A investigação de Semmelweis é de um rigor científico a toda prova. Carl G. Hempel, em seu livro Filosofia da Ciência Natural (Zahar Editores, 1974 — o original em inglês é de 1966), conta esta história como um exemplo do desenvolvimento científico, mas, sobre a morte das últimas 11 mulheres, parece crer que o exame foi realizado como uma experimentação pura, simples e deliberada, do tipo: “Vamos testar a hipótese que um organismo vivo também carrega partículas mortíferas”. Daquilo que este que vos escreve pôde, vá-lá, investigar, Semmelweis não precisaria fazer isto em mulheres, porque no departamento de patologia ele já realizava experimentos com coelhos, inclusive certificando-se do fato de que organismos vivos poderiam carregar a matéria mortífera.
Até aqui vimos o médico, o cientista e o detetive. Agora começa a saga do herói. Apesar de uma importante revista científica austríaca publicar em seu editorial no final de 1847 os resultados alcançados com as medidas profiláticas adotadas por Semmelweis, as autoridades e brilhantes nomes das ciências médicas da época (demasiado humanas…) se opuseram grandemente a suas descobertas.
Não bastasse a oposição da unanimidade burra, Semmelweis simplesmente não publicou seu trabalho por completo, e sua desculpa é a de um autêntico anti-herói, pois dizia ter “uma inata repugnância por tudo aquilo que é chamado escrita”. Dessa forma, seus ensinamentos eram passados apenas a seus conhecidos e alunos, quando, em 1848, um colega seu, von Hebra, publicou um trabalho com suas idéias, ele apenas enfatizou as partículas dos cadáveres, não disse nada sobre a possibilidade de organismos vivos carregarem também a doença.
Desacreditado, sem publicações, o húngaro voltou para o seu país natal, onde foi trabalhar na unidade obstétrica de um hospital local. Impondo as medidas sanitárias, fez a mortalidade cair para menos de 0,85 por cento nos seis anos seguintes. Quando, em 1855, tornou-se professor de Obstetrícia na Universidade de Budapeste, cujo hospital não era digamos, exemplo de limpeza, ele ainda teve tempo de concluir a teoria, pois não só as mãos devem estar limpas, mas os lençóis e aventais dos médicos também (que teriam de ser fervidos em água). A mortalidade por febre puerperal foi para 0,39 por cento.
Em 1860 (13 anos após sua descoberta), publicou seu único livro e trabalho científico: A Etiologia, Conceito e Profilaxia da Febre Puerperal. O livro (ok, ok! Confesso que não li) é, segundo alguns médico-historiadores, chato, redundante (repete até as mesmas tabelas) e a despeito de suas importantes descobertas, o autor é, belicoso e cheio de diatribes. Por exemplo: “Se C. Braun [famoso médico da época] pensa assim… deixem ele…” ou “minha doutrina tem uma missão… é para manter o marido com sua esposa, a mãe com o filho”.
Mesmo depois do livro, ele, para se defender das críticas, atacava. Para Scanzoni (o mais famoso obstetra da época), escreveu: “Eu te denuncio perante Deus e o mundo como um assassino, e a história da febre puerperal (…) perpetuará você como um Nero médico”.
A partir de
O que mais me escandaliza nessa não-aceitação da profilaxia da febre puerperal é o fato que a descoberta de Semmelweis já havia sido feita antes dele (não com o seu conhecimento, infelizmente ele não lia em inglês) e publicada!! A primazia de uma descoberta é um dos trunfos do grande cientista. Recentemente Janer Cristaldo lembrou no Opção Cultural, uma entrevista de César Lattes (um dos principais físicos brasileiros e que morreu recentemente) em que ele afirma que Poincaré já havia delineado e publicado a teoria da relatividade antes de Einstein. Verdade ou não (tem quem diz que Lattes também não era lá muito certo das idéias, isto deve ser a norma para os físicos geniais), a primazia é que imortaliza o cientista.
E para a febre puerperal esta primazia é de Oliver Wendell Holmes (1809-1894), que publicou em 1843 (quatro anos antes da descoberta de Semmelweis e 17 anos antes de seu livro) o trabalho O Contágio da Febre Puerperal com todas as medidas profiláticas, incluindo a lavagem das roupas. É considerada uma das maiores contribuições americanas para a medicina. Além deste, os trabalhos do inglês Charles White (1728-1813), de 1773, e do escocês Alexander Gordon, de 1795, já mencionavam a falta de higiene com o contágio da Febre Puerperal. Como os brilhantes contemporâneos de Semmelweis puderam negar todos estes trabalhos? A ignorância é a maior multinacional de todos os tempos, já dizia um jornalista brasileiro do século XX.
Bom, mas se esses cientistas todos (atenção; o americano Holmes é também considerado um grande poeta) precederam Semmelweis, por que este último é mais conhecido? Por que em sua trajetória estão todos os elementos do grande drama: o húngaro pobre que vai para a Áustria dominadora e rica; o iconoclasta brilhante que usa o método científico como poucos na época; o homem que se vê como a ferramenta divina de uma grande missão; a briga com os austeros superiores e, finalmente, a loucura e a possível morte irônica que vem com a mesma doença que combateu. Não é à toa que Céline escreveu um grande livro e que Semmelweis daria um grande filme. Eu escolheria Russel Crowe no papel principal.
Ainda mais uma nota. O Programa de Avaliação Internacional de Estudantes (Pisa) avaliou, em 2000, 265 mil alunos de 15 anos em 36 países e fez quatro perguntas a respeito da obra de Semmelweis. As respostas analisadas separadamente, e que não exigiam nenhum conhecimento prévio, pois são todas dependentes apenas de raciocínio lógico-científico, colocaram o Brasil, acompanhado do México, em último lugar (36o).
Um país que, em tempos de paz, precisa das Forças Armadas para dar atendimento médico num dos Estados mais ricos da Federação, necessitaria de muitos Semmelweis; mas, por aqui, o ato de lavar as mãos está mais para Pilatos do que para a adoção uma doutrina médica séria e sincera. À alma dos ilustres chefes de Semmelweis e, por que não dizer, aos nossos brilhantes administradores da saúde, dedico uma frase de Santo Agostinho: “O homem é carne, sangue e orgulhosa podridão”.
Publicado originalmente no jornal Opção em abril de 2005, quando o exército montou barracas no Rio de Janeiro na tentativa de auxiliar o povo por cauda da crise dos hospitais.
Veja também:



setembro 23rd, 2009 at 18:52
Gostaria de saber onde posso conseguir o filme do dr Semmelweis.
julho 31st, 2010 at 16:31
O filme falando de Semmelweis existe? Onde posso enontrar? Obrigada!
abril 24th, 2012 at 21:21
como posso obter o filme desse medico semmelweis