Nicolau Copérnico (1473 – 1543) não foi o primeiro a tentar provar que a Terra girava em torno do sol. Foi precedido por Erastóstenes de Cirene (300 a.C.) que estimou o diâmetro da Terra (12.800 km), provando que nosso planeta é redondo e Aristarco de Samos (320-250 a.C.) que tentou medir a distância do sol com a Terra, criando a teoria heliocêntrica (objetos giram em torno sol). Ainda, 300 anos antes de Copérnico, os islâmicos discutiram muito, e bem, sobre o movimento da Terra ao redor do Sol e também o influenciaram (há controvérsias sobre a intensidade desta influência).
Assim, e por incrível que pareça, dizer que a Terra girava em torno do Sol era, cientificamente falando, o de menos. Mas as idéias estavam, de qualquer forma fragmentadas e Copérnico deu um corpo a teoria do heliocentrismo, pois foi além da relação Terra-Sol. Ele deixou muito claro que os objetos pesados em todos os lugares tendem para seus próprios centros, isto é, objetos terrestres caem na Terra, lunares caem em direção ao centro da Lua e assim por diante. Deste modo, todos os corpos têm mesma natureza e são capazes de atrair corpos menores. Isto abriu caminho para uma explicação mais geral do movimento dos corpos, isto é, para a gravitação universal que foi usada por Galileu anos depois e definida e demonstrada por Newton posteriormente.
Outro autor que influenciou Copérnico na Universidade de Cracóvia foi Jean Buridan (1295-1358) que é considerado um craque em lógica e filosofia natural já que definiu a metodologia do tratamento dos objetos reais, como autônoma em relação à teologia e metafísica.
Com seu método científico, Buridan foi capaz de definir o conceito de impulso e inércia de modo impressionante. Ele disse que as esferas celestes não enfrentam resistência externa aos movimentos rotacionais e não têm tendência interna para um lugar de repouso (como pensavam os aristotélicos), desta forma, seus movimentos rotacionais uniformes devem-se puramente a inércia e, para se manter, não exigem causas que atuem sobre eles. Assim, completa Buridan, Deus pôde descansar ao sétimo dia, pois entregou os movimentos aos corpos, no próprio ato da criação deles, nos seis dias anteriores.
Apesar desta inegável colaboração à sua formação intelectual, Copérnico ainda assim deve ter desprezado o dito de Buridan: “Para os astrônomos, é suficiente adotar um modo de salvar os fenômenos, seja ele verdadeiro ou não”. Copérnico tinha convicção de não ter feito um simples cálculo ou hipótese consistente com as observações. Ele tinha descrito uma lei da natureza.
Pois bem, quando da publicação da obra copernicana e com medo da notícia sobre o “rebaixamento” da Terra à mero planeta e fora do centro do universo, o editor e gráfico Andreas Osiander inseriu num lugar visível, uma declaração, sem o conhecimento do então enfermo autor, dizendo que o próprio Copérnico não acreditava naquilo e que o livro era um método de cálculo que lançava apenas uma hipótese no sentido de “conjectura provisória” e não de uma “proposição categórica fundamental”, definição de hipótese que Copérnico defendera em carta privada ao editor medroso.
Entendemos os motivos de Osiander em dizer que aquilo era mera hipótese. Afinal, ele poderia ser queimado na fogueira inquisitória, mas não tenho certeza se ele foi o primeiro a dizer que um covarde vivo vale mais que um herói morto. Porém, quem está “vivo” hoje? Copérnico ou Osiander.


