É comum em filmes policiais ou de suspense, que o protagonista saiba sozinho a causa da morte (ou conheça o homicida) das vítimas que a película vai acumulando (Jeniffer 8 com Andy Garcia é um exemplo). Tendo por vezes como única testemunha a platéia devoradora de pipocas, a personagem principal luta bravamente contra tudo (às vezes contra si próprio) e todos (principalmente seu chefe, sempre ocioso do cargo e invejoso do talento e coragem do subordinado) para mostrar que sua suspeita está correta. Com o desenrolar da trama e o acúmulo de evidências, o detetive desvenda o mistério e prende o bandido. Na maior parte dos filmes tem-se um final feliz, e então o aclamado herói parte para outra aventura em mundos distantes…
Vamos supor que cinema seja arte. E, então, posso repetir o surrado, mas verdadeiro bordão: a vida imita a arte e vice-versa. Outra suposição é que a vida do cientista é análoga a de um detetive, pois ambos acumulam informações que num primeiro olhar podem parecer incongruentes, mas que, depois de corretamente ordenadas, desvendam o mistério.
O húngaro Ignaz Philipp Semmelweis (1818-1865) é um dos grandes exemplos reais do detetive-cientista. Tendo partido para Viena em 1837 para ser estudante de Direito, encontrou seu verdadeiro talento quando, convidado por um amigo, foi assistir uma aula de anatomia. Graduou-se médico em 1844 com grande interesse em obstetrícia, e radicou-se na Maternidade do Hospital Geral de Viena.
Esta maternidade era dividida em duas unidades: a primeira assistida por médicos e alunos de medicina, e a segunda por parteiras com treinamento em obstetrícia, mas sem qualquer instrução médico-anatômica. A fama da primeira unidade era a mesma de que desfruta hoje os hospitais cariocas sob intervenção federal, ou seja, péssima, pois esta ala matava, devido à febre puerperal, três vezes mais que o setor das parteiras. Aliás, a morte das parturientes girava em torno de 25 por cento em muitas cidades européias da época, não só
Em 1846, com um cargo melhor na maternidade, nosso detetive começa a procurar pra valer a causa da maior incidência de febre na unidade dos estudantes e logo descarta a hipótese “cósmico-telúrica”, pois se o agente patológico estivesse no ar, como ele poderia escolher apenas a primeira unidade? Afinal, ambas ficavam no mesmo prédio e desfrutavam a mesma atmosfera.
Semmelweis procurou outras causas:
a) que tal o excesso de parturientes? Não. A ala das parteiras vivia com mais gente que a dos estudantes, já mal afamada e evitada;
b) a culpa não poderia ser a inépcia do estudante ao fazer o exame? Também não, pois os exames de parteiras e estudantes eram bastante similares, e quando o número de alunos foi reduzido à metade na primeira unidade, a mortalidade permaneceu alta;
c) e a posição das mulheres? Na primeira ala deitavam-se de costas e na segunda de lado. Semmelweis, meio a contragosto, pois não achava que isto seria a causa, mudou a posição das mulheres no primeiro serviço e, de fato, as taxas de mortalidades não se alteraram.
O espírito investigativo de Semmelweis atingiu até o padre local, que momentos após dar a extrema-unção tocava uma sineta, avisando sobre a morte da paciente. Para Semmelweis essa sineta poderia causar um estado de aflição tão grande nas outras pacientes, que aumentava suas chances de vir a falecer. Censurada a sineta, o anjo da morte continuou seu serviço mais freqüente na primeira ala.
Na falta de melhores resultados, o chefe de Semmelweis (Johann Klein) lhe dá umas férias forçadas (pede o “distintivo” do nosso detetive). Ele vai para Veneza tentar clarear as idéias e, em sua ausência, ocorre um fato triste, porém esclarecedor: seu amigo e colega Jacob Kolletschka é morto, infectado por um corte de bisturi enquanto fazia uma autópsia numa aula de anatomia. Os sintomas pré-óbito de Jacob mostravam que sua doença era idêntica àquela que matava as mães na maternidade. Semmelweis conclui que a doença é transmitida por partículas cadavéricas que entram no sistema vascular.
Ora, é elementar meu caro leitor, os alunos de medicina tinham freqüentemente contato com cadáveres em suas aulas e, como as mãos eram mal-lavadas (o odor continuava), essas partículas contaminavam as parturientes durante os exames. Na divisão das parteiras isso não acontecia, pois estas não tinham treinamento com cadáveres.
Enfim, Semmelweis pôde compreender o motivo pelo qual, antes dos anos 20 do século XIX, as taxas de mortalidade na maternidade do hospital de Viena eram baixíssimas, pois até então o treinamento da profissão médica ainda não utilizava cadáveres. Pois é, a medicina teve um grande avanço com a dissecação de cadáveres, mas infelizmente, à custa de acumular outros tantos… (veja as tabelas das taxas de mortalidade aqui)
Uma descoberta científica, devidamente acompanhada de comprovação, sempre traz regozijo ao cientista que a descreve. Porém, este não foi o caso, pois apenas provava que ele mesmo havia causado muitas mortes. (Há relatos que pelo menos um médico da época cometeu suicídio ao saber da verdade, pois se penitenciou pela morte de uma prima).
Mas como a vida continua para quem ainda respira, Semmelweis afixou um cartaz na maternidade: “A partir de hoje, 15 de maio de 1847, todo estudante ou médico é obrigado, antes de entrar nas salas da clínica obstétrica, a lavar as mãos, com uma solução de ácido clórico, na bacia colocada na entrada. Esta disposição vigorará para todos, sem exceção”. Desta data em diante, a mortalidade caiu para 3 por cento contra quase 12 por cento do ano anterior.
Em outubro deste mesmo ano, nova frustração e descoberta: uma mulher em trabalho de parto com câncer cervical purulento foi examinada por ele e vários colaboradores que passaram em seguida a examinar outras 12 mulheres na mesma sala e que aparentemente estavam saudáveis. Onze morreram de febre puerperal! Assim, a hipótese inicial foi alargada: a matéria pútrida poderia também ser retirada de um corpo vivo.
Continua em…


