Sobre fatos e processos

Semana passada (29/10), enquanto os brasileiros votavam pra presidente, a Folha de São Paulo trazia dois artigos aparentemente não relacionados, mas profundamente intricados. Numa página, Marcelo Gleiser, considerado o melhor divulgador brasileiro da ciência, professor de Física nos EUA e, apesar de pesquisador, rico, chama a atenção para os caminhos da divulgação científica, que idealmente deveria ocorrer apenas após todo processo burocrático de avaliação do artigo por pares da mesma área, antes da aceitação e publicação em periódico reconhecido.

Infelizmente como os cientistas são demasiados humanos, eles acabam divulgando antes os resultados e as pessoas ficam meio sem saber se podem ou não confiar nele. Apesar de admirador de Gleiser, não dá pra concordar com todo o artigo. Primeiro que, apesar de fundamental para os cientistas, o público dito leigo não liga pra processo: como é mesmo aquela história que diz que leis e salsichas, se soubéssemos como são feitas não as obedeceríamos nem as comeríamos?

Além disso, outra preocupação dos divulgadores é sempre tentar mostrar como a pesquisa foi feita, ou seja, explicar a metodologia mas também ninguém se importa com estes “detalhes”. Quando a gente usa o Word ou liga o celular, não quer saber do algoritmo subjacente que me garante teclar ou conectar. E se por instantes não funcionam, ninguém fica pensando “Pôxa, se o algoritmo tivesse sido montado com a linguagem Java XX, no sistema, NumSeiDasQuantas, isto não aconteceria”. Isto pra não falar de carros, afinal quem é que entende, ou quer entender, de mecânica? (Os motores ainda têm “gira-brekin”?) A gente só quer que ele não morra na estrada.

Outra questão não mencionada por Gleiser é que a divulgação científica é 99% pautada pela Nature e pela Science. Por quê? Primeiro por que são os periódicos mais importantes do mundo, com profundas revisões por pares e, por conseguinte têm os artigos mais citados e confiáveis. E segundo, mas talvez mais importante, por que estão entre as raras revistas científicas com departamentos de comunicação, com profissionais treinados pra fazer a ponte entre os cientistas e os jornalistas. Isto é, eles “traduzem” (ou tentam) pra linguagem mais simples aquilo que só os cientistas da área entenderiam. E os jornalistas, então, têm o serviço facilitado. (Quem quiser ouvir e/ou ler, semanalmente notícias da Nature, é ir ao podcast.

É claro, mesmo elas tem lá seus problemas como recentemente ocorreu com um artigo da movimentação dos membros artificiais controlados pelo cérebro, e que não era uma novidade tão extraordinária assim, mas que virou capa da revista, pelo simples motivo da importância da aplicação que aquela pesquisa tem no contexto mundial. Ou alguém acha que “buracos negros de gravidade infinita” atraem mesmo a atenção das pessoas? (Imagine explicar o processo da descoberta de um buraco negro. O artigo começaria assim: Seja N > ou = q, onde q é uma constante cósmica….)

De qualquer forma é ainda raro quando o jornalista escreve uma matéria sobre ciência com base em outras revistas científicas, ou tem a capacidade de criticar o trabalho, como um crítico de cinema ou literatura. Uma exceção a isto, é Marcelo Leite (Ciência em Dia), mas que no mesmo dia e veículo em que Gleiser teceu seus comentários, exagera na dose exaltando o último relatório da WWF (que não passou pela revisão por pares) e seus indicadores ecológicos que mostram, em poucas palavras, que o homem destrói a natureza e que “em 2050, a espécie humana estará consumindo (sic! Até tu gerundiando? O mundo vai mesmo acabar….) o dobro do que deveria”. Mas como assim, o dobro que deveria? Poderia explicar melhor? Quer dizer que se eu quiser repetir o prato, não poderei?

Acreditando fielmente no que diz o relatório, Marcelo ainda alfineta pessoas, que como eu, guardam desconfianças nestes estudos globais que afirmam que o mundo vai de mal a pior, que estamos consumindo mais do que o planeta pode suportar e que afinal, né meus amigos, todos temos que colaborar (e acreditar) com nossos redentores e salvadores como a WWF e outras fundações do gênero. E como explicar que o consumo de calorias per capita, aumentou, com exceção de alguns países africanos, no mundo todo nos últimos anos? E que a expectativa de vida subiu? E que o preço dos alimentos comparativamente é menor hoje que a 50 anos?

Para dar respaldo ao relatório do WWF, ele cita um recente relatório do Banco Mundial (passou pela revisão dos pares?) que “defende que países ricos invistam na preservação de florestas tropicais, pagando para que países como o Brasil continuem a prestar esse serviço ambiental para o planeta”. E o que uma coisa tem haver com a outra? Se os países ricos engoliram esta, o Brasil que não dê uma de tonto, e além de aproveitar para preservar nossas florestas (sim, elas tem que ser conservadas) ganhe um dinheirinho, ou quem sabe um desconto nos juros da dívida externa.

Mas, a não ser pelos autores que são cientistas, estes dois relatórios não passaram pelo escrutínio do processo científico normal, apesar de serem alardeados como se fossem. Pior é o que o grande público não está nem aí para este processo. Esta semana mesmo, saiu um artigo na Science dizendo que a comida do mar vai acabar em 2050, se as atuais taxas de sobre-exploração permanecerem. Mas para o nosso amigo leigo fica a impressão que ambos trabalhos têm o mesmo peso científico. Há uma distância enorme entre as duas conclusões e métodos. E o pobre do público?

Pode pensar que o artigo da Science confirma o relatório da WWF. Mas será que uma questão específica (alimento oriundo nos oceanos), pode me dar liberdade para concluir sobre o estado do mundo? Um dos dirigentes da WWF aqui na África do Sul comentando sobre o relatório, disse que apesar de tudo, o continente africano ainda tem problemas mais urgentes a resolver como a fome e a AIDS e pra isto tem que aumentar a produção agrícola, gastar em campanhas educativas e em remédios de alto custo. Pois é, mas a palavra fome nem consta do relatório da WWF. Quem se arvora a discutir os problemas do mundo, sugerindo até algumas soluções para eles, não pode deixar passar uma dessas (mas o trabalho não teve referee, lembram?).

Às vezes me lembro da história da saúva. O Brasil não acabou com ela e ela não acabou com o Brasil, a despeito de todos os alardes que foram feitos na época. Só o desenvolvimento pode melhorar nossa relação com o ambiente. Como já diria o Nelson Rodrigues: “Paisagem é verba” e o continente africano, por exemplo, ainda está longe de ter uma graninha pra apreciar sua maravilhosa paisagem.

Referenciado por:
  • Digg
  • del.icio.us
  • Netvouz
  • DZone
  • ThisNext
  • De.lirio.us
  • StumbleUpon
  • Technorati
  • Internetmedia
  • YahooMyWeb

Uma Resposta

  1. Roberson Says:

    Ronaldo: sou leitor assíduo dos dois (Gleiser e Leite). Ambos são craques, e como todos às vezes têm seus deslizes. Tive um insight parecido quando li esse texto do Gleiser. E acho que o Leite é ambientalista exagerado. Mas é curioso que um cara que tem formação básica em Ciências Sociais tenha tamanha verve em ciências biológicas.
    Já travei uma discussão com ele sobre determinismo genético, neodarwinismo e Richard Dawkins que me deixou meio embasbacado.

    Só mais uma coisa: depois de estrelar série no Fantástico o Gleiser vai – se já não o fazia -comer quem quiser O cara é rico, inteligente, culto boa pinta e artista global. Phoderoso o cara.

Deixe um Comentário

Observe: Comentário com moderação, é necessário ativá-lo e pode demorar um pouco. Não há necessidade de reenviar o seu comentário.