Quase nada de quase tudo!

É regra que os cadernos culturais da grande mídia impressa dedicam-se aquilo que é “popularmente” conhecida como cultura, isto é, as ciências humanas, entendendo aqui quase que tão somente a Literatura, contemporânea ou não, a Sociologia, de algum fenômeno recorrente tido como alta novidade, e em menor grau, a Filosofia, que por vezes é chatamente ideologizada. É o pensamento se repetindo como farsa…

Mais recentemente os cadernos têm aberto espaços para a “divulgação científica”, ocupados geralmente por algum pesquisador que se acha apto à tarefa, ou mesmo um jornalista que “gostaria de ter sido cientista”. Apesar destas honrosas exceções, o fato é que as ciências naturais (Exatas e Biologia) nunca são vistas como parte da cultura, inclusive seu legado é chamado em alguns círculos como “terceira cultura”.

Assim inúmeros intelectuais (um cientista, mesmo competentíssimo, nunca é considerado intelectual) discutem nos cadernos, como Shakespeare inventou o mundo, se a mensagem de Sancho Pança serve mais a revolução que a de D. Quixote, ou a importância da poesia regional num país continental ou ainda a elasticidade da ética (assunto muito em voga hoje). Só esporadicamente alguns assuntos científicos são considerados por um editor o carro chefe da discussão dos bem pensantes. Foi assim, com o avanço da codificação do genoma humano ou o uso de células-tronco embrionárias em terapias de doenças até então incuráveis.

Mesmo assim, as críticas e opiniões restringem-se a questões sócio-políticas da descoberta. Por exemplo, quantas vozes se levantaram pra dizer que o método de clonagem da ovelha Dolly é improvável estatisticamente já que seus cientistas tentaram tal procedimento pelo menos 450 vezes antes de conseguirem, de fato, o clone? Tentativa e erro não é nada científico. Mas os humanistas acham que a metodologia forma apenas “aquela massa amorfa de detalhes” onde nem Deus mais existe, e perdem o essencial da teoria para ficar no supérfluo, quando não se aproveitar das conclusões com imposturas intelectuais. O tal do “tudo é relativo”.

Mas afinal, será que dá pra gente saber tudo? Por exemplo, o best-seller O universo numa casa de noz do prestigiado Stephen Hawking, cientista e divulgador de primeira grandeza, é considerado uma das melhores explicações de como o mundo funciona, mas alguém acha que ao menos 50% das pessoas que leram o livro, o entenderam? Pelas minhas estimativas, no máximo 10%. Não é fácil encarar a teoria das super-cordas, as p-branas, a fórmula da entropia dos buracos negros e a curvatura espaço-tempo. Alguém já disse que se você entendeu a teoria da relatividade, então, você compreendeu algo que pode ser correto, mas não é a relatividade, propriamente dita. A teoria da relatividade está para a ciência como Ulysses de J.Joyce para a literatura: essencial, mas de compreensão difícil, talvez impossível.

Enfim, o importante é tentar entender. Foi isto que fez o jornalista Bill Bryson em Breve história de quase tudo (Companhia das Letras, 541 p.) que começa num ponto singular há 13,7 bilhões de anos atrás e continua com você, leitor, um conjunto de átomos, reunidos quase que ao acaso e, certamente, fruto de muitos mal-entendidos (com o devido respeito, claro).

As analogias do livro, algumas feitas por Bryson outras por encomenda, são fartas e francamente admiráveis: imagine o leitor a Terra do tamanho de uma ervilha, se na mesma escala, desenhássemos o sistema solar, Plutão ficaria a 2,5 km de distância de nosso planeta e não seria maior que uma bactéria! Próxima Centauro, nossa estrela vizinha estaria a 16.000 km de distância!!! E se o próprio sistema solar tivesse o tamanho de uma ervilha, o tamanho do universo seria comparado a um ginásio de esportes, daqueles bem grandes de jogos da NBA, completamente abarrotado de ervilhas. Não seria muito fácil nos achar ali.

Bryson tem também muito cuidado em contar histórias, umas mais outras menos conhecidas, de pessoas que não passaram para a prosperidade no hall da fama científica, mas que tiveram papéis relevantes e reveladores. Como Mary Anning, que encontrou um ictiossauro com 11 anos de idade e na busca de outros, passou a vida toda na pobreza, as vezes demorando 10 anos para escavar pacientemente apenas um deles. Seus achados estão entre as atrações mais admiráveis do Museu de História Natural de Londres.

Entrevistando alguns cientistas e viajando muito, Bryson ainda nos explica que a popular imagem que todos temos dos átomos (dois elétrons voando em torno do núcleo) é totalmente equivocada. Na verdade os elétrons são como as pás da hélice de um ventilador, preenchendo em suas órbitas todas as proporções do espaço simultaneamente. E que tal saber que o barulho emitido por um automóvel em alta velocidade quando está se aproximando é “iééééééé”, pois as ondas sonoras que chegam, vão se espremendo nos seus ouvidos, mas ao se afastar, tais ondas se espalham e se alongam e o tom muda para “iuuuuum”? (saiba o que é aqui)

Sim, o livro é rico nesta cultura de almanaque, mas tem pérolas imperdíveis, por exemplo, na descrição da evolução humana, na tectônica de placas ou mesmo na divisão dos reinos dos seres-vivos.

A tradução do livro é muito boa, com poucos erros como chamar o mosquito barbeiro de “benchuga”, mas nada que comprometa a obra que pode ser uma ótima referência para qualquer professor, ou intelectual das ciências humanas.

Afinal, a Terra tem 4 bilhões de anos, fazendo com que a era cristã represente 0,00005 % da idade total do planeta. E ainda sim, houve tempo, para Shakespeare, Bach, Dostoievski e Van Gogh que uma vez afirmou: “Sinto que a vida das pessoas se parece muito com a do trigo: se não somos semeados na terra para germinar, somos moídos para virar pão”. E sabendo que um átomo pode durar 1035 anos é provável que neste exato momento eu esteja absorvendo os átomos de carbono expelidos por ele ao dizer isto. Como disse Bryson, somos todos reencarnações, embora efêmeras.

Para baixar:

Bill Bryson – Una breve historia de casi todo

Bill Bryson – A Short History Of Nearly Everything

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3 Respostas

  1. esse , o conhecimento ,,, fassa uma pra sabedoria e publique-a .. .. Says:

    tem uma do hendrix que fala ; o conheicmento fala, a sabedoria escuta ..

  2. Bruno de Alemeida Zamite Says:

    Conhecimento, é tão grande quanta a ervilha, logo quem o tem pode ter todo o universo

  3. Hugo Says:

    Eu li o livro do Bill Bryson e não encontrei essa pérolas, por você citadas : “mas tem pérolas imperdíveis, por exemplo, na descrição da evolução humana, na tectônica de placas ou mesmo na divisão dos reinos dos seres-vivos”. Apesar muito bem escrito não encontrei objetivo nesse post.

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