exploring intraespecific life history patterns in sharks. Fish Bull., 104: 311-320.

Lewinson, R.L.; Crowder, L.B.; Read, A.J.; Freeman, S.A. 2004. Understanding impacts of fisheries bycatch on marine megafauna. TRENDS in Ecology and Evolution, 19 (11): 598- 604.

Hueter, R.E.; Heupel, M.R.; Heist, E.J.; Keeney, D.B. 2004. Evidence of Philapotry in sharks and implications for the management of shark fisheries. e-Journal of northwest Atlantic Fishery Science, v. 35 art. 7. http://journal.nafo.int/35/hueter/7-hueter.html

Sinclair, A.R.E. & Byrom, A.E. 2006. Understanding ecosystem dynamics for conservation of biota. Journal of Animal Ecology, 75: 64-79.

Smale, M.J. & Goosen, A.J.J. 1999. Reproduction and feeding of spotted gully shark, Triakis megalopterius, off Eastern Cape, South Africa. Fish Bull, 97: 987-988.

Stevens, J.D.; Bonfil, R.; Dulvy, N.K.; Walker, P.A. 2000. The effects of fishing on sharks, rays and chimeras (chondrichtyans), and the implications of marine ecosystems. ICES, Journal of Marine Science, 57: 476-494.

Wintner, S.P. & Cliff, G. 1998. Age and growth determination of the white shark, Carcharodon carcharias, from east coast of South Africa. Fish Bull, 153-169.

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11 Respostas

  1. Roberson Says:

    Arrebenta garoto.
    Gostei do nome.
    Lembrou-me os palancas negras (alcunha da seleção de futebol de Angola).

  2. luana e dyandra Says:

    (dyandra)cara isso e muito massa nem vo durmi hoje….
    queria ver fotos mais violentas

    (luana
    ) PooOh qui legal ! mas da moO medOo !

  3. breno hugo soares simonassi Says:

    tubarao nao e bricadera nao em tumemmuito cuidado eles sao traisuero

  4. laura Says:

    cara isso é muito assustador!!!

  5. thayzza glubbertyy Says:

    I LOVE IS GOOD MORNY ELYTY UEY EISCUL

  6. Beatriz Says:

    ooi pessoal .
    eu goostei mt das fotos .
    mas na verdade que nao se pode brincar com tubaroes . né ?
    deve ser mt dificil olhar ou até mesmo ser ATACADO por um desses animais carnivoros .
    como todos as pessoas que conheço falam .. os tubaroes nao sao brincadeiras e nunca se deve brincar com um .
    bggs . biia . tenho 10 anos . táar ? bggs , amo tooooodos .

  7. victoria Says:

    nossa que grande!

  8. karen Says:

    nossa eles sao lindos mais muitos pirigosos.nao quero ver nunca um de perto antes dele me devorar eu ja desmaio rsrs bjs♥♥

  9. ROCKY Says:

    TINHA UM BEM MAIOR DO QUE O GRANDE BRANCO SABE QUAL É, É O MEGALODON O MAIOR TUBARÃO DO MUNDO CONHECIDO COMO CARCHORODON MEGALODON SÓ PARA VC VER A MANDIBULA DELE(A) CABE ACERCA DE 7 A 9 PESSOAS NA MANDIBULA DELE E ELE TEM UM TAMANHO QUE É 10 VEZES MAIOR DO QUE O GRANDE BRANCO, O BRANCO PODE CHEGAR A SERCA DE 4 METROS OU MAIS O MEGALODON PODE CHEGAR A 25 METROS OU MAIS SÓ PRA VCS VEREM O TAMANHO DO TUBARÃO ELE É TÃO GRANDE QUE PODE DEVORAR O GRANDE BRANCO SÓ SE O BRANCO FOR MUITO ESPERTO PARA ESCAPAR DO MEGALODON MAIS ANTIGAMENTE LÁ PRA 100 MILHÕES DE ANOS ATRAZ ELE COMIA BELEIAS E ELE ATACAVA TUDO QUE VIA PELA FRENTE MAS ELE FOI O ANTEPASSADO DO BRANCO IMAGINA SÓ MEGALODON NO MAR ACABANDO COM TUDO PRINCIPALMENTE AS BALEIAS A ORCA PODE TER ATÉ MATADO O GRANDE BRANCO MAIS COM O MEGALODON ELA JÁ ERA BOM PESSOAL EU JA FALEI TUDO SOBRO O MEGALODON E O GRANDE BRANCO OBRIGADO……

  10. arletecristinabahia de araujo Says:

    nossa isso e demais me desculpa mais eu sou apaixoada pela vida maritimaquando eu cresser eu vou ser biologa como voces um dia eu vou chegar la por favo leia o meu comentario e muito importante para mim

  11. Alaf Says:

    Pocha que legal, só que vocês tem que tomar muito cuidado!!!

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