Sagan e a “Teologia da Cientificação”

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Carl Sagan é o grande ícone da divulgação científica mundial. Em seus últimos livros, Bilhões & Bilhões e O Mundo Assombrado pelos Demônios, alerta-nos para o perigo do analfabetismo científico. Segundo ele, mesmo pessoas formadas na universidade desconhecem mecanismos básicos da natureza o que leva à uma confusão entre ciência com pseudociência ou ainda ficção científica.

Ele morreu em 1996, mas teve um livro póstumo editado e publicado por sua viúva em 2006 e agora traduzido para o português pela Companhia das Letras: Variedades da Experiência Científica: uma visão pessoal da busca por Deus. Nele são transcritas as “Palestras Gifford” que proferiu em 1985 na Universidade de Glasgow na Escócia.

Os assuntos são os que sempre o dominaram e fazem parte daquelas questões fundamentais que aos sábados à tarde, o homem comum costuma formular: Como surgiu o universo?; Existe vida em outros planetas?; Deus existe?; Porque tanta gente leva religião à sério?; E este mesmo cidadão leigo, sonha suas “soluções fenomenais…, mas, no fim, o dia contará estórias sempre iguais” (lembram o Cotidiano do Vinícius?).

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Sim, Carl Sagan é um craque em discutir a vida dos planetas e nos planetas e é ainda amparado por fotos e figuras maravilhosas de Saturno, cometas, nebulosas, Via Láctea, entre outras. Para mim, o livro vale pelas fotos, mas quer saber? o grande Sagan é um analfabeto religioso.

Na conversa sobre Deus e religião, ele é pueril demais, chegando mesmo à perguntar porque Deus criou a dor, mostrando que não tem a mínima noção do livre arbítrio, dizendo literalmente “…os argumentos teológicos naturais para a existência de Deus… não são muito convincentes…”. Verdade Dr. Sagan? Pôxa, eu pensei que aquele matemático húngaro que foi entrevistado pelo Hélio Costa no Fantástico de 1977, tinha descrito a existência do Onipotente através de um conjunto de derivadas parciais, contando com o auxílio de álgebra não linear: “seja Deus, igual ou maior que x…”. Depois surgiram outros cientistas com o mesmo intuito, brincadeira feita anteriormente por Aldous Huxley no excelente romance Contraponto.

Mas compreendo que para Sagan seja difícil entender “o mistério da fé” de todas as religiões e crentes do mundo todo. Seria demais pensar uma só vez que um Deus que fosse explicado pela ciência, deixaria imediatamente de ser Deus? Isto violaria a “premissa” da divindade, isto é, que Deus não pode ser explicado em termos de energia ou partículas. A lua pode ser Deus? Não! Ela é um satélite que orbita a Terra.

Antes, que alguém diga “quem é este Ronaldo Zé Ninguém pra falar do Sagan?”, afirmo calmamente que estou seguindo apenas o conselho dele mesmo: nunca acredite na autoridade, e completo: principalmente quando ela foge de sua própria especialidade.

Então, quando depois de fazer muitas piadas alarmistas sobre uma possível guerra nuclear que destruiria o planeta, uma preocupação real dos anos 80, mas que, evidentemente não ocorreu, diz que os líderes russos ateus não estariam indo contra sua lógica se atirassem os mísseis, mas os ocidentais sim, pois eles são cristãos!

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Sr. Sagan, acho que agora, ao lado de Deus (sim, ele protege e recebe os ingênuos), o senhor já deve entender que há uma diferença fundamental entre ser cristão e ser Jesus Cristo, que esbofeteado, ofereceu a outra face e, posteriormente, a própria vida. Aliás, em Bilhões & Bilhões o senhor foi muito claro: um sistema (como o político-econômico mundial) só se mantém funcionando com a regra “tit-for-tat”: coopera com os outros primeiro e depois faz aos outros o que te fazem.

Sinceramente, acho que toda esta onda da “Teologia da Cientificação”, que prega que tudo tem que ser explicado por hipóteses testáveis ou por fortes evidências aprovadas por uma Sociedade Científica, é extremamente passadista. Voltaire já fez isto com muito mais elegância, mas ele era “apenas” um escritor e não um cientista que “conhece o mundo real”.

É chato quando a gente se desaponta com um ícone, mas claro, é muito bom. Antes que digam, deixo claro: o livro vale pelas figuras e os quatro primeiros capítulos.

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2 Respostas

  1. José Maria e Silva Says:

    Caro Angelini,

    Saboroso o “Teologia da Cientificação”. Outro dia vi um jovem físico espacial, num programa de debates da TV Sesc, professando essa mesma teologia, com um ar de superioridade, irônico. O mediador, excepcionalmente muito bom, mitigava a arrogância do físico com objeções pertinentes, ainda que elegantes demais. Mas a antropóloga encarregada de fazer o contraponto ao físico não deu conta do recado. Estava no caminho certo para contestá-lo, mas por falta de uma cultura científica mínima, ela se perdeu numa espécie de misticismo da Era de Aquário e acabou se deixando intimidar intelectualmente pelo físico. Como a maioria dos cientistas sociais contemporâneos, anestesiados pelo pensamento psicotrópico francês, a antropóloga se comportava como uma xamã, toda sentidos, sem argumentos, dando margem a que o físico a intimidasse intelectualmente. E o dito cujo inflou o peito, feito um vaidoso garnisé da razão.

  2. Voltaire Theologos Says:

    Muito bonito este blog. Todavia,entendo que mesmo que reconheçamos os limites da ciência. Ela nos deu respostas irrefutáveis. Inclusive sobre a origem do Homem.

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