É um pássaro? É um avião? “Não! É uma ilusão criada, no capitalismo, para que compensemos a falta de liberdade individual com a liberdade imaginária vivenciada por ele, o super-herói” e o Super-Homem é um deles.
Essa é uma das definições do Prof. Nildo Viana, em seu “Heróis e super-heróis no mundo dos quadrinhos” (Editora Achiamé, RJ, 77p.), livro no qual explica os valores axiológicos dos gibis e analisa o inconsciente coletivo a eles associado. Em “A Ciência dos Super-Heróis”, de Lois Gresh e Robert Weinberg (Ediouro, 230p.), no qual os super-heróis são explorados do ponto de vista científico, o Super-Homem é mostrado como uma impossibilidade. Por exemplo, o poder de voar do Super vem do fato de que em Krypton, a gravidade é mil vezes mais forte do que a da Terra, mas isto exigiria ossos muito densos e maiores e obviamente ele não seria nadinha parecido com os humanos. Infelizmente, até Krypton é um absurdo, pois mesmo um planeta com gravidade 50 vezes maior que a da Terra, é essencialmente impossível de se formar, segundo a física conhecida da matéria sólida, pois ele se colapsaria em si mesmo.
Em outro artigo pro Jornal Opção de Goiânia, meu colega de UEG, Nildo escreveu sobre remakes de filmes: “servem a ordem capitalista vigente, para obter lucros…”. Mas não comentou nada sobre “Super-Homem retorna” que acaba de ser lançado em DVD. Sei que este espaço é pra falar de ciência, e vou voltar a falar dela, mas primeiro tomo a liberdade do leitor pra comentar o filme do Super-Homem. Confira o enredo: começa com o Super-Homem voltando, numa espaçonave, à fazenda da mãe terráquea (o pai morreu). Foram 5 anos de árdua viagem pelo universo para certificar-se da inexistência de Krypton. Ponto. Nada mais é falado da viagem. Até Darwin, que navegou pelo mesmo tempo, mas em menor distância, teve mais o que dizer no século XIX.
Clark Kent volta, então, ao Planeta Diário e, continua se comportando como um caipira novato na cidade. Isto é um erro tão crasso do roteirista/diretor que fica até difícil acreditar que foi cometido. A desculpa de sua longa ausência é que foi trabalhar em “outros países”. Porém ele volta com os mesmos trejeitos de “foca” e nerd, justamente o tipo de pessoa, que todo mundo desconfia. Ninguém que quer esconder uma identidade secreta pode ser tão bobo assim, pois isto chama muito a atenção. Como se já não nos bastasse o constrangedor Peter Parker em Homem-Aranha 2.
Mas falemos da heroína: Lois Lane, a eterna superpaixão. Casada, tem um filho de 5 anos. Seu marido também é jornalista, com o significativo detalhe de ser sobrinho do dono do Planeta Diário. Ele também voa, mas num pequeno hidroavião que fica nos fundos de uma bela casa na baía de Metrópolis. Luxo despojado e de “bom-gosto”. Te contei, não? Nos próximos dias, a nova herdeira do jornal, ganhará um Prêmio Pulitzer pelo texto: “Porque o mundo não precisa do Super-homem”. Ah! E eu que um dia acreditei no amor dela pelo meu amigo Super…. Que belo idiota, fui. Me comportei como o marido: o último a saber.
Quando ele foi embora e a deixou sem um adeusinho sequer, ela não perdeu tempo: na falta do Super, escolheu o sobrinho do dono. Poder é afrodisíaco. Além de continuar se comportando como jornalista novata e impertinente, Sra. Lane tem uma ética “diferente”, ou como dizem os companheiros, ela prefere ser uma “metamorfose ambulante”. Vai receber o Pulitzer por um texto que espinafra o Super, mesmo tendo construído sua carreira em cima dele, aproveitando-se de sua relação mais que particular e privilegiada. Bem, de duas uma: ou como dizia Dostoievski, “pra escrever bem é preciso sofrer, sofrer, sofrer” e ela morrendo de amores, pariu sua obra prima, ou _as feministas que me perdoem_ “com mulher rejeitada ninguém pode”. A Sra. Lois Lane venceu na vida, falando mal do “Ex”. Que pena o Diogo Mainardi não trabalhar em Metrópolis. Escreveria um artigo daqueles, que valeria a pena guardar…
Além disso, Lois é enxerida (invadiu descaradamente uma propriedade particular), arrogante (não foi à cerimônia pra receber o Pulitzer), mente pro marido e fuma escondido. Como mãe é de uma irresponsabilidade irritante: atrasa pra pegar o filho na escola, o colocou duas vezes em situação de risco de morte, leva o garoto doente para o próprio serviço e não o alimenta bem. Quer mais? O verdadeiro pai do menino é o Super-Homem. Que mulher ordinária! Só mesmo um super-herói, pra agüentar uma “Ex” como esta.
Mas o pior do filme é de longe Lex Luthor. De aristocrático, gênio e maléfico nas Histórias em Quadrinhos ou em outras versões filmadas, passou para novo rico (com biblioteca cafona e mulher vulgar), golpista (aproveitando-se de heranças de velhinhas ricas) e ladrãozinho de subúrbio, pois rouba a casa do Super-Homem, lá nos confins do continente gelado, enquanto este viaja (Nem a casa do Super, está a salvo. Este mundo tá perdido…). Luthor descobre que quando um pedaço do cristal kryptoniano é colocado na água, ele literalmente “gera” um mundo, isto é, soerguem das entranhas do nosso planeta, novas montanhas e territórios (mais uma aberração científica). Aliás, o sonho dele, mostrado em mapas é criar um novo continente, onde só ele é o dono. Meu Deus! Nunca pensei que um dia, o gentleman Lex fosse querer virar latifundiário. Ou ainda, minerador já que o mundo que criava era duro e árido (necessitaria de bilhões de anos para o solo ser formado).
Enquanto nos gibis Luthor é o gênio da “bioengenharia megaeletrônica”, clone jovial dele mesmo, e detentor de todas as informações importantes do universo, no filme ele quer ter umas terrinhas, pra guardar seus inimigos (o supermorto, de preferência), seus livros, discos e nada mais… Aliás, o soerguimento do continente luthoriano, afundaria os EUA. Certamente, se pudesse, Lex receberia o apoio do MST. Se bobear, até o Planeta Diário, com seus jornalistas da esquerda chique, o apoiaria. Lois Lane tenta estragar os planos dele, mais para salvar o filho, que ela mesma meteu na enrascada, do que propriamente discordar de sua ideologia.
Meu amigo Nildo Viana ainda diz que o “super-herói só pode existir havendo um mundo habitado por seres superpoderosos, incluindo os supervilões”. Faz todo o sentido, pois com um inimigo como este Luthor, o Super-Homem só poderia mesmo virar o Ricardão da hora, voando com a jornalista enquanto lhe concede uma exclusiva. No início do vôo ela ainda diz: “Esqueci de como você é quentinho” (Não é fofo? Vai passar no Jornal Hoje, edição de sábado). Enfim, o filme é uma superporcaria, e olha que bons roteiros não faltam nas HQs, entre eles a morte e ressurreição do Super-Homem (com roubo de corpo e tudo mais em “Funeral para um amigo”), ou sua luta com Batman no clássico “Cavaleiro das Trevas” de Frank Miller.
Há ainda, uma história excelente, mas menos valorizada, “Entre a Foice e o Martelo”, na qual a nave da super-criança cai na URSS, e ele torna-se o camarada Super-Homem, agente do comunismo internacional, invejado pelos racistas do Partidão, que não admitem que um extraterrestre, seja o sucessor de Stálin, e possa assumir o comando da mãe russa. Enquanto isto nos EUA, Lois Lane casa-se com Luthor que, a seu modo, acaba formando, ao derrotar o império do Super-Brother, um governo mundial, em que finalmente “as crianças brincam e os adultos têm emprego”, num autêntico socialismo utópico e futurista. Isto sim é que é roteiro! Aposto que adeptos do marxismo, como o Prof. Viana, nunca esperariam que o comunismo chegasse com Luthor sucedendo Super-Homem que então passa a viver como um cidadão ensimesmado.
Assim temos dois livros científicos sobre heróis (há outros, claro). O de Nildo está sobre o prisma da Sociologia, ciência que pertence as “Humanas”, também conhecidas como ciências moles, incapazes de medir algo e, em geral, inábeis para fazer previsões precisas (sim, há exceções) a cerca do comportamento da espécie humana. O mais irônico disto, é que normalmente os sociólogos, em especial os marxianos são tão repetitivos, que acabam sendo, digamos, super-previsíveis…..
O outro livro, de Gresh & Weinberg, é ciência dura (Exatas e Biológicas), explicando certos pormenores mais quantificáveis dos supers: por que não dá pra correr como o “The Flash”? Por causa da relatividade. Seriam Aquamam e Príncipe Namor legítimos descendentes do “ancestral aquático”, uma teoria da evolução humana (fora de moda) que especula que nossos antepassados viviam num ambiente de transição entre a água e a terra? Por que o Batman é o mais admissível dos super-heróis? Por que é humano e usa tecnologias já ao nosso alcance. Por que nos dias de hoje Dr. Banner, seria biólogo e não físico? Por que testaria anabolizantes em si próprio, e num acidente injetaria o gene da medusa, que a permite trocar de cor, tornando-se assim o incrível Hulk. Delícias de uma cultura inútil.
E você ainda fica sabendo que há um princípio nos quadrinhos chamado de “continuidade retroativa”, que permite uma volta ao passado para reescrever a história do super-herói de acordo com as necessidades mercadológicas do presente. Sinceramente, eu jurava já ter lido isto em Gramsci, poeticamente em Orwell e mais recentemente no programa do PT. Enfim, é um novo modo de dizer que a história se repete como farsa.
E no filme do Super-Homem, mais do que nunca.


novembro 23rd, 2006 at 22:31
Ronaldo…
Eu sempre tive a impressão de que vc era realmente louco. Hoje, lendo seu blog (e grifo que sou assíduo às suas palavras), percebo que vc é realmente louco. Mas um adorável louco! Ah se fôssemos todos loucos assim como vc!
Meu camaradinha… se mais ninguém ousar ler suas tão bem escritas linhas, eu o farei… e não por obrigação, mas por pura curiosidade do que virá a seguir!
Continue…
Do sul do brasil (minúsculo mesmo), ainda na luta para ser dotô e prestes a ser um desempregado graduado (ops, pós-graduado)…
Rodrigo Costa
março 25th, 2009 at 9:38
Ronaldi, vc é muito equivocado. Deveria estudar mais e entender melhor o que escreve. Não se deve falar do que não se entende. Isso é pedantismo, coisa que não falta na universidade. Veja que Nildo Viana, que vc diz ser seu colega, faz um trabalho sério e original sobre super-heróis, unindo sociologia e psicanálise, e os ditos “cientistas” que vc cita fazem apenas irrelevantes considerações sobre o mundo da ficção como se não fosse ficção… Puro exercício de inutilidade intelectual. Previsível, no fundo, é você com seu reacionarismo, seu conservadorismo que faz parte da sua estrutura de caráter e que faz vc ser cego. “Abra a capa do olho”!!!
março 25th, 2009 at 10:21
João de Deus, se você é o professor que eu conheci tempos atrás, agradeço seus comentários, apesar de nada elogiosos. Mas você, dizer que Nildo Viana faz um trabalho sério (eu nunca disse o contrário, só não concordo com as opiniões dele) e os autores Gresh & Weinberg, apenas “inutilidades intelectuais” é desconhecer que o trabalhos destes, pode por exemplo, ser usados como ilustração em aulas ou em analogias científicas, para auxiliar o aprendizado intelectual de crianças e jovens, coisa que o nosso país é carente como você bem deve saber. Eu sou mesmo um conservador a não ligo de ser chamado de reacionário e na minha opinião, este tipo de “caráter”, como você diz, faz muita falta na universidade, tão cheia de defensores de idéias modernistas e “revolucionárias”. (Ronaldo Angelini)